ANÁLISE

Jennifer Aniston varre Rachel de Friends para baixo do tapete em The Morning Show

Divulgação/Apple TV+

Famosa por Friends, Jennifer Aniston agora interpreta a âncora Alex Levy no drama The Morning Show

Famosa por Friends, Jennifer Aniston agora interpreta a âncora Alex Levy no drama The Morning Show

HENRIQUE HADDEFINIR - Publicado em 28/12/2019, às 05h03

Apresentadores de programas matutinos são escolhidos especialmente para fazer o público sorrir e começar bem as manhãs. Eles precisam ser simpáticos e amáveis. Mas imagine se você pudesse entrar nos bastidores de uma atração assim. Será mesmo que a simpatia e a amabilidade estão por trás dessa cortina? A série The Morning Show oferece justamente essa oportunidade.

Jennifer Aniston, a eterna Rachel de Friends (1994-2004) e Reese Witherspoon estrelam a grande produção original da Apple TV+, que custou mais de US$ 15 milhões por episódio (R$ 60 milhões). O salário das atrizes, inclusive, supostamente chegou a US$ 2 milhões (R$ 8 milhões) por capítulo, e o acordo fechado em 2017 previa um lançamento massivo desse que seria o carro-chefe da plataforma.

Antes de estrear, a série passou pelas mãos de alguns produtores (que divergiram das atrizes na concepção artística), mas sua criação tinha uma base muito sólida. Jay Carson, que idealizou The Morning Show, trabalhou com vários políticos famosos, inclusive deBill Clinton. Em 2008, ele foi secretário de imprensa da campanha de Hillary Clinton, e foi só depois disso que encontrou a televisão.

Durante todo o tempo em que House of Cards (2013-2018), da Netflix, esteve no ar, Carson foi seu consultor político especial. Na série, ele ajudava a revelar como funcionavam os mecanismos secretos da política americana. Foi lá, também, que ele acompanhou de perto os escândalos sexuais atribuídos ao astro Kevin Spacey.

Foi provavelmente dessa experiência que saiu a inspiração para The Morning Show, que conta a rotina de um telejornal matutino justamente pela ótica de um escândalo semelhante. Na série, Mitch Kessler (Steve Carell) é o coâncora ao lado de Alex Levy (Jennifer Aniston). Mas, quando algumas mulheres o acusam de assédio, começa uma rede de chantagens e traições que levam a um resultado surpreendente.

Bradley Jackson (Reese Witherspoon) é uma repórter do interior que perde o controle com um manifestante durante um protesto e se torna viral quando um vídeo do acontecimento vai parar nas redes. Bradley é convidada para ir ao programa na mesma semana em que o escândalo de Kessler explode e acaba sendo usada pelos poderosos, que querem uma faxina na apresentação da atração.

De súbito, ela se vê sentada como coâncora ao lado de Alex, e o resultado é explosivo. Jennifer constrói uma apresentadora tida como queridinha do público, mas que esconde uma personalidade maledicente. É como se a Rachel de Friends, amável e ingênua, se revelasse um monstro calculista, capaz de deixar pelo caminho vítimas de seus próprios objetivos.

É o pulo do gato para a atriz, que luta há anos para aniquilar a imagem certinha construída por causa de uma das comédias mais famosas e assistidas do mundo. Os roteiros, enfim, fazem seu trabalho direitinho e entregam para ela uma quantidade respeitável de monólogos carregados de tensão, tão empenhados em promovê-la que acabam atrapalhando parte da naturalidade da narrativa.

Nos três primeiros episódios (justamente os que foram liberados primeiro para a imprensa), o problema era mais grave. Reese até tentava competir com Jennifer, mas a atriz veio disposta a não ser ofuscada.

Nessa ansiedade para que as duas surpreendessem o público, a estrutura dramática foi construída em torno delas, como se exigisse que o público ficasse impressionado --o que, inevitavelmente, cria uma barreira.

Contudo, conforme a temporada avança, a história vai ganhando novas expectativas e se torna maior do que a vitrine egomaníaca que parecia ser no começo. As questões sociopolíticas propostas pela discussão em torno do abuso e do assédio vão se ramificando, e com o ótimo texto e a direção dramática (quase novelística), as tensões crescem e explodem de uma forma irresistível.

O contrato com a Apple TV+ previa duas temporadas para The Morning Show, o que significa que uma resolução para o absolutamente chocante final preparado pelos roteiristas está garantida.

O novo ano é também uma oportunidade para reaprofundar as protagonistas, talvez dando a elas uma perspectiva menos catalisadora, já que em meio ao pântano dos interesses comerciais, as críticas que a arte norte-americana faz a si mesma terminam sempre redimidas pelo "herói" que eles não conseguem abandonar.

The Morning Show está com sua temporada completa disponível na Apple TV+.

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