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Em 1999, programa de pagodeiros afundou a Globo e durou só 49 dias

Reprodução/TV Globo

Salgadinho, que fazia sucesso como pagodeiro em 1999, no finado Samba, Pagode & Cia. - Reprodução/TV Globo

Salgadinho, que fazia sucesso como pagodeiro em 1999, no finado Samba, Pagode & Cia.

THELL DE CASTRO - Publicado em 14/03/2016, às 05h54

Em 1999, com o pagode em alta no mercado fonográfico, a Globo apostou em conhecidos artistas do gênero para protagonizar um novo programa nas tardes de sábado. Era o Samba, Pagode & Cia., apresentado por Salgadinho, então no Kantiguelê, e Netinho de Paula, do Negritude Júnior. Mas a atração afundou a audiência da emissora e ficou apenas 49 dias no ar.

O formato do programa, dirigido por Roberto Talma (1949-2015), era simples: os cantores recebiam convidados especiais em shows gravados no Projac. A atração também teve uma edição gravada na casa de espetáculos Via Funchal, em São Paulo (SP). O cenário era composto por painéis coloridos, com mesas de bar nas laterais, onde eram acomodados outros músicos.

O Samba, Pagode & Cia estreou no dia 27 de março de 1999, às 15h. Nos poucos programas produzidos, foram recebidos convidados como Eliana de Lima, Exaltasamba, Karametade, Os Morenos, Sem Compromisso e Soweto, entre outros.

Mas a audiência da Globo no horário, que costumava ficar entre 15 e 18 pontos, simplesmente despencou para a metade disso. Se Raul Gil, em alta na Record, já batia a Globo contra os filmes anteriormente exibidos, agora trucidava a líder com seus concursos de calouros.

Em abril, a diferença entre os dois programas chegava a quase dez pontos. A Globo chegou a fazer uma reformulação radical na atração, colocando no ar uma espécie de novelinha, com um misto de casa e escritório, em que Salgadinho e Netinho eram irmãos e recebiam os convidados de vários gêneros musicais. Mas também não deu certo, e o último programa foi exibido no dia 15 de maio de 1999.

No dia 29 de maio, o segundo sábado após o fim da atração musical, a emissora exibiu o filme Babe, o Porquinho Atrapalhado, e conseguiu voltar aos 18 pontos e vencer Raul Gil após meses de jejum.

Na Folha de S.Paulo, a colunista Anna Lee informou que não havia chance de a atração voltar. "Apesar de Aloysio Legey estar estudando modificações para o Samba, Pagode & Cia., a Globo já contatou os empresários dos pagodeiros para rescindir seus contratos".

Críticas

À revista IstoÉ, José Paulo Vallone, então diretor de programação da Record, disse que a Globo estava atirando para todos os lados em busca de resultados imediatos. "Eles se perguntaram: o que faz sucesso? Pagode? Então contrataram todos os pagodeiros e fazem uma porcaria de programa como aquele Samba, Pagode & Cia.".

O próprio Raul Gil, em uma edição da IstoÉ Gente de abril de 2000, também tripudiou sobre a emissora. "Para concorrer comigo, a Globo pôs no ar Samba, Pagode & Cia. Pus as crianças em cima dos pagodeiros e eles perderam até o rumo de casa. A Globo fez então um programa para brigar comigo, o Gente Inocente, que iria ao ar aos sábados. Mudaram de ideia na última hora. Com o Megatom foi o mesmo. Passaram os dois para domingo. Soube que foi medo de perder para mim", disse.

À agência TV Press, em 13 de maio de 2001, Netinho de Paula também criticou a Globo e disse que a imagem dos cantores ficou desgastada na época. "A Globo é comandada por pessoas elitistas e sem identidade com o povo. O popular, para os diretores da Globo, é a coisa mais brega do mundo. Fazer pagode tomando champanhe não dá certo mesmo", disparou.

A Globo estreou o Caldeirão do Huck em abril de 2000, mas só conseguiu deter Raul Gil a partir do final de 2001, quando a atração de Luciano Huck começou a se firmar como líder de audiência no horário.


THELL DE CASTRO é jornalista, editor do site TV História e autor do livro Dicionário da Televisão Brasileira (Editora InHouse). Siga no Twitter: @thelldecastro


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