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MEMÓRIA DA TV

Em 1992, Você Decide revelou brasileiros desonestos e recebeu crítica do governo

Reprodução/Memória Globo

Antonio Fagundes era o apresentador do Você Decide no ano de estreia, 1992: episódio controverso - Reprodução/Memória Globo

Antonio Fagundes era o apresentador do Você Decide no ano de estreia, 1992: episódio controverso

THELL DE CASTRO

Publicado em 6/1/2019 - 6h26

Em 1992, muito antes de a Netflix testar a participação do público no desenrolar de uma história de ficção, a Globo começou a fazer isso no programa Você Decide. Mas logo em seu ano de estreia a atração causou polêmica: um final escolhido pelo público foi criticado até pelo governo da época e deixou no ar questões sobre a ética e a honestidade dos brasileiros.

Formado inovador da emissora, o Você Decide estreou em 8 de abril daquele ano, com apresentação de Antonio Fagundes. Pela primeira vez na história da televisão brasileira, o público acompanhava uma história e, por telefone, escolhia um dos dois desfechados disponibilizados pela emissora.

Um mês após sua estreia, em 6 de maio, foi mostrada a história de um publicitário desempregado, vivido por Diogo Vilela, que, ao fazer uma viagem de avião, senta-se ao lado de um passageiro com problemas cardíacos.

O vizinho de assento tem um ataque em pleno voo e pede ao personagem que guarde sua mala, morrendo em seguida. Em casa, o publicitário descobre que a mala tinha US$ 100 mil, que seriam destinados a uma instituição de caridade.

O programa perguntou ao público se ele deveria ficar com a mala, mesmo sabendo do destino pretendido pelo dono do dinheiro, ou não. O resultado surpreendeu: 39.635 brasileiros optaram por ficar com a quantia, que equivalia a 260 milhões de cruzeiros na época, enquanto apenas 19.604 pessoas disseram que não.

Diogo Vilela recebe pasta repleta dólares em episódio do Você Decide (Reprodução/TV Globo)

A história, com roteiro de Geraldo Carneiro, mostrou que o publicitário procurava trabalho há mais de um mês e seus filhos estavam ameaçados de perderem as provas finais da escola por falta de pagamento. Por meio de uma reportagem na TV, o personagem de Vilela ficou sabendo que o dinheiro que carregava iria para crianças carentes de uma instituição.

O publicitário foi até o local, conversou com os meninos de rua e os funcionários, mas decidiu ficar com o dinheiro. No final, para amenizar a crise na consciência, se propôs a fazer uma campanha publicitária gratuita para arrecadar fundos para a instituição.

Discussão sobre ética
No dia seguinte à exibição, o assunto dominou todas as discussões e provocou até um pronunciamento do então ministro da Fazenda, Marcílio Marques Moreira, que condenou o resultado do programa, considerando-o antiético.

Homero Icaza Sánchez (1925-2011), especialista em pesquisas de opinião pública, que trabalhou durante muitos anos na Globo, não viu no resultado um símbolo de falta de ética. "Não há nada de anormal nisso, apenas um reflexo de como a situação econômica mexe com a vida das pessoas", disse ao jornal O Dia de 10 de maio.

"Como espectador, achei que as pessoas iriam devolver a mala depois que souberam que o dinheiro ia para uma instituição de caridade, mas essa decisão não significa nada", completou Sánchez, destacando que nunca havia sido feita uma pesquisa sobre o comportamento ético do brasileiro e que o programa não podia ser considerada uma pesquisa de opinião.

"Não houve uma amostragem rigorosa, uma seleção por sexo, idade, grau de instrução e classe econômica, por exemplo. Foi um resultado aleatório e assim deve ser encarado", finalizou.

No fim das contas, segundo o jornal, muita gente levou em conta a situação econômica da época, com mais uma das intermináveis crises financeiras, desta vez em meio ao governo de Fernando Collor.

"Os telespectadores já haviam decidido em outros programas que um delegado deveria prender o próprio filho, acusado por assalto, e que uma mulher que foi com o amante ao hotel e presenciou um assassinato deveria denunciar o criminoso à polícia. Mas ao vislumbrar a possibilidade de ganhar US$ 100 mil, caídos do céu, quase 40 mil pessoas não duvidaram: decidiram que o personagem deveria ficar com o dinheiro", enfatizou a publicação.

Em 2013, o programa Na Moral (2012-2014) reexibiu o episódio controverso em um debate sobre honestidade, e colocou a escolha do desfecho em uma nova votação. Depois de 21 anos, a escolha do brasileiro mudou: 63% do público decidiu que o personagem de Vilela deveria entregar o dinheiro para a caridade.

Já o Você Decide ficou no ar até 17 de agosto de 2000, depois de centenas de episódios que testaram as opiniões dos brasileiros sobre os mais variados temas. Periodicamente surgem rumores de que a Globo estaria preparando uma nova versão do programa, mas esse fato nunca se concretizou.


THELL DE CASTROé jornalista, editor do site TV História e autor do livro Dicionário da Televisão Brasileira. Siga no Twitter: @thelldecastro

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