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Memória da TV

Maior personagem de Guilherme Karam nasceu da insistência do ator

Fotos: Memória Globo

Vera Zimermann e Guilherme Karam em cenário de Meu Bem, Meu Mal, lançada em 1990 - Fotos: Memória Globo

Vera Zimermann e Guilherme Karam em cenário de Meu Bem, Meu Mal, lançada em 1990

THELL DE CASTRO

Publicado em 17/7/2016 - 8h55

Morto no último dia 7, após lutar durante anos contra a doença degenerativa de Machado-Joseph, Guilherme Karam teve dois grandes destaques na carreira: o humorístico TV Pirata (1988) e o mordomo Porfírio, de Meu Bem, Meu Mal (1990), ambas produções da Globo. Este último, que começou discreto, ganhou espaço na trama e se tornou o personagem preferido do autor, Cassiano Gabus Mendes (1929-1993). Ele só existiu graças à insistência do ator, que emagreceu 12 quilos para conquistar o personagem.

Mordomo e secretário pessoal de Dom Lázaro Venturini (Lima Duarte), Porfírio era responsável pelo bom andamento da casa e fiel ao seu patrão. Com o decorrer da trama, começou a assediar a jovem Magda (Vera Zimermann), amiga de Vitória (Lizandra Souto), conquistando o público com o bordão "Divina Magda" e falando obscenidades para a amada, como "Lareira acesa, conhaque, sexo explícito perto do fogo, a lenha crepitando e soltando fagulhas no nosso traseiro". Ele também dizia que sonhava apanhar de Magda, que vivia o insultando após as investidas. No final da novela, ela cedeu aos seus encantos, com a aprovação do público.

O personagem surgiu pela insistência do ator. Em entrevista ao jornal O Globo de 13 de janeiro de 1991, Karam disse que queria aproveitar a chance de mostrar que não era só comediante. Ao receber a notícia de que o TV Pirata ia acabar, em julho de 1990, ao invés de pedir férias achou que era a hora de partir para as novelas.

"Quando soube que a novela das oito seria um folhetim, perguntei ao Daniel Filho se não teria um papel para mim, já que era um trabalho diferente ao que o público se acostumou no TV Pirata. Ele disse que ia ver se era possível, por eu ser um comediante", disse.

O ator também ligou para Cassiano Gabus Mendes, que lhe prometeu uma chance. "Ele disse que adorava o meu trabalho, parou uns dez segundos e disse que ia pensar num papel para mim", explicou.

Na época, o ator tinha 13 de carreira. Além do TV Pirata, tinha feito a novela Partido Alto, na Globo, em 1984, e três produções na Manchete: Dona Beija, Carmem e Tudo ou Nada. Para Meu Bem, Meu Mal, emagreceu 12 quilos, deixou a barba crescer e mudou a cor dos cabelos, além do tom de voz _no humorístico, ele vivia aos berros.

"Esse personagem está me permitindo ter um tom, uma postura e um andar diferentes, fazendo cair o rótulo de que eu era apenas um comediante e que talvez não tivesse talento, entre aspas, para um papel mais contido. Acho que é isso que está surpreendendo as pessoas", declarou.

Lima Duarte, Guilherme Karam e Fábio Assunção em cena de Meu Bem, Meu Mal

Karam achava que Porfírio não amava Magda de verdade. "Acho que é uma coisa meio fantasiosa. O Porfírio quer uma ascensão em todos os níveis e a Magda representa o tipo de mulher que ele nunca teve", explicou.

Em crítica na Folha de S.Paulo de 10 de março de 1991, Alcino Leite Neto disse que a novela ria de si mesma através de Porfírio. "Com o anacrônico nome de Porfírio, um irremediável terno escuro, o olhar equilibrando-se entre a perversão e a lógica, Guilherme Karam é, hoje, a estrela por excelência da novela Meu Bem, Meu Mal", destacou. "No início, fazia aparições _era um figurante de luxo. Agora, ganhou esquetes, cenas dedicadas especialmente à sua performance", completou.

Ao jornal O Dia de 14 de abril de 1991, Karam disse que começou a receber cantadas de mulheres de várias idades, especialmente aquelas com mais de 40 anos. "Outro dia peguei um avião em Recife e uma senhora que estava sentada a duas poltronas de mim pegou no meu braço e perguntou: "Você não quer sentar do lado de uma divina Magna?". Para não ser antipático, sentei do lado da mulher, que depois passou a viagem toda me alisando o braço e com conversinhas estranhas", contou.

Alterego do autor

Só que Porfírio não era qualquer um. Ele era simplesmente o alterego de Cassiano Gabus Mendes, que não escondia sua predileção pelo personagem. "Uma colega da novela perguntou ao Cassiano o que ele gostava da novela. Ele falou 'O Porfírio, porque ele sou eu'. O cinismo da novela pode estar no Porfírio", disse o ator à Folha de 10 de março de 1991.

Anos depois, em 2003, em entrevista ao canal AllTV, na internet, Karam confidenciou mais detalhes. “No último dia de gravação, uma atriz, que eu não posso revelar o nome, se aproximou de mim e disse que todas as declarações que Porfírio havia feito à divina Magna durante a novela, ela havia ouvido na vida real do Cassiano", contou.

Depois de Meu Bem, Meu Mal, Karam esteve em tramas como Perigosas Peruas, Explode Coração, Pecado Capital, O Clone e América, na qual viveu seu último personagem, Geraldito.


THELL DE CASTRO é jornalista, editor do site TV História e autor do livro Dicionário da Televisão Brasileira (Editora InHouse). Siga no Twitter: @thelldecastro


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