PERFIL

Ex-garçom clandestino, apresentador de TV já deu cinco voltas ao mundo

Fotos Acervo Pessoal

Marcio Moraes com a namorada e sócia, Flavia Bravo, em passeio de charrete em Nova York - Fotos Acervo Pessoal

Marcio Moraes com a namorada e sócia, Flavia Bravo, em passeio de charrete em Nova York

DANIEL CASTRO - Publicado em 30/05/2016, às 06h37 - Atualizado às 07h24

O apresentador Marcio Moraes é um clichê de brasileiro que venceu na vida. Ele tinha apenas 17 anos quando perdeu o pai em um acidente de carro. Da noite para o dia, se viu obrigado a trabalhar para ajudar a mãe a sustentar a família. Acabou indo para os Estados Unidos, onde trabalhou como ajudante de cozinha e garçom, clandestinamente. Vinte anos depois, lançou a base do programa que seria referência no segmento de turismo na TV brasileira, o Companhia de Viagem. Hoje, aos 57 anos, Moraes já carimbou 17 passaportes, conheceu 156 países e deu cinco voltas ao mundo. Nas viagens ao litoral de São Paulo, vai de helicóptero, que ele mesmo pilota. Para tê-lo numa inauguração de hotel, é preciso pagar um cachê de ex-BBB no auge da fama: R$ 15 mil.

O publicitário Moraes é uma espécie de Amaury Jr. do turismo na TV. Em 1996, já tinha um bom dinheiro e conhecia 49 países quando dediciu fazer merchandising de um guia de hoteis de golfe no programa de Goulart de Andrade. "No dia da gravação, o apresentador faltou e eu fiz no lugar dele", lembra. O resultado foi reprovado com um palavrão pelo famoso repórter televisivo, mas isso não desanimou Moraes. Ele passou a gravar pílulas de turismo para a atração de Andrade. Na primeira, falou sobre a importância de se etiquetar as malas. Um ano e meio depois, as pílulas davam lugar ao Companhia de Viagem. 

Moraes pilota helicóptero sobre São Paulo

O programa nasceu em um canal local da TVA São Paulo (hoje Vivo TV), foi para a Rede Mulher (hoje Record News), cresceu na Band, migrou para a RedeTV!, voltou para a Band e novamente para a RedeTV!. Desde a semana passada, está na Record News, aos sábados, às 23h15, e na TV Gazeta, duas horas depois. Na atração, Moraes mostra destinos turísticos que vão de Foz do Iguaçu, no Paraná, a Marrakesh, no Marrocos. Registra lugares charmosos, faz passeios imperdíveis e experimenta comidas saborosas e exóticas. Não se incomoda em aparecer seminu, usufruindo de um spa _muito menos em mandar um abraço para a dermatologista no meio de uma gravação. 

O apresentador quase sempre viaja a convite, de execuitiva ou primeira classe, e se hospeda em hotel cinco estrelas, com todas as despesas pagas por empresas do país que o hospeda. "Às vezes eu cobro um valor para promover o destino", admite. Quando é convidado a uma inauguração de hotel, cobra R$ 15 mil pela presença. E faz uma reportagem sobre a novidade. Ele divide as receitas de publicidade com a emissora que exibe seu programa.

TV não dá dinheiro

Além do Companhia de Viagem na TV, Moraes comanda três revistas _Companhia de Viagem, Companhia de Negócios e a "top lifestyle" Highlander. "O conteúdo da Highlander é para onde vou com meu helicóptero, para onde vou com meu jatinho executivo", explica. Moraes também edita um site e um blog no UOL.

Sua atividade mais visível é a de publisher, mas não é isso que torna o Grupo Companhia uma empresa de médio porte. "Nosso principal negócio é o relacionamento. Meu grande negócio é trazer empresas e investidores para o Brasil", diz, citando algumas companhias aéreas. Como especialista em relacionamentos, Moraes trabalhou recentemente na campanha do príncipe Ali bin al-Hussein, da Jordânia, à presidência da Fifa. Atuou nos bastidores da campanha na América Latina.

Moraes se prepara para fazer entrevista em inauguração de hotel: cachê de R$ 15 mil

O programa de TV, diz, não rende grande dinheiro, mas é essencial. "É importante, primeiro, porque gosto muito. Companhia de Viagem é como um filho que vai fazer 20 anos, me considero um precursor nisso. Não sou uma celebridade, mas sou conhecido. Isso facilita para alavancar outros negócios", afirma. "Eu chego em uma reunião e o cara fala: 'Minha mulher adora o seu programa'. Não ganho dinheiro com isso, mas toda a minha cultura de planeta vem do programa".

Infância pobre

Filho de policial civil e diarista, Moraes teve uma infância pobre em Belo Horizonte. Tinha que dividir o par de tênis e o uniforme escolar com o irmão. Sofreu muito de asma. Como não tinha dinheiro para comprar remédios, o pai o deixava ter crises para ser medicado gratuitamente no serviço público. "A cada dois dias, eu era entubado e levado de ambulância. Tive uma infância muito cruel, era um fiapinho", lembra o hoje triatleta.

Quando o pai morreu, em 1977, uma grande decepção mudou seu destino. Ele disputava uma vaga de trabalho em uma agência de turismo, mas foi eliminado por não saber falar inglês. "Foi um balde de água gelada. Eu precisava muito daquele emprego", recorda. A história comoveu um famoso escultor mineiro, que o financiou para ficar seis meses em Fort Lauderdale, na Flórida, acompanhando o filho em um curso. Ao final dos seis meses, Moraes tomou a "grande decisão" de sua vida.

O apresentador banha uma corrente no rio Jordão, durante viagem no início de 2015

"Eu tinha zero de dinheiro no bolso, meu inglês não estava bom, não podia voltar como estava, não sabia se conseguiria emprego em Belo Horizonte. No dia da volta, com a passagem da Varig na mão, decidi não voltar. Fiquei fazendo aquele subemprego, trabalhei em restaurante, virei clandestino", lembra. Sem visto de trabalho nos Estados Unidos, Moraes era um "bus boy", espécie de assistente de garçom, que recolhe os pratos nas mesas. A experiência, contudo, o levou a um hotel em Monticello, cidadezinha próxima a Nova York, onde conseguiu se legalizar.

De colador de adesivos a VP

Dois anos depois, Moraes conseguiu uma vaga na American Express. Começou colando adesivos em lojas e restaurantes. Trabalhou duro e estudou marketing na prestigiada Columbia University em Nova York. Saiu da empresa, 11 anos depois, como vice-presidente. "Conheci 49 países pela empresa. Fui o primeiro não-americano a ter a posição de vice-presidente", conta, orgulhoso.

Nos anos 1990, o publicitário voltou para o Brasil e, com a expertise acumulada na American Express, montou um plano de saúde odontológico, a Oral Gold. Quando a empresa atingiu 20 mil clientes, precisou de novos sócios, acabou perdendo espaço na própria empresa e a vendeu. Foi aí que decidiu virar publisher do segmento de turismo, já que gostava tanto de viajar e se considerava um expert no assunto de tanto cometer gafes. "Passei por todas as gafes."

O empresário com treinadores de falcões no deserto de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes

Moraes já chegou a fazer 20 viagens internacionais por ano. Hoje, realiza apenas oito. "Tirei o pé por causa dos negócios", diz. Alguns países ele visitou dezenas de vezes. Já perdeu a conta das viagens fez aos Estados Unidos. Ao Chile, foram 24. Mas nem tudo é glamour. O apresentador já passou por apuros.

Perrengue no aeroporto

Uma vez, na Europa, estava dentro de um avião quando descobriu que o destino da aeronave era Roma, e não Varsóvia. Saiu correndo para não pegar o voo errado. "Quando olhei para trás, o avião inteiro estava atrás de mim. Pensaram que era uma bomba, tive que dar explicações, perdi o voo".

No Japão, Moraes chegou a ser algemado. Uma comissária "bruxa" cismou que ele tinha mentido para os atendentes da companhia aérea, que fizeram um upgrade da classe econômica para a executiva para sua produtora, adoecida. Depois de atrasar 34 voos, embarcou para os Estados Unidos. Lá, só não foi preso e pagou multa de US$ 75 mil porque a filha de um vice-presidente da companhia aérea estava no avião e testemunhou a seu favor, contra a comissária.

Moraes com um grupo de japoneses após uma sessão de tai chi chuan em parque

Os sufocos também levaram Moraes a aprender a pilotar helicóptero. No Quênia, durante uma gravação aérea, uma turbina explodiu. No litoral de São Paulo, sobreviveu a um pouso forçado. Nos Andes, viu uma aeronave em que voara no dia anterior explodir no ar, matando todos a bordo. "De tanto susto que levei, resolvi aprender a pilotar. Sou apaixonado por helicóptero", diz, fazendo mistério se tem um. "Você vai publicar isso?", pergunta ao repórter. "Então a resposta é não, não sou proprietário".

Moraes também se declara apaixonado pela Ásia. "Passei os últimos sete reveillons na Ásia", conta. Nesta semana, embarca para uma viagem de 14 dias na Coreia do Sul. Em seguida, passa mais uma semana no Japão. Na Ásia, vai produzir seis programas. "Depois, vou mostrar o novo canal do Panamá, que acabou de ser inaugurado, e vou para Nova York, fazer um negócio que adoro, um curso de negociação", revela. Em Nova York, vai aproveitar para gravar um programa, "porque Nova York sempre tem novidade". Será a única viagem que pagará do próprio bolso.

Com 12 milhões de milhas aéreas acumuladas, Marcio Moraes encerra esta reportagem "gente que faz" com uma dica filosófica: "A grande conquista que tive nesses anos todos foi a cultura de respeitar os outros".


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