carta à direção

Jornalistas da TV Brasil reclamam de censura na cobertura do caso Marielle Franco

Guilherme Cunha/Alerj

A vereadora Marielle Franco (1979-2018) segurando um microfone

Vereadora Marielle Franco, morta em 14 de março de 2018; jornalistas reclamam de censura sobre o caso

REDAÇÃO - Publicado em 26/11/2019, às 08h55 - Atualizado em 27/11/2019, às 18h29

Jornalistas da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), mantenedora da TV Brasil, enviaram uma carta à cúpula do veículo para questionar a cobertura das investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. No documento direcionado à diretora-geral, Cristiane Samarco, e à diretora de Jornalismo, Sirley Batista, os profissionais reclamam da demora em noticiar o pronunciamento de Jair Bolsonaro sobre o caso e denunciaram censura. A emissora nega qualquer tipo de censura.

Uma fonte da emissora encaminhou a carta ao colunista Robson Bonin, da revista Veja. Nela, os jornalistas dizem que a EBC noticiou 15 horas depois os fatos publicados pelo Jornal Nacional sobre a declaração do porteiro do condomínio em que mora um dos acusados citando Jair Bolsonaro. Outros veículos do grupo, como a TV Brasil, nem falaram sobre o assunto.

O documento solicita uma reunião com a diretoria para falar sobre os critérios editoriais e lembra que a isenção do veículo é essencial para assegurar a credibilidade. “Mais uma vez lembramos que a EBC é uma empresa de comunicação pública, com missão definida, função constitucional assegurada e um manual de jornalismo que deve nortear todas as nossas coberturas e não ser esquecido no fundo da gaveta quando convém”, diz um trecho.

“A decisão editorial equivocada de silenciar, ou avaliar com longa espera, sobre a notícia mais importante do dia faz com que a EBC perca o respeito e a credibilidade perante a sociedade, a quem devemos servir”, continua a carta.

Leia a carta na íntegra enviada à cúpula da EBC:

"Prezadas Sirley Batista e Cristiane Samarco,

Os jornalistas da Empresa Brasil de Comunicação vêm, por meio deste, questionar o motivo que levou os veículos da EBC a entrarem tão tardiamente na cobertura da repercussão sobre as investigações dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

Levamos mais de 15 horas depois da fala do presidente da República, que veio a público dar suas explicações, por meio de uma transmissão ao vivo nas redes sociais, para publicar a primeira reportagem sobre o assunto na Agência Brasil. Passadas mais de 17 horas o tema continua silenciado nas nossas rádios.

Importante lembrar que se as reportagens de outros veículos nem sempre viram pauta na EBC, as transmissões da Presidência da República são, constantemente, cobertas pelos nossos veículos e estão sempre nas pautas. É grave a postura da empresa que foge do seu papel de noticiar oportunamente, com credibilidade e isenção esta informação.

Tanto a sociedade brasileira como agências e veículos internacionais de notícias procuram a EBC como fonte de notícia. Exigimos respostas da direção e repudiamos mais uma vez a censura a que estão submetidos os veículos da empresa, que os impede de noticiar questões relevantes como essa.

Nesse sentido, solicitamos uma audiência com a diretora de jornalismo com participação da ouvidoria da empresa para debater o silêncio, em alguns casos, e a demora em relação a esta pauta. Mais uma vez lembramos que a EBC é uma empresa de comunicação pública, com missão definida, função constitucional assegurada e um manual de jornalismo que deve nortear todas as nossas coberturas e não ser esquecido no fundo da gaveta quando convém.

A decisão editorial equivocada de silenciar, ou avaliar com longa espera, sobre a notícia mais importante do dia faz com que a EBC perca o respeito e a credibilidade perante a sociedade, a quem devemos servir. Incapaz de fazer a pauta sumir dos noticiários, o silêncio da EBC sobre ela apenas torna patente para o cidadão a linha editorial chapa-branca que hoje vigora no jornalismo da empresa. Aguardamos uma resposta sobre nosso pedido de audiência."

Nesta quarta-feira (27), mais de 24 horas após a publicação do caso, a TV Brasil mandou nota ao Notícias da TV se posicionando sobre a suposta censura. Confira:

"A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) esclarece que não há qualquer tipo de censura relacionada à cobertura do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, ou a qualquer outro tema.

A Empresa também reforça que o diálogo sempre foi ferramenta na condução dos trabalhos, e prova disso é que já havia recebido representantes da Comissão de Empregados para debater a referida carta e prestar os esclarecimentos sobre esta cobertura jornalística.

A EBC reitera que zela pela produção de um jornalismo sério, preciso, isento, com qualidade editorial, credibilidade e rigor técnico."

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