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CRIME ROMANTIZADO

Cantora Duffy critica Netflix por filme 365 Dias: 'Minha própria tragédia erotizada'

REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

A cantora Duffy com cabelos soltos em foto preto e branco publicada nas redes sociais

Duffy em foto divulgada nas redes sociais; cantora escreveu carta aberta à Netflix e relembrou seu trauma

REDAÇÃO

Publicado em 3/7/2020 - 9h51

A cantora Duffy criticou a Netflix por produzir e exibir o filme 365 Dias, que romantiza a história de uma mulher drogada e sequestrada por um mafioso, por quem ela se apaixona. A britânica, que relatou em fevereiro deste ano ter sido estuprada e mantida em cárcere privado por quatro semanas, se sentiu extremamente ofendida pela premissa do longa. "A minha própria tragédia sendo erotizada e minimizada", desabafou.

Em uma carta aberta direcionada a Reed Hastings, CEO da Netflix, e obtida pelo site Deadline, Duffy lamentou que o serviço de streaming pudesse ter feito um longa tão problemático sobre um tema sério. 

Lançado pela Netflix em junho, 365 Dni (365 Dias, em tradução literal) entrou na lista dos conteúdos mais populares entre os brasileiros na plataforma na semana de lançamento. O filme polonês foi comparado com a trilogia Cinquenta Tons de Cinza por explorar uma trama que envolve dominação sexual, com cenas de sexo quase explícito, entre um homem e uma mulher.

Na trama fictícia criada pela autora Blanka Lipińska, a protagonista é drogada, sequestrada e mantida presa em uma mansão. Obcecado pela desconhecida, o personagem Massimo Torricelli (Michele Morrone) lhe dá um prazo para que ela se apaixone por ele "voluntariamente". 

Em fevereiro de 2020, Duffy publicou em seu perfil no Instagram um relato forte sobre ter sido sequestrada, estuprada, drogada e mantida em cativeiro por cerca de quatro semanas no final de 2010, algo bem parecido com o que é abordado no filme. 

Em sua longa carta, Duffy critica a 'glamourização' dos crimes de tráfico sexual, sequestro e estupro. Além disso, ela sugere que o streaming utilize seus recursos para contar a difícil realidade que mais de 25 milhões de pessoas ao redor do mundo que já vivenciaram e ainda vivenciam essa situação como vítimas.

"Querido Reed, eu não quero estar nessa posição de ter que escrever para você, mas o sofrimento que eu vivi me obriga a fazê-lo porque a experiência violenta que eu vivi é do mesmo tipo que você escolheu apresentar como 'erotismo adulto'. Eu fui drogada, sequestrada, traficada e estuprada", escreveu a cantora. 

"Isso não deveria ser entretenimento para ninguém, nem deveria ser descrito dessa forma ou ser comercializado dessa maneira. Me entristece que a Netflix dê plataforma para esse tipo de 'cinema', que erotiza o sequestro e distorce a violência sexual e tráfico como um filme 'sexy'", lamentou a dona do hit Mercy. 

Em seguida, a britânica ainda listou diversos sites que falam sobre a exploração sexual no mundo e ressaltou que o drama é sério para vítimas de abuso. 

"Vocês não perceberam que 365 Dias trouxe muito sofrimento para todos aqueles que vivenciaram a dor e o horror que esse filme glamouriza por entretenimento e dinheiro", finalizou a artista. 

Confira o relato de Duffy na íntegra: 

Querido Reed,

"Recentemente eu escrevi publicamente sobre uma situação pela qual eu passei. Eu fui drogada, sequestrada, traficada e estuprada. Eu publiquei um relato em minha conta pessoasl que você pode encontrar em detalhes em http://www.duffywords.com.

Hoje, eu realmente não sei o que pensar, falar ou dizer além de entrar em contato e explicar para você nessa carta o quão irresponsável é por parte da Netflix transmitir o filme 365 Dias. Eu não quero estar nessa posição de ter que escrever para você, mas o sofrimento que eu vivi me obriga a fazê-lo porque a experiência violenta que eu vivi é do mesmo tipo que você escolheu apresentar como 'erotismo adulto'.

365 Dias glamoriza a realidade brutal do tráfico sexual, sequestro e estupro. Isso não deveria ser entretenimento para ninguém nem deveria ser descrito dessa forma ou ser comercializado dessa maneira.

Eu escrevo essas palavras (que eu nem acredito ter que escrever em 2020, com tanta esperança e progresso conquistado nos últimos anos) enquanto aproximadamente 25 milhões de pessoas são vítimas de tráfico ao redos do mundo, sem mencionar o incontável número não reportado. Por favor tire um momento para parar e pensar nesse número, equivalente a quase metade da população da Inglaterra. E de todos os traficados anualmente, pelo menos 80% são mulheres e meninas e 50% são menores de idade.

Me entristece que a Netflix dê plataforma para esse tipo de 'cinema', que erotiza o sequestro e distorce a violência sexual e tráfico como um filme 'sexy'. Eu não consigo imaginar como a Netflix pode ter ignorado o quão irresponsável, insensível e perigoso isso é. Isso até incentivou que jovens mulheres pedissem que Michele Morrone, o ator principal do filme, as sequestrasse.

Nós todos sabemos que a Netflix não aceitaria material glamorizando a pedofilia, racismo, homofobia, genocídio ou nenhum outro tipo de crimes contra a humanidade. O mundo iria, com razão, se levantar e gritar. Tragicamente, vítimas de tráfico e sequestro não são vistas e ainda assim em 365 Dias seu sofrimento é transformado em um 'drama erótico', como descrito pela Netflix.

Então eu me sinto na obrigação de falar por elas e pedir que corrijam esse erro; que disponibilizem os recursos da Netflix e as habilidades de seus talentosos criadores a produzirem e transmitirem conteúdo que retrate a a difícil e desesperadora realidade que 365 Dias transformou em um entretenimento casual.

Eu me acalmo para explicar a você - quando eu fui traficada e estuprada, eu tive sorte em sair com vida, mas muitos não foram tão sortudos. E agora eu tenho que presenciar essas tragédias e a minha própria tragédia sendo erotizada e minimizada. Para onde eu posso ir? Além de escrever essa carta.

Para qualquer um que venha falar que é 'apenas um filme', não, não é 'apenas' quando ele tem grande potencial para distorcer um assunto que é pouquíssimo discutido, como o tráfico sexual e o sequestro, ao transformá-lo em erotismo.

E já que 365 Dias mostrou ser extremamente popular, também quero endereçar essa carta aos espectadores. Eu peço para que os milhões que gostaram do filme que reflitam sobre a realidade do sequestro e tráfico, da força da exploração sexual, e de uma experiência que é o total oposto da fantasia representada em 365 Dias.

Agora que estamos próximos do Dia Mundial Contra o Tráfico de Pessoas em 30 de julho, eu encorajo a Netflix e todos que assistiram a 365 Dias a aprenderem um pouco mais sobre o tráfico de pessoas visitando o site https://www.unodc.org/unodc/en/human-trafficking/what-is-human-trafficking.html e que ajudem organizações como catwinternational.org, hopeforjustice.org, polarisproject.org, antislavery.org, stopthetraffik.org, unseenuk.org, notforsalecampaign.org, ijm.org, a21.org e madeforthem.org.

Se vocês da Netflix não absorverem nada dessa carta além dessas últimas palavras, eu já estarei feliz. Vocês não perceberam que 365 Dias trouxe muito sofrimento para todos aqueles que vivenciaram a dor e o horror que esse filme glamoriza por entretenimento e dinheiro. O que eu e outros que conhecemos essa injustiça precisamos é justamente o contrário - uma narrativa de realidade, esperança e poder ter uma voz.

Nós sabemos mais, nos deixe fazer melhor. Duffy."

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