Análise | Novelas

Ato político, beijo gay de Babilônia afugenta 'família' para o SBT

Fotos: Reprodução

Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg em cena em que suas personagens se beijam em Babilônia - Fotos: Reprodução

Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg em cena em que suas personagens se beijam em Babilônia

DANIEL CASTRO - Publicado em 21/03/2015, às 13h27

RESUMO: Os beijos de Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg) em Babilônia ajudaram a afugentar telespectadores. A audiência da novela caiu de 33 pontos na segunda para 25 na sexta. Parte do público migrou para o SBT, que lançou o slogan "novela pra família é aqui". Mas o que incomoda tanto nos beijos? Eles são "mais do que beijos". São atos políticos

"A sociedade de vez em quando tenta mudar, tenta esconder pessoas como eu. Não consegue, não vai conseguir nunca". Foi com esse manifesto que a advogada Teresa, personagem de Fernanda Montenegro, se apresentou aos telespectadores de Babilônia, a nova novela das nove da Globo. Ao lado de Nathalia Timberg, intérprete de Estela, a atriz de 85 anos protagonizou a polêmica da semana na TV. Em relação estável há 40 anos, as duas personagens deram dois beijos em apenas dois dias, um deles para comemorar a notícia de que finalmente poderão se casar.

As cenas tiveram forte reação de políticos e pastores evangélicos, que lançaram uma campanha de boicote à trama de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenez Braga. Pelos números do Ibope, é possível dizer que os beijos ajudaram a afugentar parte do público. Babilônia estreou com 33 pontos na Grande São Paulo. Na quarta e na quinta, caiu para 29. Ontem (20), segundo dados preliminares, fechou com apenas 25.

Uma semana antes, com o final de Império, a emissora marcava mais de 40 pontos no horário. Uma parcela dessa audiência nunca foi fiel e deixou de ver TV aberta assim que a novela de Aguinaldo Silva acabou. A outra parte migrou para o SBT, que vem explorando a rejeição à trama lésbica na Globo e lançou o slogan "novela pra família é aqui". No mesmo dia e horário da estreia de Babilônia, a rede de Silvio Santos reestreou Carrossel (2012) e viu sua audiência saltar de 6 pontos para 12 (13 na quinta).

Os números já preocupam a cúpula da Globo. A fuga dos telespectadores infiéis ou que se sentiram "viúvos" com o fim da saga de José Alfredo (Alexandre Nero) já era esperada. O que não estava no roteiro era a explosão da reprise de Carrossel.

Mas o que incomoda tanto nos beijos de Estela e Teresa, depois das experiências com Niko (Thiago Fragoso) e Félix (Mateus Solano), em Amor à Vida, e de Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Müller), de Em Família? 

Em uma análise mais "novelística", Babilônia chocou mais porque já estreou com um beijo entre duas senhoras maduras. Não fez toda uma preparação do público, apresentando o desenvolvimento de um "sentimento maior" entre os personagens, como ocorreu nas novelas de Walcyr Carrasco e Manoel Carlos. Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, dois monumentos da teledramaturgia nacional, já chegaram se beijando, sem que o público tivesse familiaridade com as quatro décadas de amor de suas personagens.

Porém, como diz a música de Maria Bethânia que embalou o segundo beijo de Teresa e Estela, na quarta-feira, aquilo foi "mais do que um beijo". Os beijos das duas mulheres são um ato político, não só por todo o amor que os contextualiza, mas também pelo peso das intérpretes e, principalmente, pela explícita proposta dos autores da novela. 

Braga, Linhares e Ximenez não criaram Teresa e Estela para eventualmente excitarem voyeuristas com seus gestos de carinho explítico, como pode ter ocorrido em Amor à Vida e Em Família. As personagens têm o firme propósito de enfrentar a homobofia e educar para a tolerância sexual, tanto que são das poucas de moral inquestionável em uma trama repleta de interesseiros, aproveitadores, assassinos, corruptos e exploradores.

Teresa e Estela são militantes da causa gay. Elas vão se casar e mostrar para todo mundo que venceram a sociedade que tentou escondê-las. Vão provar que o amor e a família saudável entre duas pessoas do mesmo sexo são possíveis. A cada capítulo, vão dar um tapa na cara do preconceito. A não ser que a "família" brasileira diga não.

Imagem de chamada do SBT para Chiquititas explora rejeição a beijo lésbico na Globo


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