Memória da TV

Ditadura tirou Flávio Cavalcanti do ar por fazer sensacionalismo

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O apresentador Flávio Cavalcanti (1923-1986), censurado pela ditadura por fazer sensacionalismo na Tupi - Reprodução

O apresentador Flávio Cavalcanti (1923-1986), censurado pela ditadura por fazer sensacionalismo na Tupi

THELL DE CASTRO - Publicado em 30/08/2014, às 11h51 - Atualizado em 31/08/2014, às 06h42

No auge da repressão da ditadura militar, um programa líder de audiência foi suspenso durante 60 dias por divulgar a história de um homem que emprestou a mulher ao vizinho. Esta foi a situação vivida em 1973 por Flávio Cavalcanti (1923-1986), na atração que levava seu nome e fazia sucesso nas noites de domingo na Tupi, em guerra pela audiência com a Globo. Na época, a exploração de temas sensacionalistas já era amplamente utilizada. A suspensão ajudou a Globo, que estava para lançar o Fantástico.

No dia 11 de março de 1973, lá estava Cavalcanti apresentando seu programa ao vivo. A atração atiçou a ira dos generais ao mostrar no polêmico quadro Flávio Confidencial a história desse homem, pai de cinco filhos, que havia ficado inválido e emprestou a mulher ao vizinho. Foi a gota d’água, já que os militares também estavam incomodados com a notícia que circulava envolvendo a proteção do apresentador à atriz Leila Diniz (1945-1972), perseguida pela ditadura.

Logo após a exibição, a emissora foi avisada de que a Censura Federal queria a gravação para análise. Três ministros cuidaram do assunto: Higino Corsetti (Comunicações), Jarbas Passarinho (Educação) e Alfredo Buzaid (Justiça). Eles integravam uma comissão do governo que avaliava o nível da programação da televisão brasileira.

Na Câmara dos Deputados, o deputado Clóvis Stenzel, da Arena do Rio Grande do Sul, pediu providências contra o apresentador, acusado de atacar a moral e os bons costumes. Ele falou sobre a “revolta que causou a lamentável apresentação do Programa Flávio Cavalcanti na noite de domingo, condenável sob todos os aspectos, pois foi uma das mais tristes páginas que já nos foi dada assistir no vídeo, na televisão brasileira”, registrou a Folha de S.Paulo de 15 de março de 1973.

A atriz Leila Diniz (1945-1972), perseguida pela ditadura militar (Foto: Reprodução)

No mesmo dia, foi realizado uma espécie de julgamento, sob o comando dos ministros citados e de 15 parlamentares, envolvendo a emissora, o programa e o apresentador, com a seguinte sentença: Flávio Cavalcanti e o então produtor Wilton Franco (depois diretor de Os Trapalhões e muitas outras atrações), foram suspensos por 60 dias.

De acordo com a decisão da Divisão de Censura e Diversões Públicas do Departamento de Polícia Federal, “o Programa Flávio Cavalcanti tratou de assunto contrário à moral e aos bons costumes, explorando, de forma altamente negativa, um fato infeliz, com grave desrespeito à família brasileira”.

Como não havia muito o que se fazer, Flávio Cavalcanti acatou a suspensão. A revista Veja de 21 de março de 1973 destacou que ao apresentador nada restava fazer senão repousar alguns dias em Teresópolis, onde tinha uma casa de campo.

“Assistentes seus estimam os prejuízos da quarentena em 1,4 milhão de cruzeiros. O cálculo parece razoável, pois ele recebe mensalmente da Rede Associada 150 mil cruzeiros de honorários e 550 mil para cobrir gastos de produção. A emissora deverá suspender os pagamentos, e alguns dos colaboradores de Flávio, durante o fim de semana, sondavam empregos junto a outros produtores”, publicou a revista Veja.

Não foi, no entanto, a primeira suspensão da história da televisão brasileira. Antes disso, o próprio Flávio Cavalcanti já havia sido impedido de apresentar seu programa durante nove semanas, em junho de 1972. Outros nomes, como Costinha e Dercy Gonçalves, passaram pela mesma situação.

Homem que emprestou mulher a vizinho e teve história contada por Flávio Cavalcanti (Foto: Célio Apolinário/Veja)

Estatização das emissoras

Dias depois da decisão, o ministro Corsetti concedeu uma entrevista em Porto Alegre dizendo que estava estudando medidas para impor às emissoras a elevação do nível da TV brasileira. Diante de um boato de que algumas emissoras seriam estatizadas, o ministro alertou que não era esse o objetivo. “Estatização só com fins educativos e, para isso, temos a TV Educativa [atual TV Brasil]. As outras vão continuar em mãos de particulares”.

Na mesma entrevista, publicada pela Folha de S. Paulo de 21 de março de 1973, Corsetti comentou a punição dada a Flávio Cavalcanti. “Os programas ao vivo são muito periogosos e o governo está muito preocupado com isso. Ninguém quer água com açúcar, mas não podemos permitir toda sorte de liberdade. A finalidade da TV é instruir, educar e divertir, e é para isso que cedemos canais”, frisou.

Apesar do estrago no Ibope, o programa cumpriu a suspensão e voltou no dia 13 de maio de 1973, totalmente reformulado. Só que, a partir daí, e, meses depois, com o surgimento do Fantástico na Globo, não foi mais o mesmo.

Flávio Cavalcanti permaneceu na Tupi por mais alguns anos, foi para a TVS, de Silvio Santos, no Rio de Janeiro (RJ), em 1976, depois para a Band em 1982 e, por fim, ficou no SBT entre 1983 e 1986, até morrer no dia 26 de maio, em São Paulo (SP).


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