Nova geração de autores

Globo encosta veteranos e promove maior renovação de todos os tempos

João Cotta/TV Globo

Silvio de Abreu, diretor de teledramaturgia da Globo, que comanda renovação de autores - João Cotta/TV Globo

Silvio de Abreu, diretor de teledramaturgia da Globo, que comanda renovação de autores

DANIEL CASTRO - Publicado em 23/05/2016, às 06h48 - Atualizado às 08h19

A Globo vai lançar nos próximos dois anos dez novos autores de novelas. Nomes como Alessandro Marson, Claudia Souto e Maria Helena Nascimento entrarão para a seleta constelação que nos últimos cinco anos passou a abrigar apenas cinco estrelas (Daniel Ortiz, George Moura, Felipe Miguez, Izabel de Oliveira e Lícia Manzo). No horário mais nobre, o das 21h, duas duplas serão promovidas: Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari e Thelma Guedes e Duca Rachid. Será a maior renovação já realizada em tão pouco tempo em um gênero em que medalhões como Manoel Carlos, Gilberto Braga e Benedito Ruy Barbosa já não são mais sinônimos de sucesso _os dois primeiros anunciaram aposentadoria das novelas.

O pacote de lançamentos de autores é uma questão de sobrevivência para a telenovela, que hoje sofre para se manter na casa dos 30 pontos do Ibope, mas ainda se mantém como um dos produtos mais atraentes para os anunciantes. "Sem novos talentos exercendo o ofício de escrever, o gênero telenovela fatalmente estará com os seus dias contados", reconhece em entrevista exclusiva (leia abaixo) Silvio de Abreu, diretor de Teledramaturgia Diária da Globo, novelista conhecido por lançar outros profissionais _entre eles João Emanuel Carneiro, Carlos Lombardi e Elizabeth Jhin

A temporada de lançamentos começa em setembro, com Sol Nascente. A novela das seis será assinada pelo veterano Walther Negrão e pelo novato Julio Fischer. Em seguida, em outubro, será a vez de Maria Helena Nascimento, colaboradora desde 1994 (Pátria Minha), a estrear como autora. Ela escreverá Rock Story (ex-Sonha Comigo), em que Vladimir Brichta dará vida a um roqueiro em decadência e Rafael Vitti encarnará um cantor pop em ascensão.

No ano que vem, Alessandro Marson e Thereza Falcão, colaboradores de João Emanuel Carneiro em A Regra do Jogo, vão escrever Novo Mundo, uma trama de época para a faixa das 18h. No mesmo horário, chegarão Angela Chaves e Alessandra Poggi, com Em Nome do Amor; e Bia Correa do Lago, em parceria com Alcides Nogueira, com Amor e Morte. Na faixa das 19h30, além de Maria Helena Nascimento, serão lançados Claudia Souto, com Pega Ladrão; Paula Amaral (em parceria com Izabel de Oliveira), com Anos Incríveis; e Guilherme Vasconcelos, em coautoria com Antonio Calmon, com Barba Azul.

Silvio de Abreu diz que "não existe uma fórmula" para saber quando um autor está pronto para ser lançado. Para quem está na fila, é um momento de grande tensão. "A ansiedade faz parte, nem tento lutar contra ela", diz Maria Helena Nascimento, que, a menos de seis meses da estreia, toma "um monte de vitaminas" e tenta "dormir o suficiente e continuar nadando".

CrISTIANE CAMELO/NOTICIAS DA Tv

Daniel Ortiz à frente de painel de personagens de Alto Astral, sua primeira novela solo

Prestes a colocar no ar sua segunda novela, Haja Coração, Daniel Ortiz conta que a tensão para escrever Alto Astral começou em 2011, quase quatro anos antes da estreia. "Quando o Silvio [de Abreu] me convidou pra fazer Alto Astral, foi na festa de encerramento de Passione. Na época, a novela ainda ia se chamar Buu. No dia seguinte eu saí de férias pro exterior. Quem disse que eu consegui descansar? Passei as férias todas pensando naquilo, na responsabilidade, que não queria decepcionar o Silvio etc", lembra. Sobre Haja Coração, Ortiz já tem uma certeza: vai ganhar alguns quilos. "Eu tenho o infeliz costume de engordar durante as novelas. Você fica muito tempo sentado, sem fazer exercício físico", revela. 

Leia a seguir entrevista em que Silvio de Abreu conta sobre o maior processo de renovação de autores já empenhado na Globo:

Você é um autor experiente que sempre teve preocupação em lançar novos escritores de novelas. Fez isso com Maria Adelaide Amaral, João Emanuel Carneiro, Elizabeth Jhin e Daniel Ortiz, entre outros. Agora como diretor de teledramaturgia da TV Globo, lançar novos autores passou a ser uma política de emissora, e não apenas de um autor?

Silvio de Abreu: Essa sempre foi a política da empresa, mas poucos autores aceitam a incumbência. O processo de revelação de um novo autor é longo e muito trabalhoso. Depois de detectado o talento é preciso monitorar, aconselhar, estimular, tudo pacientemente, driblando inevitáveis conflitos. Esse trabalho toma muito tempo e com isso, forçosamente a função principal do autor, que é escrever a sua novela, fica em segundo plano, enquanto ele passa o seu conhecimento para o novo autor. Há que se ter muita paciência, desprendimento e uma grande vontade de revelar novos profissionais, acreditando que sem novos talentos exercendo o ofício de escrever, o gênero telenovela fatalmente estará com os seus dias contados.

Nos próximos dois anos, serão lançados dez novos autores de novelas. Quando um colaborador está pronto para ser lançado como autor solo?

Abreu: Não existe uma fórmula, muito menos um cálculo exato de tempo. A formação de um novo autor exige uma enorme dose de sensibilidade para intuir o momento certo de lançá-lo como titular de um trabalho. Existem autores que são excelentes escrevendo uma sinopse, mas não sabem desenvolvê-la nos capítulos. Por outro lado, existem os que fazem ótimas cenas, mas não conseguem encadear uma narrativa. Existem os que sabem imaginar ótimas cenas e situações, mas são péssimos nos diálogos. Cada caso é um caso e para cada um o método de desenvolvimento é diferente e específico.

Não é arriscado lançar tantos autores novos em tão pouco tempo?

Abreu: Já venho trabalhando com a maioria desses autores há dois anos. Desde que assumi a Direção de Gênero Teledramaturgia Diária na TV Globo, tenho garimpado novas sinopses, conversado com os autores, encomendado capítulos. Esse processo me permite analisar a habilidade de cada um e optar pelos melhores enquanto outros esperam uma nova oportunidade, caso tenham talento para isso.

Já descartei muitas sinopses, já abortei novelas aprovadas quando os capítulos não eram satisfatórios e até já mudei autor, aproveitando a ideia da sinopse, mas substituindo-o por outro que poderia desenvolver melhores capítulos. É um processo difícil e doloroso, porque se lida com ideias, sonhos e esperanças, mas o principal é ter um bom produto no ar. 

O lançamento de novos autores visa a uma renovação do gênero? Ou novela é um gênero que resiste a transformações?

Abreu: Visa não só a renovação do gênero, mas, principalmente a sua longevidade. Nem todo novo autor vem com alguma ideia original e muitos pecam quando pretendem fazer uma revolução do gênero, já na sua primeira experiência. Sou totalmente aberto a novas ideias, novas linguagens, novos caminhos, aliás quem acompanhou a minha carreira de autor sabe disso. Guerra dos Sexos, A Próxima Vítima, A Incrível Batalha Das Filhas Da Mãe no Jardim do Éden, e outras atestam isso.

Não poderia ser diferente exercendo o cargo que exerço agora, mas é preciso ser prudente ao se entusiasmar com novas ideias. Ter a ideia não é o mais importante, o mais importante é saber desenvolvê-la dentro de um gênero popular como a telenovela que atinge milhões e milhões de telespectadores dos mais diferentes níveis sociais e culturais.

JOÃO COTTA/TV GLOBO

Maria Adelaide Amaral em entrevista a GloboNews; autora finalmente chegará à faixa das 21h

Nos últimos anos, autores veteranos e consagrados, como Gilberto Braga e Manoel Carlos, decepcionaram no horário nobre. Isso evidencia a necessidade de se lançar novos autores, inclusive na faixa mais nobre, a das 21h, com as escalações de Maria Adelaide Amaral/Vincent Villari e Thelma Guedes/Duca Rachid para esse horário?

Abreu: Gilberto Braga e Manoel Carlos são dois ícones incontestáveis da teledramaturgia brasileira, devemos aos dois maravilhosas histórias de muito sucesso. Tenho certeza que essa sua decepção é momentânea.

Muitos autores ambicionam chegar à novela das nove, porém, mais do que um mérito pessoal, o que importa é a narrativa e o estilo de cada um deles. Tanto Maria Adelaide Amaral quanto Thelma Guedes e Duca Rachid já escreveram novelas em que podem ser percebidos muitos elementos que se consagraram nas novelas das nove: melodrama, tramas familiares, personagens densos, uma pitada de comédia, assuntos polêmicos, trama intrigante. A escalação delas para o horário era apenas uma questão de tempo. Aposto no sucesso delas no horário, não só pelo talento, mas também pela habilidade de conduzirem maduramente uma grande história.

Quando um autor está pronto para pilotar um Boeing das 21h?

Abreu: Quando tiver talento para chegar até lá, habilidade para conduzir a trama, saber lidar com os percalços da responsabilidade do cargo e, principalmente, ter uma grande história para contar.


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