POLITICAMENTE CORRETO

'Cala a boca, Magda' e 'horror a pobre': Humor do Sai de Baixo ainda tem vez?

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Marisa Orth (Magda) e Miguel Falabella (Caco) em Sai de Baixo - O Filme: R$ 2,3 milhões na bilheteria - Divulgação/Imagem Filmes

Marisa Orth (Magda) e Miguel Falabella (Caco) em Sai de Baixo - O Filme: R$ 2,3 milhões na bilheteria

LUCIANO GUARALDO - Publicado em 26/02/2019, às 05h31

Exibido entre 1996 e 2002, o Sai de Baixo voltou a ser assunto por causa de sua estreia no cinema, na última quinta-feira (21). Em quatro dias, o longa com a turma do Largo do Arouche arrecadou mais de R$ 2,3 milhões --foi o terceiro filme mais visto da semana no Brasil, atrás de dois blockbusters de Hollywood. Um tapa na cara de quem achava que o humor do programa não funcionaria em tempos de comédias politicamente corretas.

Mas, afinal, ainda há espaço para o público dar risada de frases como "cala a boca, Magda" e "eu tenho horror a pobre"? De acordo com o elenco do longa, há. Eles defendem que o Sai de Baixo está mais atual e necessário do que nunca.

"Eu acho que o humor, em primeiro lugar, é uma ferramenta crítica absoluta. Você achar que o Caco e a Magda servem para fazer propaganda de pessoas como o Caco e a Magda é um raciocínio muito curto", opina Marisa Orth, intérprete da morena burra. "Curto não, estúpido", corrige Miguel Falabella, o Caco Antibes.

"O que eu vejo hoje são as pessoas mirando e matando o bobo da corte, e não o rei, entende? É óbvio que a Magda é uma crítica à mulher imbeciloide, que não faz nada da vida, que é só uma gostosa de saia curta. Ela não rouba, mas o Caco rouba, e ela adora se aproveitar dessa vida dele. O Brasil está cheio disso", continua Marisa.

Para a atriz de 55 anos, as atitudes de Magda também são um alerta. "A mulher é violentada, agredida pelo bofe, e continua adorando. Quanto mais apanha, mas fala: 'Ai, que gostoso'. Meu Deus, se isso não é uma crítica... A mulher está em casa, apanhando do marido, vê aquilo e se reconhece: 'Caceta, eu sou isso'", diz.

Falabella ressalta que Magda nunca apanhou fisicamente de Caco, e Marisa dá o braço a torcer. "Tem toda a razão, apanhar é um pouco demais, nem a gente consegue brincar com uma coisa dessas. Mas o Caco berrava, e ela gostava. Ele fazia 'ió, ió', e ela dava risada, se derretia. Eu sempre entendi a Magda como uma crítica. O Brasil é lotado de Cacos e suas respectivas Magdas."

"O Brasil tem 10 mil Cacos em cada esquina, eu conheço vários", diz Falabella. "Mas acho que não existe como mudá-lo, não há politicamente correto que enquadre Caco Antibes. Até porque ele acha politicamente correto coisa de pobre."

Pobres adoravam ser zoados na TV, diz ator
Para o ator, Caco afirmar que tinha horror a pobres nunca foi um obstáculo --e continua não sendo. "No começo, os outros achavam que ia dar problema. Mas eu lembro que, quando a gente foi gravar o terceiro programa, a guardadora de um carro do estacionamento próximo ao [teatro] Procópio Ferreira me chamou e começou a passar coisas de pobre para eu reclamar. E ela fazia isso feliz", recorda o ator.

"Os pobres eram os primeiros a bater palma, porque se viam naquele discurso. Não é legal ser pobre, pobreza é um troço ruim. Mas essa atitude de: 'Não vamos falar, não comenta que ele é pobre, porque ele é limpinho'... Gente simples, porque pobre não tem nem o direito de ser complicado. Pobreza é uma questão transitória, mutável, quem é pobre pode deixar de ser; aliás, deve deixar de ser", filosofa Marisa.

Para Tom Cavalcante, intérprete do porteiro Ribamar, o fato de os atores terem um passado humilde ajuda na identificação do público com as situações e críticas apontadas no roteiro.

"Aqui não tem ninguém egrégio de berço de ouro, sabe? Então a gente vai brincar, sim, vai levantar questionamentos. Essa nova geração não conhece esse posicionamento do humor como uma ferramenta para ganhar consciência. Tudo se tornou ofensivo? Não. A gente está no jogo e precisa levar essa boa nova de que nem tudo é ruim. As coisas podem ser leves, também."

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