PUNIDO NO JN

Afastamento de Mauro Naves por causa de Neymar gera clima de terror na Globo

Reprodução/TV Globo

Mauro Naves na Granja Comary, base da Seleção Brasileira, em reportagem exibida na segunda (3) - Reprodução/TV Globo

Mauro Naves na Granja Comary, base da Seleção Brasileira, em reportagem exibida na segunda (3)

DANIEL CASTRO - Publicado em 06/06/2019, às 11h03

O afastamento de Mauro Naves, anunciado por William Bonner no Jornal Nacional, repercutiu muito mal entre jornalistas da Globo. Desde ontem (5) à noite, quando a punição foi anunciada, o clima é de terror nos bastidores. Naves foi afastado da cobertura esportiva, às vésperas da Copa América,por ter fornecido os contatos do pai de Neymar Jr. ao primeiro advogado que defendeu Najila Trindade, que acusa o jogador de estupro.

O caso assusta por causa da importância que a Globo deu a ele, com nota no JN, e porque poderia ter acontecido com qualquer um. Naves teria ajudado o advogado José Edgard Bueno na expectativa de ter em troca um furo de reportagem. Isso é comum entre repórteres. Agenda e informação são o "dinheiro" que temos para recompensar por uma notícia exclusiva.

Pode-se questionar se isso é antiético. Mas os fins, no caso de Naves, pareciam ser legítimos: no final de tudo, ele queria fornecer ao telespectador da Globo informações em primeira mão. Não teria nenhum benefício pessoal com isso, a não ser o lustre no próprio ego.

Nos corredores da Globo, a avaliação é a de que a cúpula da emissora pegou pesado porque ficou pê da vida com o fato de Mauro Naves não ter comunicados seus superiores que tivera envolvimento com o rumoroso escândalo, ajudando indiretamente na realização de uma reunião, na semana passada, entre Neymar da Silva Santos, pai de Neymar, e ex-advogados da vítima do camisa 10 da seleção.

Como Bonner informou no JN, a Globo só soube dessa participação de Naves porque o pai de Neymar procurou a emissora para corrigir uma informação divulgada na véspera.

Registre-se também que, das grandes redes, a Globo foi a única que não entrevistou Najila Trindade. Roberto Cabrini, no SBT, e Thais Furlan, pela Record, o fizeram. Algo está errado na cobertura do caso na maior emissora do país.

Para profissionais da Globo, Naves, com seus 31 anos de casa, não merecia levar um pito em rede nacional no horário mais nobre da TV. Indignados, muitos lembram que, quando lhe convém, a Globo explora a intimidade dos jornalistas com suas fontes.

Porque, sim, "relações promíscuas" entre repórteres e fontes, principalmente políticos e policiais, foram a base de centenas, talvez milhares, de furos jornalísticos relevantes da história da Globo. Eles ainda não se esqueceram da imagem de César Tralli disfarçado de policial para registrar a prisão de Flávio Maluf, em 2005.

Nesta quinta-feira (6), repórteres da Globo foram trabalhar com medo de serem os próximos Mauro Naves --e não os Trallis.

Veja William Bonner anunciando a suspensão de Naves:

Confira o comunicado da Globo sobre o envolvimento de Mauro Naves no caso, lido por William Bonner na edição de quarta-feira (5) do Jornal Nacional:

O Jornal Nacional publicou ontem (4) a carta aberta divulgada pelos ex-advogados da mulher que acusa Neymar de estupro. Eles afirmam na carta que a reunião que fizeram com os advogados de Neymar foi feita a convite do pai do jogador. Hoje (5), em nota [enviada à TV Globo], o pai de Neymar desmentiu essa afirmação, disse que foi o advogado José Edgard Cunha Bueno que o procurou solicitando a reunião e que José Edgard obteve o contato dele por intermédio do repórter Mauro Naves, na quarta-feira da semana passada. O repórter confirma as afirmações da nota do pai de Neymar, mas somente hoje relatou a Globo sua participação no episódio.

Em sua defesa, Mauro Naves explicou que se limitou a repassar os contatos de pai de Neymar ao advogado, a quem já conhecia, porque esperava conseguir a história com exclusividade e que, quando o assunto se tornou público, avaliou que sua participação não teria relevância.

Mauro Naves é um excelente profissional, com grandes contribuições ao jornalismo esportivo da Globo. Mas há evidências de que suas atitudes neste caso contrariaram a expectativa da empresa sobre a conduta de seus jornalistas. Em comum acordo, o repórter Mauro Naves deixará a cobertura de esportes da Globo até que os fatos sejam devidamente esclarecidos.

Daniel Castro
DANIEL CASTRO transformou a coluna de Televisão da Folha de S.Paulo na mais relevante do país durante sua passagem pelo jornal, entre 1991 e 2009. Trabalhou no Notícias Populares (1995-96) e R7 (2009-13). E-mail: dcastro@noticiasdatv.com

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