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Em 1996, desaparecidos de Explode Coração causaram pânico entre crianças

Divulgação/TV Globo

As atrizes Isadora Ribeiro e Deborah Evelyn em cena da novela Explode Coração (1995) - Divulgação/TV Globo

As atrizes Isadora Ribeiro e Deborah Evelyn em cena da novela Explode Coração (1995)

THELL DE CASTRO - Publicado em 24/06/2018, às 06h15

Além das desventuras do cigano Igor (Ricardo Macchi), a novela Explode Coração (1995), atualmente em reprise do canal Viva, ficou marcada por um merchandising social que deu muito certo: a busca por crianças desaparecidas. Mas a ação também teve um efeito colateral, que causou pânico em muitos jovens pelo Brasil.

Para misturar ficção e realidade, a autora Gloria Perez incluiu na trama temas como exploração do trabalho infantil e o desaparecimento de crianças. Ela divulgou as Mães da Cinelândia, como são conhecidas as mulheres do Rio de Janeiro que dedicam suas vidas à busca de filhos desaparecidos.

Na novela, a personagem Odaísa (Isadora Ribeiro), procurava o filho Gugu (Luiz Claudio Júnior), sequestrado por bandidos que queriam vendê-lo a um casal de estrangeiros.

A repercussão foi tremenda: diariamente, eram mostradas fotos de crianças desaparecidas, e mais de 70 foram encontradas. O tema passou a ser debatido por outros programas, jornais e revistas, dominando a mídia durante meses.

Mas uma reportagem da Folha de S.Paulo de 27 de abril de 1996 informou que os trechos da novela em que as mães procuravam filhos desaparecidos estavam causando pânico em diversas crianças.

"A novela está desenvolvendo um pânico. As crianças se sentem ameaçadas. É um fenômeno semelhante ao medo de morte que ocorreu depois do acidente dos Mamonas Assassinas", disse a psicóloga Carmem Silva Taverna, em referência ao acidente de avião que vitimou o famoso grupo musical naquele mesmo ano.

De acordo com o texto, Maria Marta Cavallieri, secretária da escola primária Algodão Doce, de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, contou que várias mães estavam com medo de deixar seus filhos irem a um passeio no zoológico. "Antes havia o medo de que as crianças se perdessem. Hoje, as mães temem o sequestro", explicou.

As crianças também opinaram. Graziela Almeida, então com 10 anos, disse que passou a pedir que sua mãe a buscasse na escola todos os dias. "Tenho medo que aconteça comigo o mesmo que aparece na TV", informou.

Ana Carolina Pires, então com 8 anos, não quis mais ir a uma excursão ao Museu do Ipiranga. "Ela sempre chora na parte do Gugu e não quer nem ver quando as mães aparecem no final", afirmou sua mãe, Maria Conceição Pires.

Noélia Corbs, avó de Nayana, então com 5 anos, foi obrigada a falar para a neta que os casos da novela eram fictícios. "Até eu fico impressionada", ponderou.

Mas a psicóloga Célia Regina Rocha, que afirmou ter atendido várias crianças com medo do tema, disse que a novela não trazia prejuízo aos pequenos e que a campanha era muito válida. "É preciso haver outra coisa que justifique a mudança de comportamento", explicou.

reprodução/tv Globo

Globo mostrou campanha social Mães da Cinelândia em cenas de Explode Coração (1995)

Sucesso
O êxito da campanha é inquestionável. A direção da Globo, empolgada com os resultados (e com os índices de audiência) esticou a trama, que passava dos 60 pontos de média, em 15 capítulos.

Perto do final da novela, em um balanço publicado no Jornal do Brasil de 27 de abril de 1996, Gloria Perez celebrava o sucesso da ação e esperava que o assunto não fosse esquecido.

"Os jornalistas sublinham, especialmente, o aspecto de poder usar uma novela como serviço de utilidade pública, sem comprometê-la na ficção. Tanto em Portugal quanto em outros países onde a novela vai ser exibida, eles poderão obter o mesmo resultado. Afinal, o problema de crianças desaparecidas é mundial", explicou. 

Uma reportagem da Folha de S.Paulo de 26 de abril de 1996 mostrou que 26 das 70 crianças desaparecidas que a novela ajudou a localizar saíram de casa por conta própria, escolhendo viver nas ruas porque apanhavam dos pais ou parentes. Apenas cinco tinham sido realmente sequestradas.

"Casos que dependem da investigação policial não chegam a ser resolvidos, senão em número muito pequeno. Seria bom que outros Estados fizessem como o Rio e criassem uma secretaria especial", concluiu a autora.

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