SILIO BOCCANERA

Após 31 anos, correspondente que cobriu queda do Muro de Berlim deixa a Globo

Reprodução/Memória Globo

O correspondente Silio Boccanera em depoimento para o Memória Globo: "Pendurou as chuteiras" - Reprodução/Memória Globo

O correspondente Silio Boccanera em depoimento para o Memória Globo: "Pendurou as chuteiras"

LUCIANO GUARALDO - Publicado em 11/03/2019, às 17h43

Correspondente internacional da Globo e da GloboNews em Londres, Silio Boccanera está deixando a emissora. Após 31 anos na emissora e quase cinco décadas dedicadas ao jornalismo, o profissional que ficou famoso por subir no Muro de Berlim antes da demolição do mesmo decidiu se aposentar. O anúncio foi feito por Ali Kamel, diretor-geral de Jornalismo da Globo, em comunicado disparado à equipe nesta segunda-feira (11).

"Foram 31 anos de Globo e quase 50 de um jornalismo sempre de altíssima qualidade. Eu disse a ele que, embora em choque, entendia a decisão, anunciada com graça, bem ao estilo dele: 'Meu caro, decidi pendurar as chuteiras. Ou desligar o microfone, em metáfora mais apropriada ao nosso ofício. Aos 71 anos, me aposento do jornalismo'", escreveu Kamel em sua homenagem ao colega.

Especialista em cobertura de guerra, Boccanera acompanhou vários conflitos de perto. Testemunhou eventos que marcaram a história do mundo, como as guerrilhas na América Central, nos anos 1970, as guerras no Líbano (1982) e do Golfo (1990-1991), a queda do Muro de Berlim (1989), o processo turbulento de dissolução da União Soviética (1991) e os atentados a Londres em 2005. 

Após o ataque ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001, o jornalista virou correspondente da GloboNews na capital inglesa. Para o canal de notícias, participou semanalmente de programas como o Milênio e o Sem Fronteiras, nos quais fazia análises sobre a situação política e econômica mundial.

Rodrigo Carvalho, correspondente do Grupo Globo na Europa, prestou homenagem própria ao colega de Redação. "O grande Silio Boccanera se aposenta hoje. Foram quase 50 anos de Jornalismo de alta qualidade, no impresso e na TV. Tenho o privilégio e o prazer de conviver com Silio desde que cheguei ao escritório da Globo em Londres, dois anos atrás. Passei a admirá-lo ainda mais. Um cara agradável, discreto, bem-humorado, pé no chão. E é generoso que só. Conta causos e, vejam só, sabe e gosta de ouvir", elogiou.

No Twitter, a jornalista Yula Rocha, que também trabalha em Londres publicou uma foto ao lado do veterano e deu a entender que seu "pendurar de chuteiras" não será tão definitivo assim. "Ele deu a entender que o pé no freio estava próximo, mas não falou em aposentadoria. Jornalista, afinal, nunca para de vez", escreveu.

Confira o comunicado na íntegra que Ali Kamel enviou à Redação do Grupo Globo para anunciar a aposentadoria de Boccanera:

"Não há jornalista que não tenha sonhado em ser o protagonista de um imagem como aquela. Pelas lentes de Paulo Pimentel, Sílio Boccanera aparece no alto do Muro de Berlim sendo demolido por alemães orientais e ocidentais e diz: 'Poucas vezes é possível testemunhar um acontecimento e ter certeza de que a História com H maiúsculo está sendo escrita diante dos nossos olhos.' Era o dia 9 de novembro, e Sílio e Paulo faziam eles próprios História, numa das passagens mais icônicas do jornalismo brasileiro. Impossível não mencionar esse feito quando anuncio a decisão de Sílio de deixar o jornalismo para se dedicar mais à família, aos livros e à contemplação, como ele me disse há poucos dias. Foram 31 anos de Globo e quase 50 de um jornalismo sempre de altíssima qualidade. Eu disse a ele que, embora em choque, entendia a decisão, anunciada com graça, bem ao estilo dele: 'Meu caro, decidi pendurar as chuteiras. Ou desligar o microfone, em metáfora mais apropriada ao nosso ofício. Aos 71 anos, me aposento do jornalismo'. 

O que impressiona na trajetória de Sílio é que a queda do Muro de Berlim não foi uma cobertura isolada, mas parte de um currículo de tirar o fôlego de qualquer jornalista apaixonado pela profissão. Sílio cobriu as revoluções na América Central, a Guerra Civil no Líbano, a Guerra das Malvinas, a Guerra do Golfo, o fim da União Soviética, a guerra que resultou na dissolução da Iugoslávia, a repercussão no Reino Unido do 11 de setembro, os atentados em Londres, entre tantos momentos históricos. 

Ele entrou para a faculdade de Economia da UFRJ, mas logo a trocou pela de jornalismo. Depois de formado, fez mestrado na Universidade da Carolina do Sul. Tinha deixado no Brasil uma carreira recém iniciada no departamento de pesquisa do Jornal do Brasil seguida por passagens pelo Caderno B e pela editoria Internacional. Nos Estados Unidos, tornou-se correspondente do JB e passou no seu primeiro grande teste: a cobertura das revoluções da América Central, na década de 70, entre elas a da Nicarágua, que levou os sandinistas ao poder. Dessa cobertura resultou o livro, publicado em 80, 'A Revolução da Nicarágua'. 

Em 1982, Sílio trocou o jornal impresso pela TV, e dos Estados Unidos foi para Londres como correspondente da Globo. Mal teve tempo de fazer um treinamento (e nem precisou, porque é um daqueles com talento tanto para o impresso quanto para o vídeo). Quando se preparava para estrear, começou a Guerra das Malvinas. Foi um êxito, e ele criou um estilo que marcaria sua carreira. Sabia unir as palavras às imagens como poucos. Ele e o cinegrafista Luiz Demétrio Furkim ficaram no meio de um fogo cruzado na Eslovênia, mas conseguiram captar imagens impressionantes do ataque do governo iugoslavo sobre os rebeldes eslovenos, mais uma de suas coberturas memoráveis. De todos os conflitos armados que cobriu, Sílio captou a imagem humana: em todas as guerras destacou os sinais de normalidade, pessoas saindo e procurando momentos de calma, como quem diz que, apesar de tudo o que acontece, a vida precisa continuar. 

Depois do 11 de setembro, Sílio tornou-se colaborador fixo da GloboNews com base em Londres. Participou até aqui, semanalmente, dos programas Milênio e Sem fronteiras, além de de coberturas especiais como as dos atentados terroristas em Londres, a eleição de Barack Obama e a eleição de Donald Trump. Marcou a GloboNews com seu estilo único de entrevistar, fazendo sempre as perguntas mais difíceis sem perder a expressão de calma e suavidade. 

Eu o conheci pessoalmente em meados dos anos 90, quando eu ainda estava no Globo, numa ida a Londres. Foi na casa de uma amiga comum, Cássia Maria Rodrigues, em Primrose Hill. Conversamos longamente, eu, talvez um chato, querendo conhecer detalhes das coberturas de que ele participou. Desde então pude admirá-lo ainda mais, o que se acentuou quando de minha chegada à TV, em junho de 2001. Em setembro daquele ano, com o atentado às Torres Gêmeas exigindo reforços de talento para aquela cobertura monumental, Schroder teve a ideia de pedir que Sílio desse a sua contribuição para a rede. Ele deu, com entusiasmo e brilho. Mas, quando o convidamos para permanecer na rede, ele declinou: preferiu o jornalismo mais especializado da News, onde permaneceu até hoje, quando decidiu 'desligar o microfone'. 

Em todos esses anos, foi um honra trabalhar com ele. Foi também um prazer receber sugestões de leituras sobre temas que nos interessavam mutuamente, entre eles questões relativas ao Oriente Médio e ao jornalismo. Ele me prometeu não interromper essas sugestões, o que de certa forma me consola. A decisão de Silio terá certamente um duplo impacto no nosso trabalho: a falta que fará, mas também tudo aquilo que deixou de legado às gerações que vieram depois. Ao Sílio, expresso o sincero agradecimento da TV Globo por sua contribuição inestimável ao jornalismo da emissora e pelo exemplo que deixa. E em meu nome pessoal, a minha admiração pelo jornalista que é e a gratidão por todos esses anos de uma relação profissional de que só tenho orgulho. 

Ali Kamel"

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