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COLUNA DE MÍDIA

Globo transforma dor de cabeça com games em oportunidade e replica Disney

REPRODUÇÃO

Jogo do BBB com participantes no meio do gramado da casa

Jogo do Big Brother Brasil lançado no ano 2000 era inspirado em The Sims

GUILHERME RAVACHE

gravache@gmail.com

Publicado em 20/7/2021 - 14h31

Você talvez não se lembre ou não saiba. Mas no ano 2000, a Globo lançou um game do reality show Big Brother. Era possível jogar no computador e no celular. Ao longo das últimas duas décadas a emissora fez diversos investimentos no setor com sucesso no mínimo questionável. Afinal, depois de todo esse tempo, dificilmente alguém associa a Globo ao mercado de jogos eletrônicos.

Para mudar esse cenário, no início de julho a Globo anunciou uma mudança radical na sua estratégia, com o spin-off dos ativos e parcerias feitos pela emissora nos últimos anos no segmento de games. Uma nova empresa, chamada de Player1 Gaming Group, será uma startup com investimento da Globo Ventures, unidade de investimento do Grupo Globo (Enjoei, Rappi, Órama, Bom pra Crédito, Stone, entre outras empresas fazem parte dos investimentos da Globo Ventures).

Com essa startup, os negócios em torno de games vão deixar a Globo e caminhar independentemente. "Nesse spin-off, vamos levar os ativos desenvolvidos, as parcerias estabelecidas e o time que liderou todas essas frentes na Globo. Vamos dar sequência aos projetos de games com a Globo, com marcas e publishers, mas daremos grande foco para escalar o negócio D2C (direct-to-consumer), nos arriscando mais e sendo mais ágeis", disse Leandro Valentim, CEO da Player1 Gaming Group, em comunicado à imprensa.

Ou seja, ou a área de games da Globo caminha sozinha ou irá desaparecer.

Reset da estratégia

"É um movimento inteligente da Globo", diz Andre Faure, CEO da GamePlan.GG, empresa de inteligência de negócios e tecnologia. "As características do modelo de negócio da Globo não funcionam na indústria de games. A Globo fez e faz incursões em games desde os anos 90 e não fizeram muito sucesso. Nunca conseguiram falar bem com esse público. É uma empresa grande e lenta para um mercado ágil como o de games", diz.

"Hoje, você tem empresas como a Garena que com um punhado de profissionais no Brasil fatura centenas de milhões no país. A brasileira Wildlife também fatura centenas de milhares de reais, enquanto a Globo não tem receita expressiva no segmento", afirma Faure.

A Garena, que desenvolve o game FreeFire e é controlada pela SEA, de Cingapura, faturou mais de R$ 15 bilhões apenas em 2020. O número é o dobro do faturamento da empresa em 2019. A América Latina foi um dos líderes de crescimento, com destaque para o Brasil. Para se ter uma ideia da audiência, o jogo tem mais de 100 milhões de usuários por dia e ficou em quarto lugar entre os conteúdos mais assistidos no YouTube globalmente. 

Já a Wildlife, startup brasileira criada em 2011 pelos irmãos Victor e Arthur Lazarte e pelo chileno Michael Mac-Vicar, se tornou uma das maiores empresas de games no mundo depois de lançar nomes como Tennis Clash, Zooba, Sniper 3D, Colorfy e War Machines. A Wildlife cresceu, em média, 80% ao ano nos últimos seis anos e já é avaliada em mais de R$ 15 bilhões. 

O que teria acontecido se a Globo tivesse investido em estúdios como o Wildlife ou Garena é uma pergunta que os executivos da Globo devem se fazer. A chinesa Tencent adotou essa estratégia e na última década se tornou a maior empresa de games do mundo. A receita em 2020 atingiu R$ 370 bilhões, um aumento de 28% em comparação com o ano anterior. O lucro líquido do ano foi de R$ 126 bilhões, um aumento de 71%. 

Além de ter parte da Garena, a Tencent tem o controle da Riot Games, desenvolvedora de League of Legends; tem participação na Epic Games, desenvolvedora de franquias como Fortnite, Unreal, Gears of War e Infinity Blade; mais participações na Kingsoft Network Technology, Activision Blizzard e outros desenvolvedores. 

Um jogo difícil

Para Faure, outra dificuldade para o sucesso da Globo no setor é o modelo do consumo de games. "É um mercado gigantesco, mas muito pulverizado. Os números não se encaixam nos modelos da Globo, seja para colocar na grade de programação ou vender projetos comerciais”.

Ou seja, FreeFire tem milhões de usuários no Brasil, mas isso não significa que essa audiência queira ver o conteúdo na TV ou que a audiência que já está na TV irá assistir ao FreeFire e outros games populares.

Produtores de conteúdo para o FreeFire como a equipe LOUD, criada em 2019 pelo streamer Bruno Playhard e pelo empresário Jean Ortega, são capazes de gerar horas e mais horas de conteúdo a um custo extremamente inferior em comparação ao da Globo. A LOUD reúne diversos influenciadores digitais que vivem em uma mansão onde produzem conteúdo 24 horas por dia, sete dias por semana. O canal da equipe tem mais de 12 milhões de seguidores no YouTube, mas cada influenciador também possui diversos canais.

Além da receita com streaming de jogos e participação em campeonatos, a LOUD também vende produtos, realiza centenas de ações comerciais com marcas e vende seus próprios produtos. 

Se tornar uma startup traz outras vantagens. "Em uma startup é possível ser mais eficiente até pelo perfil dos executivos que se pode contratar e pelo processo de decisão. Imagine o tempo para aprovar um projeto dentro de uma grande empresa. Dentro da Globo, faturar R$ 50 milhões é irrelevante, em uma startup, pode ser um grande sucesso", diz Faure. "Isso explica por que canais de TV não conseguem ter uma estratégia consistente em games. O espaço aumenta e diminui conforme o interesse da diretoria", acrescenta.  

Marco Legal das Startups

Faure e outros especialistas consultados pela coluna apontam ainda o Marco Legal das Startups, sancionado em junho, como mais uma explicação para a mudança. A medida permite que uma startup lance novos produtos e serviços experimentais com menos burocracia e mais flexibilidade. Startups também poderão participar de licitações públicas com acesso facilitado às concorrências que busquem soluções inovadoras e de tecnologia. 

Outra novidade do Marco é a criação da figura do investidor-anjo, ele é remunerado pelos aportes feitos e não responde por qualquer obrigação ou dívida da startup. Então, se a Player 1 Gaming Group estiver dando prejuízo, não precisaria nem estar no balanço da Globo, assim como os custos com seus funcionários.

Consultada, a Globo disse, por meio da assessoria, que não iria se beneficiar do Marco Legal das Startups. 

Não faltam exemplos de investimentos fracassados no setor. Particularmente quando se tratam de empresas de mídia como a Globo. A Disney é icônica nesse sentido.

Bug na estratégia

Em 2016, após vendas ruins e um prejuízo estimado de R$ 750 milhões, a série toy-to-life Disney Infinity foi encerrada, seu desenvolvedor Avalanche Software foi fechado e vários projetos independentes foram cancelados. Mais de 300 pessoas foram demitidas.

Depois do fiasco, a Disney se concentrou em títulos para celular e no licenciamento de suas marcas --principalmente Star Wars e Marvel-- para outros desenvolvedores. A mudança deu resultado.

Nos últimos anos, principalmente nos últimos 12 meses, a estratégia rendeu bons frutos. Foram lançados O Homem-Aranha, da Marvel, e seu sucessor em 2020, Miles Morales, aclamados pela crítica, assim como Star Wars Jedi: Fallen Order. Agora, a Machine Games está trabalhando em um novo jogo de Indiana Jones, a Zynga está trabalhando em Star Wars Hunters (primeiro projeto de console da empresa de games mobile). A EA também perdeu a exclusividade de Star Wars, abrindo caminho para a Massive Entertainment, da Ubisoft, lançar um novo jogo da franquia.

A estratégia de entregar os jogos a especialistas do mercado de games segue rendendo frutos. Na badalada feira de games E3 em junho passado, houve o lançamento de Avatar: Frontiers of Pandora, esperada adaptação da famosa franquia de James Cameron pela Massive Entertainment. A maior surpresa do stand da Xbox foi a colaboração dos Piratas do Caribe, do Capitão Jack Sparrow, com o jogo Sea of ​​Thieves. E quase metade do Square Enix Presents foi dedicado ao jogo Guardiões da Galáxia, uma das revelações mais comentadas. E a Respawn discretamente trouxe Star Wars Jedi: Fallen Order para o PlayStation 5 e Xbox Series X | S.

Sobre a mudança, Roberto Marinho Neto, CEO da Globo Ventures, afirmou em comunicado que o "investimento na Player1 Gaming Group reforça nossa crença no crescimento da indústria dos games e eSports. O spin-off vai trazer foco e escala para um negócio promissor centrado neste consumidor altamente engajado."

Nessas duas décadas, entre o lançamento do game do Big Brother e a criação da Player1 Gaming Group, o mercado de games se tornou maior que a indústria de cinema e música combinadas. O foco e a escala às quais Roberto Marinho Neto se refere, e que a Globo nunca pode dar, serão a chave para o sucesso dessa nova tentativa. E no pior cenário, caso essa nova startup falhe, será somente mais uma de muitas que não decolou e morreu sem maiores prejuízos para a Globo. Game over.


Este texto não reflete necessariamente a opinião do Notícias da TV.


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