Análise

House of Cards erra e se perde com protagonista no poder dos EUA

Fotos: Divulgação/Netflix

Kevin Spacey interpreta Frank Underwood durante debate eleitoral na série House of Cards - Fotos: Divulgação/Netflix

Kevin Spacey interpreta Frank Underwood durante debate eleitoral na série House of Cards

VANA MEDEIROS, Especial para o Notícias da TV - Publicado em 21/03/2015, às 07h02

A terceira temporada de House of Cards começa deliciosamente cruel: matamos a saudade das mordazes e certeiras palavras de Frank Underwood (Kevin Spacey) enquanto ele urina no túmulo de seu pai. A cena dá uma pista de que a incursão pela vida do protagonista será tão interessante quanto nas duas temporadas anteriores. Engano. Em sua derrocada, a premiada série perde consistência. Agora presidente dos Estados Unidos, Frank não tem mais a crueldade e a ambição que fizeram dele um personagem tão marcante.

Os novos capítulos da série estrearam mundialmente pela Netflix em 27 de fevereiro, após uma campanha de marketing de deixar as grandes distribuidoras de conteúdo com inveja. Não que fosse preciso convencer a alguém a acompanhar a brilhante trajetória do político, que no final de sua segunda temporada havia conseguido finalmente o resultado de tantos e tão criminosos esforços anteriores: a Presidência da República dos Estados Unidos.

Tudo o que Frank Underwood havia feito até aquele momento _todas as artimanhas, as armadilhas, mortes e manipulações_ haviam valido a pena. Ele enfim passou de rejeitado pelo presidente eleito a presidente em exercício do poder, após a renúncia de seu antecessor, em uma trama por vezes grandiosa demais, mas tão justa e encadeada que foi impossível desviar os olhos durante sua ascensão. Até chegarmos às duas batidas na mesa, aquelas que ecoaram por um ano na mente dos fãs desta obra-prima sobre o poder.

Não mais. Com Frank e sua amada Claire (Robin Wright) no poder, os roteiristas sucumbiram a um desespero bastante palpável: quem são os Underwood sem sua ambição? O que podem desejar agora o presidente do mundo livre e sua incrível Lady Macbeth?

Aparentemente, ninguém conseguiu pensar em um novo objetivo à altura do casal e ele ficou à deriva, lidando com seus problemas de relacionamento e transformando a grandiosa House of Cards em uma novela ambientada em Washington, só não tão rocambolesca quanto Scandal _pelo menos isso.

Sem novas terras para conquistar, Frank e Claire perderam completamente o interesse um pelo outro, e nós por eles. É bastante nítido no desenrolar da trama que essa era uma das intenções da equipe criativa: deixar claro que a emoção de suas conquistas era o cimento que fortalecia esse sólido (e antes tão assustador quanto sexy) casamento.

Kevin Spacey (de costas) e Robin Wright em cena da terceira temporada de House of Cards

Mas essa ambição desenfreada, impulsionada por uma honestidade bruta e uma crueldade sem pedir desculpas, era também a liga que nos prendia à tela, e tornava a série menos um simples drama político e mais um tratado sobre as consequências e as artimanhas do poder. Não é à toa que Shakespeare é uma das principais influências da atração, que leva à risca o modelo do dramaturgo inglês em traçar um perfil da crueldade humana diante de um trono.

Foi desse teatro elizabetano, inclusive, que saiu um dos grandes trunfos da atração: os monólogos interiores de Frank, compartilhados apenas com os espectadores.

Outras séries já exploraram tamanho mergulho frontal no caráter de seus protagonistas antes. Um exemplo bastante palpável talvez seja o dos mockumentaries, como The Office ou Modern Family, quando os personagens se relacionam diretamente com quem assiste, em uma sala reservada somente para isso, abrindo caminho para que eles se contradigam ou comentem o que aconteceu anteriormente.

Frank, não. Sua fala em aberto deixa claro que ele não tem nenhuma intenção de esconder nenhum de seus passos do espectador, criando uma relação de confiança e cumplicidade das mais intrigantes, ainda mais se tratando de figura tão detestável. Conforme Frank avança em suas proposições, avançamos e torcemos junto com ele, surpreendidos, chocados e admirados por sua inteligência e capacidade de manipulação.

Como um personagem shakespeariano, ele se transforma através de suas próprias palavras, em um diálogo que é ação, que age sobre si mesmo. Ele confabula e nos dá essa rara oportunidade de presenciar uma transformação, ponderando e se moldando para alcançar melhor seus objetivos.

Nesta terceira temporada, tamanhos foram os erros dos roteiristas que até os monólogos de Frank são colocados de lado. Ao confiar demais no poder da relação dos Underwood da fraca trama russa, eles cometeram um erro de análise crucial: não souberam identificar em sua série o que a diferenciava de qualquer história que se passe em Washington.

A Washington de House of Cards não é a capital do país, é um grande tabuleiro de xadrez. Claire Underwood não é a primeira-dama, não a subestime. Frank Underwood não é um político qualquer. Nós sabemos. Ele nos convenceu disso. Agora, é preciso que os roteiristas se lembrem com quem eles estão falando.


VANA MEDEIROS, 27 anos, é jornalista especializada em televisão. Com passagens pela editora Globo e pelos sites Estrelando e Casal Sem Vergonha, é apaixonada por séries e trabalha como dramaturga e roteirista. É autora do livro Guia das Séries, publicado pela editora Évora em 2014. Já viu de tudo e desenvolveu uma alta tolerância a séries ruins. Só não tolera uma coisa nessa vida: haters de Breaking Bad. Visite: http://vanamedeiros.com.br


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