Years and Years

Por que nova minissérie da HBO é mais pirada e real do que Black Mirror?

Imagens: Divulgação/HBO

Russell Tovey em Years and Years; ator interpreta um gay em mundo que persegue homossexuais - Imagens: Divulgação/HBO

Russell Tovey em Years and Years; ator interpreta um gay em mundo que persegue homossexuais

JOÃO DA PAZ - Publicado em 28/06/2019, às 05h16

Imagine um mundo no qual o chocolate é uma raridade e as pessoas podem fazer ligações usando as pontas dos dedos das mãos, em um gesto de "hang loose". O que se encaixaria perfeitamente na frase "Nossa, isso é muito Black Mirror" na verdade faz parte da trama da minissérie da HBO Years and Years, bem mais real e piradona do que a atração da Netflix.

Uma coprodução com a rede britânica BBC, Years and Years estreia na HBO brasileira nesta sexta (28), às 22h. A série acompanha uma família da cidade de Manchester entre 2019 e 2034, período de uma década e meia no qual a sociedade se transformou e a política radical da extrema direita tomou conta da Europa.

Nesse último aspecto, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. A família Lyons assiste pela TV à ascensão de uma celebridade da política radical, chamada Vivienne Rook (muito bem defendida por Emma Thompson). Essa mulher representa o que se vê atualmente no mundo, vozes da política que são conservadoras, arcaicas e pregam absurdos.

Vivienne, por exemplo, lança a ideia de que para melhorar a qualidade do voto, as pessoas teriam de fazer um teste de QI. Nesse caso, só poderia participar das eleições quem conseguisse um resultado acima dos 70 pontos.

Em Years and Years, Emma Thompson segura uma engenhoca capaz de desligar celulares

O interessante é que em boa parte da série, o público só vê Vivienne pela TV, em programas ou debates, assim como os Lyons. Essa estratégia é interessante porque o telespectador se sente como um integrante da família. E cada um deles absorve o discurso da política de uma maneira diferente.

O pacificador do clã é Stephen (Rory Kinnear), um consultor financeiro que é ouvido por todos. Sua mulher, a contadora Celeste (T'Nia Miller), é cheia de sonhos e às vezes não se sente acolhida pelos Lyons. Stephen tem uma boa conexão com o irmão gay, Daniel (Russell Tovey), um trabalhador honesto. A amizade dos dois merece uma atenção especial do público ao longo dos seis episódios.

As irmãs de Stephen são próximas, mas têm personalidades distintas. Edith (Jessica Hynes) é uma ativista que odeia Vivienne logo de cara. Enquanto a cadeirante Rosie (Ruth Madeley) é uma mãe solteira que demonstra simpatia por Vivienne.

Quem fiscaliza a família toda é a matriarca Muriel (Anne Reid), uma idosa boa de cabeça que fica boquiaberta com as coisas descaradas que Vivienne fala na TV.

Bichinhos no holograma

A tecnologia mostrada em Years and Years é, no mínimo, curiosa. Os Lyons são muito unidos e os anos podem passar, mas eles sempre se mantêm conectados, não importa onde estejam, usando um aparelho tipo o Echo Plus, da Amazon, que faz ligações por comando de voz.

A pessoa da família mais vidrada em tecnologia é a adolescente Bethany (Lydia West), filha mais velha de Stephen e Celeste. Ela abusa de recursos engraçadinhos disponíveis no Snapchat e no Instagram, como aqueles filtros de bichinhos, que na série podem ser recriadas no mundo real, por hologramas, no rosto do usuário.

Bethany (Lydia West) usa outra engenhoca de Years and Years; isso não é muito Black Mirror?

Bethany tem um sonho: ser uma transumana. A excentricidade consiste em digitalizar o cérebro, transformando o corpo em um computador, literalmente, cheio de chips. Quer tirar uma foto? Basta piscar o olho. Ligar para o pai? Só fazer um sinal de telefone com a mão que o problema está resolvido.

No mundo de Years and Years, a tecnologia avança até o sinal de 6G na telefonia móvel. Porém, as operadoras continuam apresentando um serviço de banda larga capenga, com internet lenta. Os drones fazem entregas e, com um simples teste de sangue, é possível descobrir com quantos anos você vai morrer.

O futuro da série traz um novo colapso bancário, o que leva uma pessoa a ter até cinco empregos para sustentar sua família. O Reino Unido enfrenta uma crise habitacional e um decreto é baixado: quem tiver um quarto sobrando em casa é obrigado a cedê-lo para uma pessoa sem-teto.

O meio ambiente também entra em colapso, a ponto de fazer as bananas entrarem em extinção. O clima endoidece, chega a chover durante 60 dias ininterruptos. Contas de gás e luz são caríssimas, e apagões se tornam constantes.

Por colocar uma família de classe média no centro da trama, Years and Years aproxima o público dessas mudanças, da política à organização social, e como elas afetam pessoas comuns, o que facilita a identificação do telespectador. É uma amostra bem próxima da realidade que o futuro pode nos reservar.

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