GUERRA DO STREAMING

Globo rouba fenômeno da Netflix e dá rasteira na Amazon com José Padilha

Reprodução/TV Globo

O cineasta José Padilha usa camiseta e boné preto durante entrevista no Conversa com Bial

José Padilha no Conversa com Bial, em abril de 2018; cineasta vai dirigir documentário para o Globoplay

DANIEL CASTRO, no Rio de Janeiro - Publicado em 06/03/2020, às 16h13 - Atualizado às 19h26

Em uma só jogada, a Globo deu duros golpes na Netflix e na Amazon, maiores rivais de sua plataforma de streaming, o Globoplay, em território nacional. A emissora contratou o cineasta José Padilha, diretor e produtor-executivo de Narcos, e conseguiu levar para seus estúdios uma série ficcional sobre o assassinato de Marielle Franco (1979-2018) que já estava negociada com a Amazon, com contrato pronto (mas não assinado).

A contratação de Padilha foi anunciada nesta sexta (6) em um evento no qual foi exibido o primeiro dos seis episódios de um documentário sobre a vida de Marielle, produzida durante cinco meses pelo Jornalismo da emissora sob total sigilo.

Os jornalistas tiveram de aceitar o convite para o evento sem saberem do que se tratava. Foram informados apenas que seria sobre algo relevante e atual. A informação de que era um documentário sobre Marielle Franco só vazou na quinta-feira. A aquisição de Padilha, contudo, foi preservada.

O documentário do Jornalismo e a série de Padilha são produtos totalmente diferentes. O primeiro já está pronto, terá seu primeiro episódio exibido na próxima quinta (12) pela Globo e estreia nos primeiros minutos do dia seguinte no Globoplay. Chama-se Marielle, o Documentário. O segundo ainda não tem nome nem roteiros escritos.

Os textos serão desenvolvidos a partir de argumento desenvolvido pela escritora e roteirista Antonia Pellegrino, mulher do deputado federal Marcelo Freixo, do PSOL, mesmo partido de Marielle. Na Globo, Antonia foi coautora de novelas --Da Cor do Pecado (2004) e Aquele Beijo (2011), entre outras-- e de seriados --o último foi Pé na Cova (2013). No cinema, assinou o texto de Bruna Surfistinha (2011). A sala de roteiristas será liderada por George Moura (de Onde Nascem os Fortes).

O documentário da Globo se concentra nas investigações sobre o assassinato de Marielle na noite de 14 de março de 2018. Baseado em entrevistas e investigações jornalísticas, não traz nenhuma revelação bombástica, mas ajuda a entender por que a polícia demorou tanto a descobrir e prender os suspeitos, somente um ano depois da execução, e até hoje não esclareceu quem foi o mandante.

Já a série ficcional será feita com atores. Estão previstas duas temporadas: a primeira vai girar em torno da biografia de Marielle Franco, culminando com as circunstâncias do crime que chocou o Brasil e o mundo. Já a segunda terá como foco será nos mandantes e, se o caso for solucionado, na resolução do crime.

A trama de Marielle será biográfica, mas vários personagens serão composições, absorvendo características de mais de um envolvido na história, como milicianos. Tal como ocorre em Narcos, sobre o narcotráfico na Colômbia e no México, e O Mecanismo, sobre a operação Lava Jato, ambas com a marca de José Padilha. Narcos foi um dos primeiros grandes sucessos globais da Netflix; O Mecanismo não passou da segunda temporada.

Diretor do fenômeno Tropa de Elite (2007) e do hollywoodiano RoboCop (2014), Padilha é um dos maiores nomes do cinema nacional. Ele será o produtor-executivo e o diretor do primeiro e do último episódios da série, que já estava negociada com a Amazon quando a Globo resolveu "atravessar" o acordo.

"A gente soube da negociação, fomos ao Padilha e argumentamos que na Globo ele teria maior alcance. Doía pra gente ver um diretor carioca, brasileiro, um dos mais importantes do cinema nacional, trabalhando para a concorrência", revelou Erick Brêtas, principal executivo do Globoplay. "A Globo fez uma oferta muito mais generosa", disse Padilha sogre a troca de plataformas.

A rasteira sobre a Amazon tem um valor extra para a Globo. Foi sua vingança contra a gigante do comércio eletrônico, que em agosto do ano passado tomou seu então principal executivo do Globoplay, o ex-Telecine João Mesquita, e com ele muitos segredos estratégicos.

A série de Padilha será filmada no segundo semestre e tem previsão de estreia nos primeiros seis meses de 2021. Ainda não há elenco definido. Coprodutor, Padilha ficou com o direito de negociar a exibição da série fora do Brasil. Ironicamente, a produção poderá ser vendida para a própria Amazon ou para a Netflix.

Daniel Castro
DANIEL CASTRO transformou a coluna de Televisão da Folha de S.Paulo na mais relevante do país durante sua passagem pelo jornal, entre 1991 e 2009. Trabalhou no Notícias Populares (1995-96) e R7 (2009-13). E-mail: dcastro@noticiasdatv.com

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