OPINIÃO

Entre acertos e erros, Bom Sucesso se despede com marcas de dever cumprido

REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Imagem de Grazi Massafera e Antonio Fagundes abraçados desfilando na Marquês de Sapucaí em cena como Paloma e Alberto de Bom Sucesso

Paloma (Grazi Massafera) e Alberto (Antonio Fagundes) em cena de Bom Sucesso, novela das sete da Globo

CLAUDINO MAYER - Publicado em 24/01/2020, às 04h54

A novela é um gênero popular que acompanha as mudanças da sociedade. Na atual conjuntura, enredos que narram sentimentalismo entre heroína e herói não estão fora de moda. Nesse contexto, Bom Sucesso agradou. Talvez, em outro momento, não agradasse. A trama é o reflexo do que o público está a pedir. Tem o padrão clássico e o formato da telenovela brasileira.

O folhetim se apropriou do discurso acadêmico por trazer trechos de livros e poemas de diferentes autores em um grau de densidade, mas que foi de fácil compreensão e entendimento. As citações e referências a diversas obras da literatura fizeram compreender cada cena com mais facilidade e sintonizar o telespectador desatento.

As citações surgiram na forma de pequenos trechos das obras para que o público pudesse fixar o conteúdo. As referências aos livros são um recurso, literalmente, inédito em novelas brasileiras. Os autores abusaram, e este foi o ponto alto.

Pontos fortes 

Bom Sucesso trouxe um discurso social que dialoga com as diversidades da sociedade: personagens negros foram valorizados --mais de 15 apareceram; o núcleo de adolescentes do bairro; as crianças Peter (João Bravo) e Sofia (Valentina Vieira) como representantes de uma geração que está plugada no mundo digital; a dificuldade em encontrar um doador de sangue compatível para Gabriela (Giovanna Coimbra).

Veio à tona a importância da doação de sangue, da existência de um sangue raro conhecido por fenótipo bombaim. O tom de comédia amenizou a temática da morte por meio de cenas hilárias da atriz Silvana Nolasco (Ingrid Guimarães).

A novela reforça o estilo de narrativa desenvolvida entre os anos de 1970 a 1980 por Janete Clair (1925-1983), que envolvia o público com suas tramas rocambolescas de fácil entendimento. Alberto Prado Monteiro (Antônio Fagundes), acometido por uma doença terminal, poderia ter sido o ponto fraco por trazer um estado de tristeza e desencanto geral para um espaço acostumado a comédias.

Paloma (Grazi Massafera) é a mocinha moderna, que tem preocupação com a casa, e principalmente com seus filhos, irmão, vizinhos. Ela é o retrato da mulher moderna, jovem, que teve na maternidade o amadurecimento sem renunciar seus desejos. Apesar da beleza, esse não foi esse o ponto determinante que a fez sobressair.

Pertencente à classe social inferior do subúrbio carioca, sua narrativa remete a diversos contos de fadas. Estes foram identificados na trama de forma substancial à realidade preexistente do conhecimento de cada telespectador. Tinha como ofício a costura e terminará como estilista. Conquistou a empatia do empresário Alberto e o amor do herdeiro Marcos (Romulo Estrela).

O vilão Diogo (Armando Babaioff) trouxe um tom de descontração que deu leveza às aventuras constituídas por contratempos, mortes, maldades, ódios. Esses argumentos dialogaram com os mais diferentes tipos de comportamentos.

A criação de Diogo é a de um vilão clássico de novela, que tem como ação trazer conflitos e coincidências inacreditáveis para conseguir suas metas. Suas ações perpassaram por todas as tramas. Para ajudar em suas conquistas, incluía a comparsa Gisele (Sheron Menezzes).

Pontos relevantes

Entre os destaques da trama estão os personagens homossexuais. Pablo (Rafael Infante), ao descobrir sua orientação sexual, se apaixonou por William (Diego Montez). Os conflitos e dilemas deles estavam muito próximos dos encontros e desencontros dos casais heterossexuais.

Além disso, a discussão da transexualidade adolescente de Michelly (Gabrielle Joie), de 15 anos, trouxe questões de gênero e os preconceitos.

O público de novela rejeita essas abordagens, às vezes, porque são normas e práticas estabelecidas culturalmente como algo diferente. No entanto, isso não aconteceu em Bom Sucesso, porque a forma de pensar e de agir deles foram convincentes por apresentar concepções universais enraizadas na sociedade: sentimentos, desejos, receios, amizade e amor ao próximo.

Ponto fraco 

O jogo de basquete e os treinos dos jovens atletas não conseguiram contagiar o público. Não foi culpa dos autores Rosane Svartman e Paulo Halm. O esporte passou despercebido, talvez por estarmos no país em que a bola é jogada pelos pés, não pelas mãos.

Por fim, a trama evoluiu e cativou a todos porque os autores seguiram os paradigmas de linguagem e de produção da telenovela brasileira que o público está acostumado. As obras literárias foram integradas na linguagem não literária, da TV. Com isso, o folhetim teve sempre algo para contar a mais sobre as ações e reações dos personagens. Bom Sucesso deixa marcas de dever cumprido!


Claudino Mayer é doutor em Ciências da Comunicação e Especialista em Teledramaturgia pela Universidade de São Paulo. É professor de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal de Mato Grosso


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