Além dos Cachos

Sem ganhar dinheiro, Samara Felippo vira referência no combate ao racismo

Reprodução/YouTube

Samara Felippo em vídeo de seu canal no YouTube, ao lado das filhas Lara e Alícia - Reprodução/YouTube

Samara Felippo em vídeo de seu canal no YouTube, ao lado das filhas Lara e Alícia

FERNANDA LOPES - Publicado em 26/09/2018, às 05h21

Branca e de cabelo liso, Samara Felippo se tornou uma improvável referência na luta contra o racismo e pelo empoderamento das mulheres negras. Ela criou o canal Muito Além de Cachos, para falar sobre beleza afro e diversidade, e ganhou milhares de seguidores nas redes sociais. Mãe de duas meninas negras, de 9 e 5 anos, ela mantém o canal por acreditar na causa e enfrenta dificuldades, sem retorno financeiro algum.

"Tenho muita vontade de transformá-lo em algo maior, adoraria postar uma vez por semana. Mas realmente não consigo, por vários motivos. Comecei a gravar [os vídeos] com uma amiga, ela filmava e eu pagava. Mas aí eu falei pra ela: 'Vou parar um pouquinho agora porque tô sem dinheiro'. Pensei em fazer sozinha, mas a qualidade cairia", comenta.

"Posso botar uma câmera na minha frente, mas não é esse meu intuito. Quero ir até um museu afro, quero debater com as meninas. Quero chamar convidados. Mas vamos com calma. No canal não tenho retorno algum, adoraria ter. Quem sabe mais pra frente. Meu sonho é que me patrocinassem", apela.

Aos 39 anos, Samara virou youtuber após um "chamado inconsciente" que acredita ter recebido de sua filha mais velha, assim como a mais nova, fruto de seu casamento com o jogador de basquete Leandrinho.

"Ela quis alisar o cabelo aos 7 anos. Eu não entendia o porquê. Ela falou que não tinha nenhuma amiga de cabelo cacheado, se sentia diferente, estranha, numa escola de classe média que poucas pessoas negras frequentam. Minha ficha caiu de uma forma muito absurda, de furar minha bolha e começar a estudar, entender o racismo estrutural, procurar referências para que ela se sentisse linda", explica.

Hoje, Samara tem quase 80 mil seguidores no YouTube e 748 mil no Instagram, onde fala sobre empoderamento feminino, cuidados com cabelos crespos e cacheados e a importância de combater o racismo desde a infância, nas escolas. A atriz recebe muitas mensagens de mães que vivem situações racistas com seus filhos. Virou conselheira de suas seguidoras.

"Recebo diariamente muita mensagem, como de mães que mandam bilhetes da escola da filha, pedindo pra que a aluna use 'meia cor da pele' [que sempre são de tons claros]. Só dessa mãe estar me escrevendo e enxergando essa coisa errada, pra mim é gratificante demais. Elas me pedem conselhos, e eu estou longe de ser Ph.D., tô aprendendo com todo mundo. Mas incentivo a conversa, acho bem importante", reflete.

divulgação/globo

A atriz Samara Felippo em 1999, quando interpretou a personagem Erica em Malhação 

Com 22 anos de carreira como atriz, Samara diz que o canal no YouTube foi parte de uma vontade que teve de buscar outros caminhos. E continua atuando. Ela é contratada da Record desde 2013 e está na espera para ser chamada para alguma novela (a última foi Apocalipse, em 2017).

Mesmo assim, ainda é reconhecida pelos trabalhos que fez na Globo. Esteve em Chocolate com Pimenta (2003), há 15 anos, e teve momentos marcantes como a Erica de Malhação, personagem que interpretou de 1999 a 2001 e que tinha o vírus HIV. "Até hoje sou a menina de Malhação. A gente fez cenas muito importantes no horário das 17h30, na virada do milênio, para adolescentes", conta.

Hoje, além de cuidar das filhas e de seus perfis online, Samara está ensaiando uma nova peça. Em Mulheres que Correm com os Filhos, ela falará sobre maternidade.

"Estamos em processo de ensaio, de construção de texto baseado em relatos pessoais de mulheres. É sobre a culpa que a gente carrega, sobre pressão que a sociedade põe em cima da mãe, machismo que há na maternidade. Estou querendo fazer o que eu gosto, o que me dá prazer, com o que eu me sinto bem", afirma.

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