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Memória da TV

Na Globo, Dercy Gonçalves falou mal da Coca-Cola e confundiu banco com vacina

Reprodução/Memória Globo

Dercy Gonçalves na minissérie La Mamma, que a Globo exibiu em 1990: atriz não tinha freio na língua - Reprodução/Memória Globo

Dercy Gonçalves na minissérie La Mamma, que a Globo exibiu em 1990: atriz não tinha freio na língua

THELL DE CASTRO

Publicado em 29/4/2018 - 7h53

A primeira passagem da atriz e humorista Dercy Gonçalves (1907-2008) pela Globo, na segunda metade dos anos 1960, foi marcada por problemas com os generais que governavam o país, que não gostavam de seu estilo popular, e também por algumas confusões involuntárias. Nessas ocasiões, ela criou saia justa com patrocinadores: falou que a Coca-Cola era ruim e confundiu um banco com uma vacina.

Dercy e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que dirigiu a Globo durante 30 anos, sempre tiveram uma relação de amizade e gratidão. Em seu O Livro do Boni, o executivo conta que foi Dercy quem pressionou Walter Clark (1936-1997), que havia assumido o cargo de diretor da Globo, para acelerar sua ida para a emissora, em 1967.

Quando Boni chegou na casa, Dercy fazia um enorme sucesso com os programas Dercy Comédias, na sexta, e Dercy Espetacular, no domingo. "Mas tinha problemas com a produção e com a direção dos dois programas. O Comédias vivia problemas de censura, que acabaram o inviabilizando", conta Boni em seu livro. Com o programa cancelado, surgiu o Dercy de Verdade.

Naquela época, Dercy, com sua conhecida sinceridade e sem nenhum pudor nas palavras, causou duas confusões envolvendo patrocinadores da emissora.

"Uma foi com a Coca-Cola, grande cliente da Globo. A Dercy, falando de si mesma, revelou no ar: 'Eu só tomo Coca-Cola. É ruim, mas todo mundo bebe'", relembra.

Dercy no programa Dercy de Verdade, que apresentou na Globo entre 1967 e 1970 (Foto: Memória Globo)

A outra foi com o extinto Banco Nacional de Habitação (BNH), que fechou uma campanha em que os artistas emitiam opiniões positivas sobre o financiamento da casa própria. Só que Dercy confundiu, ao vivo, BNH com BCG, a vacina para tuberculose.

"Olha, eu não acredito nesse BNH. Não adianta porra nenhuma. Fiquei tuberculosa com BNH e tudo. Essas coisas que o governo dá de graça. Não funcionam. BNH é uma merda", disparou no ar. 

No dia seguinte, segundo Boni, nos postos do BNH havia filas de pessoas querendo receber de volta o sinal que haviam dado e ao qual teriam direito em caso de desistência. "A Globo precisou explicar nos telejornais que a Dercy havia feito uma confusão", ressalta Boni.

Pouco tempo depois, a Globo mudou radicalmente sua programação e tirou os programas de Dercy Gonçalves do ar, já que causavam muitos problemas com a Censura Federal do regime militar. A atriz voltou para a emissora somente nos anos 1980, convidada para participar de novelas, como Que Rei Sou Eu? (1989) e Deus nos Acuda (1992), além do quadro Jogo da Velha, do Domingão do Faustão.

Carne assada e carro roubado
Em seu livro, Boni também conta que, quando começou a trabalhar na Globo, sempre ia para casa de Dercy Gonçalves junto com João Lorêdo (1930-2012), que passou a dirigir os programas dela.

"Da cozinha, vinha o perfume da 'carne assada da Dercy', que depois virou 'carne assada do Boni'. Era uma coisa mágica, feita somente com água, alho e cebola e mais nenhum mistério", lembra. 

Boni e Walter Clark, que levaram Dercy Gonçalves para a Globo e fizeram sucesso (Foto: Acervo Pessoal)

Um dia, ao sair da casa de Dercy, Boni percebeu que seu Fusca havia sido roubado. "A Dercy riu e disse: 'Paulista boboca, não tinha trava? Deixa que o seguro paga'", registra.

O problema é que o carro não tinha seguro. Desolado, Boni foi para casa de táxi. Mas a surpresa maior veio no dia seguinte, quando ele foi despertado por um vendedor de uma concessionária da Volkswagen com um carro zero.

"Dona Dercy Gonçalves mandou entregar para o senhor", disse o vendedor.

Muitos anos depois, Boni teve a chance de retribuir o feito. "Pouco antes de ela morrer, a Dercimar [filha de Dercy] me disse que a mãe ia de táxi visitar as amigas e jogar bingo, que ela adorava. Mandei de presente um carro zerinho para ela", conta Boni.

O homem que ficou famoso por implantar o "padrão Globo de qualidade" diz que, mesmo perto dos cem anos de idade, a atriz ainda lhe mandava mensalmente um prato de carne assada. "Uma mulher como Dercy não morre nunca".


THELL DE CASTRO é jornalista, editor do site TV História e autor do livro Dicionário da Televisão Brasileira. Siga no Twitter: @thelldecastro

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