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OPINIÃO

Segunda temporada de You comete erros ainda maiores que no primeiro ano

DIVULGAÇÃO/NETFLIX

Os personagens Joe (Penn Badgley) e Candance (Ambyr Childers, ao fundo) em pôster de divulgação da 2ª temporada da série You, da Netflix

Joe (Penn Badgley) e Candance (Ambyr Childers, ao fundo) em pôster de divulgação da 2ª temporada de You

HENRIQUE HADDEFINIR

Publicado em 4/1/2020 - 5h20

[Atenção: este texto contém spoilers da 2ª temporada de You]

A primeira temporada de You passou quase despercebida quando estreou no canal norte-americano Lifetime, em setembro de 2018, mas tornou-se um verdadeiro fenômeno ao aparecer no catálogo da Netflix alguns meses depois. O sucesso foi tanto que a série passou a ser propriedade da plataforma e ganhou uma segunda leva de episódios que chegou ao Brasil no dia 26 de dezembro.

O bom desempenho era atribuído a fatores como seu ritmo agitado, suas reviravoltas e, principalmente, ao carisma de seu protagonista, Joe (Penn Badgley). Mas, considerando a personalidade do personagem, falar sobre seu carisma e amabilidade só faziam a série parecer ainda mais contraditória. 

Inteligente, You também tinha em seu texto um grande trunfo. Por trás da figura de um homem apaixonado, Joe desenvolvia um comportamento monstruoso que manipulava seu objeto de desejo a níveis inacreditáveis. Contudo, ao escolherem contar a história pela perspectiva dele, com seus pensamentos sendo ouvidos pelos espectadores, Sera Gamble e Greg Berlanti, os criadores da série, conseguiram um feito único: tornaram seu monstro amável.

A missão da série nesse segundo ano passou a ser, então, reverter essa impressão deixada pelo personagem, que colecionou fãs ao redor do mundo como se fosse um herói ao invés de um vilão. Ao trazerem à tona a perspectiva do perseguidor sobre os próprios atos, os roteiros conseguiram alcançar jovens e meninas incapazes de compreenderem a origem egoísta e desumana dos atos do personagem.

Estamos novamente assistindo a uma adaptação de um livro de Caroline Kepnes, o segundo de uma prometida saga, chamado Hidden Bodies (Corpos Ocultos). Aqui, Joe chega a Los Angeles para fugir dos crimes que cometeu nos eventos da primeira temporada, disposto a mudar tudo e ser um homem bom.

Decidido a esquecer o amor, ele conhece uma mulher chamada, ironicamente, Love, interpretada por Victoria Pedretti. Já sabemos o que vai acontecer: Joe vai se apaixonar por ela e muita coisa ruim resultará disso.

De fato, essa segunda temporada da série repete quase completamente a estrutura da primeira. Joe tem seu interesse romântico, tem sua vizinha problemática, está tutelando uma criança prodígio e acabou indo trabalhar com livros. 

O bom ritmo dos episódios também é mantido, e o texto da série continua afiado e provocativo. É interessante que dessa vez estejamos cercados de personagens que já sofreram algum tipo de abuso, o que soa uma tentativa exata de expandir a compreensão do público a respeito do que pode acontecer com alguém que é vítima do tipo de coisa que Joe faz.

Durante a primeira metade da temporada a perspectiva de Joe é a de um homem que cometeu erros e quer consertar. O texto é tão esperto na construção desses argumentos que o público continua simpatizando com o personagem vendo nas ações dele uma sinceridade impensada, esquecendo-se que Joe é tão autocentrado que não enxerga o homem terrível que é. E a culpa dessa ineficiência em lidar com as monstruosidades do protagonista está justamente na decisão de só dar voz a ele.

A forma como o roteiro trata Delilah (Carmela Zumbado) e Forty (James Scully), duas vítimas de abuso, é negligente. Mas, nada chega ao extremo do que é feito com Candance (Ambyr Childers), quando a história perde a incrível oportunidade de mostrar como a perspectiva de uma vítima pode mudar a nossa percepção do abusador.

O planejamento de You, contudo, não parece interessado em perder de vista a "humanização" de Joe, e as vítimas da série se perpetuam como vítimas até o final. Eles até acreditam estar redimensionando as coisas ao darem a Love um desfecho bastante diferente do que teve Beck (Elizabeth Lail). Mas todas as tentativas de resignificar Joe acabam sempre amenizando quem ele é. 

No final das contas, entretanto, o mal que existe em Joe é esvaziado quando até ele mesmo advoga em defesa de vítimas ou quando o roteiro categoriza que ao contrário do que aconteceu no primeiro ano, ele dessa vez não mata inocentes. Melhor: ele protege inocentes. Joe começa a temporada dizendo que gostaria de ser um homem melhor e, ao que parece, os criadores acreditam nele. 

É fato que a série ainda é boa de assistir e tem diálogos sagazes que ainda são grande parte de seu apelo. No entanto, na tentativa de consertar o impacto de Joe ao olhar dos espectadores, os responsáveis pela série terminaram o trabalho de absolvição. No terceiro ano, o protagonista será ainda mais amado, em seu lugar de homem redimido e apaixonado. Um pai de família com quem muitos desejariam estar.

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