Análise

El Camino: Precisávamos mesmo do filme que continua o final de Breaking Bad?

Reprodução/Netflix

Jesse (Aaron Paul) em cena de El Camino

Jesse (Aaron Paul) em cena de El Camino, filme da Netflix que é a continuação da série de sucesso Breaking Bad

HENRIQUE HADDEFINIR - Publicado em 12/10/2019, às 05h29

[Alerta: este texto contém spoilers]

Em 2013 chegava ao final uma das mais importantes séries de TV de todos os tempos. Ou pelo menos era assim que Breaking Bad era chamada por absolutamente toda a crítica mundial. Chegou, inclusive, a ser a única produção com 99% de aprovação especializada ao redor do mundo. Agora, seis anos depois, o longa El Camino chega à Netflix como uma espécie de epílogo que, entre os mesmos elogios rasgados da maioria dessa mesma crítica, esconde uma dúvida: esse epílogo, para uma série tão bem sucedida, era mesmo necessário?

Na série, um professor de química chamado Walter White (Bryan Cranston) está afundado em dívidas, tem um filho com paralisia cerebral e acabou de descobrir um câncer terminal. Com a ajuda do ex-aluno Jesse (Aaron Paul), ele começa a fabricar sua própria metanfetamina, se tornando, com o tempo, o mais importante e perigoso traficante da cidade de Albuquerque, no Novo México.

Os dois enfrentam absolutamente todo tipo de perigo, colocam suas vidas em risco temporada após temporada, até chegarem a um final que finalmente os separa. Contudo, essa separação sempre pareceu justa e equilibrada com o universo da produção. Nunca vimos fãs fazendo correntes ou petições por mais alguns tostões de Breaking Bad que pudessem sanar possíveis arestas. Sempre houve clamor pela série, não pela volta dela.

Mesmo assim, Vince Gilligan, o criador desse mundo árido, nunca conseguiu abandonar seu filho mais querido. Em 2015, levou adiante o projeto de um prequel (trama que se passa antes da história que conhecemos), e Better Call Saul começou com a promessa de mostrar o advogado de Walter nos dias em que ainda queria fazer algo de bom pelo mundo.

A história era diretamente ligada à série original, mas mesmo tendo passado pelo mercado com respeito e reverência, não alcançou a mesma popularidade. A insistência em continuar revisitando esses personagens encontrou a ideia do filme, inevitavelmente, após a televisão se tomar de saudosismos que resultaram em retornos como os de Arquivo X, Gilmore Girls, Will & Grace, Barrados no Baile e por aí vai...

Breaking Bad, contudo, tinha muito a perder. Além de ter sido muito lucrativa para o canal AMC, a série tinha uma grande reputação, e com Walter tendo morrido no último episódio, qual seria o verdadeiro atrativo para seguir adiante? Era um raciocínio fácil... Walter tinha um parceiro e Jesse poderia segurar a responsabilidade de ter um novo capítulo só para si.

Isso porque, olhando em retrospectiva, o texto e a condução de Gilligan deixaram claro que seu ídolo era Walter, e Jesse sempre apareceu numa posição fragilizada pela própria ideia por trás do personagem: Jesse não tinha vínculos, ele tinha vestígios de uma existência hesitante, as pessoas passavam por sua vida e deixavam névoas, ele era aquele "alguém que alguém conhece", uma sombra, o filho de alguém, amigo de alguém, amante de alguém...

Ele não era a estrela, ele não tinha objetivos traçados, ele era uma correnteza ousada, apenas isso. E aí estava, enfim, seu maior apelo narrativo.

El Camino, entretanto, decide lançar Jesse à luz da ribalta e começa exatamente no mesmo ponto em que a série terminou. Vince Gilligan escreve e dirige o filme, do mesmo modo que fazia na série, com pouco texto, longas sequências, correlacionando a paisagem seca da cidade com aquela sensação de sufocamento em que parecem viver os que moram ali.

Isso justifica os planos de Jesse: uma vez livre e vivo, ele só quer ir embora; e escolhe o Alaska, onde a secura da terra é substituída pela secura contraditória do gelo. O problema é que ele precisa de meios para isso, o que no leva ao que esse filme realmente é: uma chance de agradar aos fãs durante duas horas inteiras de uma narrativa que não interfere, ajusta ou enriquece em nada o que já sabemos da série original ou daqueles personagens. Indo mais longe: o filme vai fuçar no que já estava resolvido, arriscando-se a atrapalhar Jesse em seu lugar no imaginário coletivo.

Todos os códigos clássicos de Breaking Bad estão presentes no longa. As tensões envolvendo pessoas armadas que podem atirar a qualquer momento, as mortes repentinas, o senso de faroeste moderno, hipermasculino, que avança valorizando a atuação de Aaron, que segura as pontas do jeito que tem que ser no mercado: entregando tudo que pode a cada oportunidade de um close.

Do título do filme (aparentemente aleatório, mas com alguma delicada conceituação) às pequenas reviravoltas que surpreendem porque uma arma ou uma identidade estão escondidas em algum lugar, El Camino é todo uma reprodução da série original; e funciona justamente por causa disso.

Os elementos da série que aparecem no filme são equilibrados. Mesmo com a diferença de peso de Jesse Plemons (que aparece em flashbacks de antes da série acabar), a aparição de Todd é esperta, condizente com o ponto em que a história se passa e nada gratuita.

O roteiro não se seduz pela ideia de servir aos fãs sem controle e vai lá atrás investigar quais são os personagens que manteriam a integridade da história, sem feri-la. De fato, todo o filme é blindado, protegido, calculado, o que resulta, é claro, em certo oportunismo. Conhecida por lidar com extremos constantes, Breaking Bad teve uma carreira de tiroteios que só acertaram personagens relevantes quando as cortinas já estavam se fechando.

Ao final, contudo, Gilligan não resiste e temos nosso pequeno momento de reencontro entre Jesse e Walter. Daquele jeito maroto que o roteirista tem de lidar com expectativas. Em uma cena corriqueira, aparentemente sem importância, Jesse e seu mentor falam sobre objetivos. Walter quer saber o que o rapaz fará quando eles encerrarem suas atividades. Então, o texto do longa dá uma volta, contorna seu objetivo inicial e faz tudo ser sobre Walter novamente.

As características que amamos em Jesse (e que são toda sua desgraça) se recuperam no momento em que a história caminha para aquilo que ele nunca teve: sonhos. Ele sempre foi vazio, oco, confuso com a obrigação de superar a existência. Uma vírgula que as pessoas nem acham que chegou ao Ensino Médio. El Camino quase nos fez perder isso. Apenas quase, ainda bem.

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