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Análise | Jornalismo

TV omite críticas da Igreja Católica ao governo, Congresso e Judiciário

Reprodução/TV Globo

Papa Francisco em visita ao Equador nesta semana; TV não repercutiu críticas da CNBB aos três poderes - Reprodução/TV Globo

Papa Francisco em visita ao Equador nesta semana; TV não repercutiu críticas da CNBB aos três poderes

CARLOS AMORIM, Especial para o Notícias da TV

Publicado em 8/7/2015 - 15h21
Atualizado em 11/7/2015 - 6h14

Não foi manchete em nenhum telejornal. Não vi nenhum destaque no Jornal Nacional _nem no Jornal da Band, que costuma dar mais espaço a temas polêmicos. A Record, focada no noticiário policial e nos dramas da violência, passou ao largo. Mesmo o SBT e a TV Cultura parecem ter-se omitido nesse importante pronunciamento da Igreja Católica, justo no momento em que o papa Francisco visita a América Latina.  

A análise de conjuntura política da CNBB, datada de 30 de junho e distribuída a todos as igrejas do país, foi citada na mídia impressa. Mas esteve ausente na televisão e no rádio. Os bispos católico do país acusam o Congresso de criar uma agenda "hostil aos direitos humanos". Criticam a politização do Judiciário. De quebra, atacam o plano de ajuste fiscal do governo, que segundo os bispos penaliza direitos trabalhistas historicamente consagrados.

Com relação ao Congresso, dirigido por “aliados” do Planalto, o documento da Igreja Católica indica uma atuação parlamentar que visa interesses políticos e econômicos. Na opinião dos bispos, o Congresso trabalha para encurralar o governo, com uma agenda “refratária à garantia de direitos”. E mais: os bispos afirmam que há uma “sub-representação” popular na Câmara dos Deputados, em razão de problemas no sistema político brasileiro. Por meio de campanhas políticas milionárias, baseadas em doações de empresas e corrupção, são eleitos representantes do empresariado e de banqueiros, com baixa atuação popular.

A CNBB vai além: descreve um governo refém do Congresso, como se estivéssemos num regime parlamentarista. Para dar o tom exato dessa crítica, afirma o seguinte: "[O governo] Transparecendo aturdido, é na verdade beneficiário e indutor dessa agenda (conservadora)".

Da parte do Planalto, até agora, ninguém rebateu as acusações católicas. O mais surpreendente, porém, é o silêncio da TV sobre os temas relacionados pela CNBB. Em um país continental como o nosso, o rádio e a televisão são os principais fatores de informação e discussão dos grandes temas. Depois, a web, com suas redes sociais, mais afeitas às classes médias. É claro que não vi tudo, mas não percebi destaques relevantes. 

Nas críticas ao Judiciário, sem referências diretas à operação Lava-Jato, que apura as bandalheiras na Petrobras, os bispos asseguram que há uma crescente politização na Justiça. Informam que alguns elementos dos tribunais têm “uma atuação seletiva”, com “abstração dos princípios da imparcialidade”. Pior: “se estabelece um rito sumário de condenação, agravando os direitos fundamentais da pessoa humana, seja ela quem for”. Mas não para por aí: “Não se faz justiça com açodamento ou com uma lentidão que possa significar impunidade”. Questionando as “delações premiadas” (inclusive com dinheiro), dizem os bispos: “Tais práticas, realizadas com os holofotes da grande mídia brasileira, transformam réus confessos em heróis”.

O documento da CNBB é um dos mais graves questionamentos políticos a respeito do período democrático no Brasil. Sobre a política econômica do Partido dos Trabalhadores (PT), comandada por um banqueiro, santa ironia, os bispos católicos afirmaram o seguinte: “Boa para o capital, ruim para o trabalho.

Em um país de maioria católica, a opinião dos bispos da “Igreja de Pedro” deveria fazer algum sentido. Tudo indica que não vai fazer sentido algum em meio à crise que vivemos. Nas redações das emissoras, o documento da CNBB nem deve ter sido lido com atenção.


CARLOS AMORIMé jornalista. Trabalhou na Globo, SBT, Manchete, SBT e Record. Ocupou cargos de chefia em quase todos os telejornais da Globo. Foi diretor-geral do Fantástico. Implantou o Domingo Espetacular (Record) e escreveu, produziu e dirigiu 56 teledocumentários. Ganhou o prêmio Jabuti, em 1994, pelo livro-reportagem Comando Vermelho - A História Secreta do Crime Organizado e, em 2011, pelo livro Assalto ao Poder. É autor de CV_PCC - A Irmandade do Crime. Criou a série 9 mm: São Paulo, da Fox. Site: www.carlosamorim.com


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