GUERRA DO STREAMING

Aos 3 meses, 'Netflix da Disney' enfrenta crise de identidade com séries adultas demais

MITCHELL HAASETH/HULU

O ator Michael Cimino em cena de Love, Victor, série criada para o Disney+ que será exibida no Hulu

Michael Cimino é o protagonista de Love, Victor, que saiu do Disney+ e foi transferida para o Hulu

LUCIANO GUARALDO - Publicado em 02/03/2020, às 05h34

O Disney+, serviço de streaming da empresa do Mickey Mouse, ainda nem completou quatro meses nos Estados Unidos, mas já enfrenta uma crise de identidade. Com suposto foco em atrações para toda a família, tem desistido de séries "adultas demais" ao mesmo tempo em que exibe programas com violência e piadas de duplo sentido.

Na última segunda (24), o serviço abriu mão da série Love, Victor, uma adaptação do longa Com Amor, Simon (2018). Com um protagonista adolescente e gay, que vive uma jornada de autodescoberta, a série foi considerada inapropriada para o Disney+ por mostrar cenas de consumo de álcool e de teor sexual.

Como a primeira temporada, com dez episódios, já estava toda gravada, a gigante do entretenimento decidiu jogá-la para outra plataforma de streaming, a Hulu --uma joint venture da Disney com a Comcast. A estreia de Love, Victor nos EUA está marcada para junho, mês do Orgulho LGBTQ+, e os roteiristas já trabalham no segundo ano.

Outra provável vítima do Disney+ é a continuação de Lizzie McGuire, série infantojuvenil que fez muito sucesso em sua exibição original, entre 2001 e 2004, e lançou a atriz e cantora Hilary Duff para o estrelato. A nova atração mostraria a personagem (novamente interpretada por Hilary), agora com 30 anos, tentando se firmar como uma designer de interiores em Nova York.

O anúncio da nova versão de Lizzie pegou os fãs de surpresa, já que até então ninguém nunca havia dito nada sobre novos episódios da comédia, e o Disney+ usou a personagem como um dos pontos principais de sua divulgação no ano passado.

divulgação/disney+

Hilary Duff (Lizzie) e Adam Lamberg (Gordo) em foto da continuação da série Lizzie McGuire

Em janeiro, porém, a produção da série foi interrompida após a gravação dos dois primeiros episódios. A produtora Terri Minsky, criadora da série original e que também escreveria os novos capítulos, acabou demitida. Mais de um mês depois, os trabalhos não foram retomados --o streaming ainda busca um novo showrunner.

"Os fãs têm uma ligação sentimental com Lizzie McGuire e altas expectativas. Depois de gravar esses dois episódios, concluímos que temos de ir em uma direção criativa diferente, e vamos buscar uma nova lente para contar a série", justificou a Disney na época da demissão.

Após a transferência de Love, Victor do Disney+ para a Hulu, Terri Minsky deu uma entrevista à revista Variety em que afirmou que desejava o mesmo destino para sua criação.

"Estou muito orgulhosa dos dois episódios que fizemos, é algo que precisa ser visto. Idealmente, eu prefiro que joguem a série para a Hulu para que possamos fazer o que tínhamos em mente desde o início. Mas eu estou no escuro quanto ao futuro de Lizzie. Só quero que ela importe para as pessoas", disse.

Hilary Duff também alfinetou seus chefes ao comentar a notícia de que o Disney+ havia aberto mão da série sobre o jovem gay por ser "adulta demais". "Isso parece familiar", limitou-se a escrever ela em seu perfil do Instagram. Fontes próximas à atriz contaram para a Variety que ela ficou muito magoada com a demissão de Terri.

Ainda não há previsão de que as gravações de Lizzie McGuire sejam reiniciadas. Afinal, o novo showrunner, quando for contratado, terá de reescrever os episódios assinados pela criadora para dar um novo enfoque à produção. Mas o Disney+ insiste que o projeto segue de pé. "Queremos uma história que toque tanto o público original quanto uma nova geração de fãs", disse a empresa em nota.

reprodução/fox

Homer vai sempre ao bar do Moe para encher a cara em Os Simpsons, disponível no Disney+


Pode ou não pode?

O curioso é que a justificativa do Disney+ para rejeitar Love, Victor e dispensar Terri Minsky da chefia de Lizzie McGuire é que a plataforma de streaming foca em conteúdo "family-friendly". Ou seja, séries e filmes que atingem toda a família.

No catálogo do serviço, porém, há produtos que passam longe desse conceito. Em meio a produções inocentes como Mary Poppins (1964) e Querida, Encolhi as Crianças (1989), estão atrações anárquicas, como 30 temporadas do desenho Os Simpsons (com piadas sobre sexo, muito consumo de cerveja e péssimos modelos de comportamento) e Uma Cilada para Roger Rabbit (1988) --que colocou a animada (e sensual) Jessica Rabbit no imaginário de vários adolescentes dos anos 1980.

Também estão na plataforma os filmes baseados em heróis da Marvel, como Homem de Ferro (2008), Thor (2011) e Guardiões da Galáxia (2014). Não são longas exatamente adultos, mas há cenas de luta que poderiam ser consideradas violentas por um espectador mais sensível --e que passam longe do "family-friendly".

Toda a discussão sobre o que pode ou não entrar para o catálogo do Disney+ ainda passa longe dos brasileiros. Por aqui, a plataforma será lançada apenas em novembro, com um ano de atraso em relação aos Estados Unidos.

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