DONY DE ANÚNCIOS

Escondido da Globo, Dony De Nuccio fatura R$ 7 milhões com banco

Reprodução/TV Globo

Dony De Nuccio no cenário do Jornal Hoje: empresa do jornalista faturou R$ 7 milhões com o Bradesco - Reprodução/TV Globo

Dony De Nuccio no cenário do Jornal Hoje: empresa do jornalista faturou R$ 7 milhões com o Bradesco

DANIEL CASTRO - Publicado em 31/07/2019, às 05h25 - Atualizado às 11h49

Apresentador do Jornal Hoje, o jornalista Dony De Nuccio faturou nos últimos dois anos um total de R$ 7.239.692 produzindo "road shows telepresenciais", vídeos, cartilhas e palestras para o Banco Bradesco. Em alguns vídeos, exibidos apenas a bancários em treinamentos, Dony também atuava como apresentador e entrevistador de executivos do Bradesco.

As atividades do âncora do JH no banco contrariam seu contrato com a Globo e põem em xeque um dos pilares dos Princípios Editoriais da emissora, que é a isenção jornalística. Dony só revelou suas relações com o Bradesco a seus chefes na Globo há duas semanas, quando o Notícias da TV publicou em primeira mão que ele gravou vídeos internos enaltecendo produtos da Bradesco Seguros, outra empresa do grupo financeiro.

A Globo entendeu que não houve má-fé de Dony, mas o repreendeu por violar suas normas editoriais (leia no final deste texto).

Notas fiscais provam ligação com banco

Cópia de nota fiscal da empresa de Dony De Nuccio e Samy Dana contra o Banco Bradesco

O Notícias da TV obteve com exclusividade cópias de 25 notas fiscais, emitidas entre 12 de julho de 2017 e 17 de junho deste ano, pela empresa da qual Dony é sócio. Dessas 25 notas, oito foram canceladas. As 17 notas válidas somam R$ 7.239.692. Dessas, as que mais chamam a atenção são duas notas de R$ 2.000.000 cada, ambas de 26 de março último, pela "prestação de serviços profissionais de 'road show telepresencial', para fins de treinamento" (confira ao lado). Há ainda uma NF de R$ 1.172.400, de 4 de fevereiro, e uma de R$ 1.384.000, de 17 de abril último, ambas por "treinamento telepresencial".

Quase todas as notas fiscais foram emitidas pela Prime Talk Produções e Assessoria Ltda contra o Banco Bradesco S/A; só uma foi contra a Bradesco Seguros. A Prime Talk, uma produtora de vídeos, foi aberta em 15 de março de 2017 por Adonay De Nuccio, que é o verdadeiro nome do apresentador, e pelo comentarista econômico Samy Dana, dispensado pela Globo na semana passada.

Por meio do departamento de Comunicação da Globo, Dony informou "que em meados de julho retirou-se totalmente da empresa". Nos registros da Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo), no entanto, a Prime Talk continua no nome de Dony e Samy Dana. Cada um tem R$ 4 mil dos R$ 8 mil de capital social da firma, que oficialmente funciona na casa do apresentador do Jornal Hoje, na alameda Bela Cintra, em São Paulo.

Apresentador nega uso de imagem pelo Bradesco

Dony também negou que as duas notas fiscais de R$ 2 milhões cada tenham sido pagamento pelo uso de sua imagem como apresentador em vídeos do Banco Bradesco. Afirma que sua imagem só foi usada em vídeos da Bradesco Seguros.

Dony De Nuccio entrevista executivo do Banco Bradesco em vídeo exibido a bancários (Reprodução)

Uma fonte no banco e um print de vídeo obtido pelo Notícias da TV, no entanto, desmentem essa versão. Na foto, ao lado, Dony aparece entrevistando um executivo do Banco Bradesco, e não da Bradesco Seguros. Foi extraída de um vídeo, que se assemelha a um telejornal, transmitido a milhares de gerentes do banco.

A Prime Talk na verdade não funciona na casa de Dony De Nuccio. Ela tem escritório na região da avenida Luis Carlos Berrini, na zona sul de São Paulo, perto da sede da Globo. Nas gravações para o Bradesco, movimentava pelo menos 30 profissionais em estúdio --vários deles funcionários da própria Globo.

Globo repreende jornalista por quebra de ética

Questionada pelo Notícias da TV, a Globo disse que a demissão do comentarista econômico Samy Dana não teve relação com a descoberta de que ele é (ou era até duas semanas atrás) sócio de Dony De Nuccio em uma empresa que prestava serviços a um banco que, eventualmente, pode ser notícia na emissora.

"A não renovação do contrato nada tem a ver com o assunto, uma vez que ele não era contratado como jornalista, mas como analista econômico, com contrato que permitia que ele mantivesse as atividades que tinha antes, entre as quais as atividades da empresa", esclareceu a emissora.

À reportagem, Dana disse apenas que todas as "atividades exercidas fora da TV Globo estavam explicitamente previstas em contrato".

O Banco Bradesco, por sua vez, afirmou que "não comenta contratos firmados com seus fornecedores".

Dony De Nuccio, por meio da Globo, fez os seguintes esclarecimentos:

"1) Desde meados de julho retirou-se totalmente da empresa citada, não tendo com ela mais nenhuma relação;"

"2) No período em que esteve ligado à empresa, os produtos e serviços foram relativos à produção de vídeos e ao oferecimento de infraestrutura para atividades audiovisuais. A sua imagem como apresentador só foi usada na produção audiovisual de treinamento já objeto de matéria do site (aquela cujo cachê comprometeu-se a doar);" 

"3) Em todo o período em que esteve ligado à empresa jamais atuou na captação de clientes e jamais negociou valores ou discutiu pagamentos;" 

"4) Os serviços sempre foram prestados mediante notas fiscais e os valores delas não refletem pagamentos feitos a ele, mas os custos totais dos serviços ou da produção. Não confirma nem valores nem serviços relatados pela coluna, e indigna-se com a possível quebra de sigilo fiscal da empresa à qual estava vinculado."

A TV Globo complementou: 

"Esses esclarecimentos já tinham sido feitos à direção de Jornalismo quando parte da produção audiovisual de treinamento foi notícia do site, semanas atrás. Na ocasião, Dony De Nuccio foi advertido de que seu contrato de trabalho proíbe a prestação de serviços a terceiros sem prévia autorização."

"Feita a advertência, a direção de jornalismo decidiu aceitar os esclarecimentos do jornalista e as providências que ele tomou (assim como o compromisso de não voltar a incorrer no erro). Dony se desculpou e disse ter sido seu entendimento que, ao não se envolver em negociações ou usar sua imagem para publicidade, não infringia normas da profissão ou da empresa."

"A TV Globo reconhece que não houve má-fé por parte de Dony De Nuccio. Mas afirmou a ele que as regras existem, entre outras razões, para evitar que jornalistas sejam questionados e tenham que dar esclarecimentos tão detalhados à imprensa."

Após a publicação desta reportagem, Dony De Nuccio se pronunciou sobre a produção de conteúdo para o banco. Confira na íntegra:

"Li com perplexidade a nota sobre minha atuação na empresa PrimeTalk. Gostaria de acrescentar os seguintes comentários:

1) Sou figura pública, mas o faturamento da empresa citada vem de empresas privadas e é absolutamente legal. A quebra do sigilo fiscal é algo que causa indignação. E pode atingir a todos, inclusive o colunista, que vive de publicidade;

2) Apenas apareci como apresentador na produção audiovisual de treinamentos da referida instituição financeira (seja Seguros ou Banco). Na ocasião, mencionei que 'parte' da produção tinha vindo a público, o que é fato. E em todos os casos, como também afirmado anteriormente, com veiculação voltada exclusivamente para o público interno e jamais com fins publicitários;

3) Já me desliguei totalmente da empresa citada e não tenho mais nenhuma relação com ela. A formalização do desligamento bem como os trâmites relacionados à Junta Comercial de SP já foram solicitados e estão em andamento desde data anterior à nota de hoje;

4) Está errada a informação de que faturei o valor mencionado na nota. Notas fiscais refletem os custos totais de produção e não a minha remuneração. Os custos envolvem o pagamento de impostos, equipamentos e dezenas de profissionais, como admitido pelo próprio jornalista. Não me pronunciarei mais sobre o assunto, porque tudo o que diz respeito às atividades que mantive na empresa já está esclarecido na nota enviada;

5) Minhas atividades na referida empresa eram fruto do meu entendimento de que ao não me envolver em negociações comerciais nem fazer publicidade usando a minha imagem, não infringia norma. Advertido de que o entendimento estava errado, me desculpei e esclareci os pontos necessários. Agradeço à Globo por ter compreendido que não agi por má-fé."

Confira trecho de vídeo de Dony De Nuccio para a Bradesco Seguros:

Daniel Castro
DANIEL CASTRO transformou a coluna de Televisão da Folha de S.Paulo na mais relevante do país durante sua passagem pelo jornal, entre 1991 e 2009. Trabalhou no Notícias Populares (1995-96) e R7 (2009-13). E-mail: dcastro@noticiasdatv.com

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