Jornalismo

Em estreia 'desastrosa', Christiane Pelajo bate-boca e toma desmentido

Ramon Vasconcelos/TV Globo

Christiane Pelajo no cenário do Edição das 16h, novo telejornal da GloboNews - Ramon Vasconcelos/TV Globo

Christiane Pelajo no cenário do Edição das 16h, novo telejornal da GloboNews

DANIEL CASTRO - Publicado em 02/03/2016, às 05h31 - Atualizado às 18h39

Quatro meses e meio depois de deixar o Jornal da Globo, Christiane Pelajo teve uma reestreia "desastrosa" na GloboNews, na avaliação de profissionais do próprio canal de notícias. A primeira edição do telejornal comandado por Pelajo, na segunda-feira (29), foi marcada por um bate-boca da apresentadora com o ministro da Saúde e por uma barriga _termo que no jargão jornalístico significa erro de informação. O programa confundiu casos suspeitos de microcefalia com casos confirmados. Foi objeto de uma nota de desmentido por parte do ministério. Ontem (1º), o telejornal admitiu discretamente que errou.

O Edição das 16h, nome do telejornal de Pelajo, apresentou na segunda-feira um levantamento mostrando divergência entre os números de casos de microcefalia reportados pelos Estados e pelo Ministério da Saúde. Afirmou que em São Paulo haveria 149 casos confirmados, de acordo com a secretaria estadual de Saúde, enquanto o ministério, equivocadamente, sustentava que não havia nenhum caso confirmado. No Rio, seriam 252 casos confirmados pela secretaria e apenas dois confirmados pelo governo federal.

Ao vivo no estúdio da GloboNews em Brasília, o ministro Marcelo Castro travou um bate-boca com Christiane Pelajo e com a jornalista Cristina Tardáguila, responsável pelo levantamento de dados. Pelajo e Tardáguila pressionaram o ministro a explicar o motivo das divergências e da fragilidade dos dados do ministério. Castro, sem sucesso, tentou mostrar que as informações estavam erradas.

"Não existe nenhuma fragilidade nos dados do Ministério da Saúde. O que há é uma confusão entre casos confirmados, suspeitos, e casos notificados", disse o ministro. "Confirmados no Rio de Janeiro só há dois casos", insistiu.

O apelo do ministro não foi levado em consideração. À noite, o ministério emitiu nota dizendo que lamentava que o Edição das 16h "tenha classificado como 'falsos' as informações do grupo de especialistas e os dados encaminhados pelos Estados, contidas nas falas públicas do ministro da Saúde". E deu uma rápida lição de jornalismo: "O Ministério da Saúde considera importante o trabalho da imprensa, com seus questionamentos e críticas. Quando feita de maneira adequada, contribui para o controle social e correção das ações do poder público. A indução ao erro e o reforço a boatos, em uma situação de emergência nacional em saúde pública, no entanto, traz insegurança e confunde a população".

O ministério encerrou a nota anexando documentos oficiais enviados pelos Estados que confirmavam que o ministro estava certo e o jornal da Globo News, errado. Da Secretaria de Saúde de São Paulo, um documento oficial atestava a existência de 149 casos notificados de microcefalia, dos quais 30 foram descartados e 119 continuam sob investigação.

O desmentido do Ministério da Saúde causou um rebuliço nos bastidores da GloboNews. Ainda na tarde de segunda-feira, jornalistas do canal confirmaram que os dados divulgados estavam errados, mas o estrago já tinha sido feito. Ontem, o Edição das 16h admitiu o erro, mas não deu o braço a torcer, não reconheceu que confundiu casos suspeitos com casos confirmados. Pelajo leu a seguinte nota:

"Ontem [anteontem], o Edição das 16h classificou como falsa a informação do Ministério da Saúde sobre casos de microcefalia em vários Estados brasileiros. O Ministro da Saúde, Marcelo Castro, explicou que os números sobre microcefalia divulgados pelo ministério e pelas secretarias estaduais de Saúde muitas vezes são diferentes. Isso porque o boletim do ministério é fechado às segundas-feiras, com base em dados recebidos dos Estados até o sábado da semana anterior. Os dados que o Edição das 16h divulgou ontem só seriam atualizados nesta semana pelo ministério. O ministério divulgou nota reiterando as explicações sobre as disparidades dos números e lamentou que os dados tenham sido colocados em dúvida. O programa acolhe as explicações do ministério, mas entende que ontem ofereceu excelente oportunidade para o público entender melhor de que forma são contabilizados os dados pelo Ministério da Saúde".

Procurada, a Globo enviou ao Notícias da TV a nota acima.

Atualização: Após a conclusão deste texto, a direção de jornalismo e esporte da Globo enviou o seguinte comentário:

Classificar de "desastroso" o programa de estreia do Edição das 16 horas, da GloboNews, é um direito do colunista, que em muitas notas vem demonstrando predileção por detratar a imagem de Christiane Pelajo, uma profissional respeitada pelos colegas e pelo público, com um currículo de êxitos invejável, que poucos jornalistas podem exibir. Mas é injusta e, principalmente, não reflete nem a realidade nem a percepção do público. O número de manifestações que os espectadores enviaram para a emissora foi imenso, e muitos diziam que aquele foi o painel mais esclarecedor sobre a epidemia de zika que tinham visto. Foi graças ao programa que o público pôde saber como o ministério faz seus relatórios sobre a doença, relatórios que trazem discrepâncias com os de muitas secretarias de saúde estaduais. Ficou esclarecido por quê: a data de fechamento dos relatórios difere de órgão a órgão.

O programa liderado por Christiane Pelajo foi um sucesso, sob todos os ângulos que possa ser analisado. Inclusive quando se leva em conta a discussão com o ministro da Saúde. Jornalismo ao vivo se faz assim, com debate explícito de divergências, para que se esclareçam os fatos. Se o colunista não entende isso, sempre há tempo para refletir, aprender e mudar. É assim que procedemos. Nosso respeito por aqueles que cobrem televisão não vai mudar, mesmo diante de críticas injustas. O prestígio e competência de Christiane Pelajo estão consolidados há anos e não serão abalados. O programa Edição das 16 horas já tem o respeito de seus colegas, da Globo News, da direção de jornalismo e esporte da Globo e do público.


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