NOVA ESTRATÉGIA

Globo suspende novela das 23h e vai fazer Verdades Secretas 2 para o Globoplay

Reprodução/TV Globo

Angel (Camila Queiroz) aponta arma no último capítulo de Verdades Secretas

Angel (Camila Queiroz) aponta arma para Alex (Rodrigo Lombardi) no fim de Verdades Secretas

DANIEL CASTRO - Publicado em 23/10/2019, às 19h49

A Globo anunciou nesta quarta-feira (23) o adiamento da novela O Selvagem da Ópera, prevista para entrar no ar em abril próximo na faixa das 23h. A trama de Maria Adelaide Amaral, que estava com o elenco fechado, será transformada em uma novela das seis. No lugar das novelas das onze, a Globo irá produzir obras de 50 capítulos especialmente para o Globoplay. A primeira delas será Verdades Secretas 2, continuação de Verdades Secretas (2015).

Em nota, a Globo confirmou parte das mudanças. "Inicialmente criada como uma supersérie, O Selvagem da Ópera será expandida e ganhará novo formato, virando uma novela das 18h. Com o dobro de número de capítulos, a novela precisará ser reescrita. A decisão foi tomada pelo grande potencial da obra, que fala sobre a vida de Carlos Gomes, um brasileiro de grande reconhecimento internacional, que tem uma história desconhecida por muitos", disse a emissora.

A produção de O Selvagem da Ópera, que começaria a ser gravada no início de dezembro, foi suspensa, surpreendendo atores que já estavam ensaiando. A Globo não informou quando o projeto será retomado. A novela entra na fila das produções das 18h, em que só há vaga em 2021.

A decisão de produzir novelas curtas para o Globoplay, no lugar de superséries para a TV aberta, representa uma mudança de estratégia ousada por parte da Globo, uma aposta muito alta em seu serviço de streaming, que luta para ser relevante em um cenário de competição com gigantes como Netflix, Amazon e Disney.

Sobre essa estratégia, a nota da Globo foi evasiva. Disse apenas que a emissora "passa a produzir conteúdos de 50 episódios especialmente para o Globoplay". Segundo a colunista Patrícia Kogut, do jornal O Globo, essa nova "linha de produção" será inaugurada por Verdades Secretas 2, que estava prevista para ir ao ar na TV aberta em 2021. Fontes do Notícias da TV confirmaram a informação.

A produção da continuação da novela das 11 vencedora do Emmy Internacional de 2016 está no calendário de 2020. Apesar de Walcyr Carrasco, seu autor, ainda estar no ar com A Dona do Pedaço, a Globo já trabalha na pré-produção de Verdades Secretas 2. Atores como Reynaldo Gianecchini, Camila Queiroz e Marieta Severo já estão reservados para a obra.

A decisão da cúpula da Globo surpreendeu nos bastidores da emissora. Afinal, ela vai transformar um projeto bem-sucedido na TV aberta, a novela das onze (ou supersérie), em um formato semelhante em sua plataforma de streaming. Isso seria uma disruptura. Troca-se o modelo de financiamento da TV aberta, baseado na publicidade, pelo da assinatura por um serviço de vídeo on-demand.

A nota da Globo não fala que Verdades Secretas 2, e futuras produções de 50 minutos, serão exclusivas do Globoplay. Usa o termo "especialmente". Isso quer dizer que essas obras deverão, sim, ter janela na TV aberta. Resta saber se a repercussão na TV Globo será a mesma sem o impacto do ineditismo da exibição.

Novela sobre vida sofrida

O Selvagem da Ópera, sobre a vida sofrida do maestro Carlos Gomes (1836-1896), inicialmente seria produzida para exibição em 2021. Mas teve sua produção antecipada após o cancelamento de Sem Limite, que iria misturar peças de alta voltagem sexual do "pervertido" Nelson Rodrigues (1912-1980).

Em agosto passado, quando já estava com quase todo o elenco fechado, a produção sofreu alguns reveses. Perdeu Marjorie Estiano, Júlio Andrade e Alice Wegmann. Recém-egressa de Verão 90, Isabelle Drummond ficou com a personagem de Alice.

Maria Adelaide Amaral, a autora de O Selvagem da Ópera costuma dizer que Carlos Gomes, o maior compositor de óperas do Brasil, é um músico cuja obra quase todo mundo já ouviu, mas não sabe. Sua peça mais famosa é O Guarani (1870), baseada no romance de José de Alencar (1829-1877) e tema de A Voz do Brasil, programa de rádio oficial dos poderes da República.

Gomes já apareceu em outra obra de ficção da Globo: em 1999, o maestro foi um dos personagens retratados na minissérie Chiquinha Gonzaga. Na ocasião, ele foi interpretado por Paulo Betti. A trama de Lauro César Muniz mostrou uma relação amorosa entre Gomes e Chiquinha (Regina Duarte), algo que estudiosos da vida dos dois compositores negaram que tivesse ocorrido.

Nascido em Campinas em 11 de julho de 1836, Carlos Gomes teve uma vida repleta de sofrimentos e reviravoltas: sua mãe, Fabiana Cardoso, foi assassinada no quintal da própria casa com um tiro e quatro facadas em julho de 1844. Ela estava com apenas 28 anos, e o herdeiro tinha acabado de celebrar seu oitavo aniversário. A única testemunha também foi morta, e o crime nunca foi resolvido.

O nome do pai de Gomes, Manuel José, foi rasurado na certidão do maestro, pois ele só se casou com Fabiana depois do nascimento do filho. Apesar disso, Carlos teve uma convivência intensa com o patriarca, responsável pela parte musical nas cerimônias religiosas da região. A paixão pela música estava no sangue.

Aos 24 anos, Carlos Gomes se mudou para o Rio de Janeiro e virou protegido de dom Pedro 2º, que se tornou seu benfeitor e mecenas. O imperador, inclusive, ajudou o músico a ir para a Itália, onde aprofundou seus estudos e se casou com a pianista Adelina Peri, com quem teve cinco filhos. Três deles morreram ainda crianças e o quarto, Carlos Maria, não resistiu à tuberculose aos 25 anos.

A perda de mais um herdeiro fez com que fosse acometido pela depressão, e Gomes abandonou no meio o trabalho na ópera cômica Ninon de Leclos, a primeira de várias obras que deixou incompletas. Com problemas financeiros e sem vontade de trabalhar, ele teve uma crise nervosa que só era aliviada com o uso de ópio.

Sua derrocada final veio em 1889, com a proclamação da República. Na época, dom Pedro 2º havia prometido que Gomes assumiria a direção do Conservatório do Rio de Janeiro, o que resolveria suas finanças. A queda do Império, porém, mudou esses planos. Sem dinheiro, o músico morreu aos 60 anos, em 16 de setembro de 1896, vítima de um câncer de língua que se espalhou para a garganta.

Daniel Castro
DANIEL CASTRO transformou a coluna de Televisão da Folha de S.Paulo na mais relevante do país durante sua passagem pelo jornal, entre 1991 e 2009. Trabalhou no Notícias Populares (1995-96) e R7 (2009-13). E-mail: dcastro@noticiasdatv.com

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