Crítica

Narcos da corrupção, O Mecanismo atira em Lula, Dilma, Aécio e no seu encanador

Fotos Karima Shehata/Netflix

Enrique Diaz e Selton Mello se encaram em O Mecanismo: rivalidade entre delegado e doleiro move a série - Fotos Karima Shehata/Netflix

Enrique Diaz e Selton Mello se encaram em O Mecanismo: rivalidade entre delegado e doleiro move a série

DANIEL CASTRO - Publicado em 27/03/2018, às 06h07

Nova série de José Padilha, O Mecanismo é para ser vista numa sentada só, de pouco mais de cinco horas e meia. Não espere um documentário sobre a Lava Jato, mas um empolgante entretenimento sobre o roubo institucionalizado no Brasil, com mocinhos, vilões, intrigas, viradas, algum romance e até cenas de sexo. Antes de mais nada, é dramaturgia.

O Mecanismo é a Narcos da corrupção. Ninguém é santo nela, nem os heróis, nem o juiz Sérgio Moro. Talvez para se defender da patrulha da esquerda, Padilha atira para todos os lados, repete a afirmação de que a corrupção é um câncer, um mal epidêmico do Brasil, que vem desde 1808, com a chegada de Dom João 6º, e afeta do presidente da República ao encanador que conserta o vazamento de esgoto. Um câncer que se alastra e pega você e pega eu quando damos aquele "jeitinho".

A série da Netflix mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que nela é chamado de Higino, articulando com grandes empreiteiras uma operação-abafa na Lava Jato; apresenta asssessores de Dilma Rousseff, ou presidenta Janete, negociando propina enquanto ela grava um discurso à nação.

Está certo que O Mecanismo bate muito mais forte em Dilma e Lula, afinal, eles estavam no poder quando os maiores escândalos da política nacional estouraram. Mas também não poupa Aécio Neves nem Michel Temer.

Aécio, renomeado Lúcio Lemes, surge preocupadíssimo com o prosseguimento das investigações da Polícia Federal. Advogados de empreiteiros falam de seu envolvimento em negociatas, de como sua eleição à Presidência em 2014 seria estratégica para matar a Lava Jato.

O que torna O Mecanismo interessante não é a apenas encenação ficcionada de uma história recente do país, cujos desdobramentos conhecemos. Dramaturgicamente, a série se apoia na origem e nos bastidores da operação Lava Jato, em personagens sobre os quais muito pouco ouvimos falar. E eles são muito menos entediantes do que aqueles que frequentam os noticiários e agora questionam que José Padilha colocou em suas bocas falas de outras raposas.

A série envolve e conquista o telespectador com policiais federais que sabotam policiais federais, em superintendentes que temem perder o cargo para delegados mais competentes, em procuradores da República que não perdem a oportunidade de aparecer e levar os créditos pelo trabalho dos outros.

Caroline Abras interpreta delegada que enfrenta sabotagem do próprio chefe e do namorado

Como também é ficção e tem a pretensão de fazer sucesso no mundo todo, O Mecanismo não abre mão de uma narrativa universal, com um pouco de romance e os conflitos que movem toda boa história contada na televisão.

A delegada que abalou alguns dos homens mais poderosos do país, personagem de Caroline Abras, tem um caso mal resolvido com um membro do Ministério Público, defendido por Lee Taylor. O juiz Paulo Rigo, a versão de Sérgio Moro vivida por Otto Jr., é pintado como um homem vaidoso, que vai trabalhar de bicicleta e exibe um topete impecável _e que faz sexo como todo mundo.

O conflito central de O Mecanismo opõe o delegado Marco Ruffo (Selton Mello) e Roberto Ibrahim (Enrique Diaz), claramente inspirado no doleiro Alberto Youssef, peça-chave da tragédia política nacional. Eles nutrem uma rivalidade que vem desde os tempos em que frequentavam o mesmo colégio e disputavam a mesma garota.

É, aparentemente, essa rixa que leva Ruffo a revirar latas de lixo e reconstituir folhas de papel retalhado para descobrir o envolvimento de Ibrahim na transferência ilegal de recursos para contas no exterior, esquema que também envolvia políticos, conhecido como o escândalo do Banestado.

Ibrahim se safou com uma delação premiada mal ajambrada pelo Ministério Público. Ruffo caiu em desgraça. Tido como doente mental, teve de se aposentar. Mas não parou de investigar Ibrahim. Dez anos depois, pelas mãos da amiga e colega de PF Verena Cardoni (Caroline Abras), conseguiu prendê-lo na Lava Jato e detonar a mais rumorosa investigação policial da história do país.

O arco do conflito entre Ruffo e Ibrahim aparentemente se esgotou na primeira temporada. Mas a série, assim como Narcos sem Wagner Moura, tem futuro. O último episódio já esboça um grande vilão para a próxima temporada, ainda não confirmada: um empreiteiro que é a cara de Marcelo Odebrecht. Que venha mais O Mecanismo.

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