SECRETÁRIA DE BOLSONARO

Na CNN, Regina Duarte canta música da ditadura e minimiza tortura e mortes

Reprodução/CNN Brasil

A secretária especial de Cultura, Regina Duarte, durante entrevista à CNN Brasil nesta quinta (7)

A secretária especial de Cultura, Regina Duarte, durante entrevista à CNN Brasil nesta quinta (7)

REDAÇÃO - Publicado em 07/05/2020, às 18h19 - Atualizado às 18h52

Secretária especial de Cultura do governo Bolsonaro, Regina Duarte cantou uma música da Ditadura Militar (1964-1985) ao vivo na CNN Brasil e minimizou as pessoas que morreram durante o regime. "Na humanidade, não para de morrer [gente]. Por que as pessoas ainda ficam ó [chocadas]? Não quero arrastar um cemitério de mortos nas costas", disse.

Em entrevista exclusiva ao jornalista Daniel Adjuto, em seu gabinete em Brasília, a ex-atriz da Globo afirmou que não deixará o governo, apesar do momento de crise que viveu com o presidente nas últimas semanas. Ao longo da conversa, porém, ela começou a cantar Pra Frente Brasil, música associada ao período em que os militares mandavam no país. "Não era gostoso cantar isso?", questionou.

Constrangido, Adjuto tentou argumentar que, no período da ditadura, muitas pessoas foram torturadas, censuradas e até mortas. "Se você falar vida, do lado tem a morte. Sempre houve tortura, censura. Sou leve, estou viva. Estamos vivo, vamos ficar vivos? Não vive quem fica arrastando cordéis de caixões", falou ela.

No estúdio do canal de notícias em São Paulo, até o âncora Reinaldo Gottino precisou intervir na conversa. "Acho que a gente não pode minimizar a questão da ditadura, isso tem que ficar claro", interferiu ele.

Dia do fico

Durante o bate-papo, Regina negou os boatos de que estaria deixando o governo após atritos com o presidente. "Parece que as pessoas têm uma ansiedade em me ver fora. Em nenhum momento [senti que ia sair], estava um clima superbom, ele estava animado, leve, rindo. A gente brinca, ele brinca mesmo. E ele estava num desses momentos leves, descontraídos, foi muito bom", contou ela.

A ex-atriz também contou que o próprio Bolsonaro recomendou que ela ficasse longe das redes sociais para não ler as críticas. "Eu evito me contaminar com as redes sociais. O presidente me avisou. Ele disse: 'Tem certeza que você quer aceitar isso que eu estou te propondo? O jogo é muito pesado, você vai virar vidraça, vai levar muita pedrada'. Mas eu tenho minha consciência limpa. Se eu ficar longe, essas pedradas não vão me atingir. Eu tenho uma história, estou tranquila", minimizou.

Sobre as críticas do filósofo Olavo de Carvalho, conselheiro de Bolsonaro que já a atacou diversas vezes em seu Facebook, Regina afirmou não sentir resistência. "Se existe, não chega até mim. Li dois livros [dele], no terceiro achei que tinha muito palavrão e parei de ler, não li mais. Não perdi o respeito. Mas não me interessei pelas coisas dele, fala muito palavrão, nomes feios", rebateu.

"Não sinto resistência do governo, sinto resistência da burocracia, a dificuldade das coisas andarem. Uma nomeação leva quatro semanas, tem que passar por filtros, e filtros burocráticos, não é o que estão pensando", ressaltou ela.

'Vou ter que virar obituário?'

Provocada sobre o fato de a Secretaria Especial de Cultura não ter soltado nenhuma nota de pesar após as mortes de figuras importantes do país, Regina justificou que tem mandado mensagens para as famílias das vítimas. "Será que eu vou ter que virar obituário? Quantas pessoas a gente está perdendo? Teve uma semana que foram três. Tem pessoas que eu não conheço. Aldir Blanc eu admiro, mas não conheci."

"O país está cultuando a memória deles, não precisa da Secretaria de Cultura. Pode ser que eu esteja errando, vou me corrigir. Não fiz por mal, peço desculpas, falei com as famílias, lamentei a perda... Nessa hora a pessoa que está mais constrangida pela perda é a família, e eu queria falar com elas diretamente, não por um papel timbrado da Secretaria", justificou a artista.

Depois, Regina voltou a ser cobrada pela âncora Daniela Lima sobre esses posicionamentos. "Estão fazendo falta [artistas que morreram], nós vamos sentir muita falta. Se eu estiver sendo cobrada significativamente por uma população que quer ser informada por cada óbito, eu abro um obituário. Não tem nenhum problema", cedeu a ex-atriz.

"Eu estou aqui [na Cultura] há 60 dias. Eu sempre ouvi falar que as pessoas têm 100 dias depois de assumir um cargo um cargo público para prestar contas, eu comecei a ser cobrada com 30 dias", reclamou.

"Depois que eu assumi essa função [de secretária da Cultura], a quantidade de gente que eu fico ouvindo que quer sentar nessa cadeira e com palpite de como administraria a Cultura do Brasil... Desculpem, eu estou aqui dando o meu melhor. É só isso, tenho o meu jeito e acho que preciso ser respeitada também", sentenciou ela, que negou ter intenções políticas.

Regina x Maitê

Ao fim da entrevista, Daniela Lima citou que alguns colegas da classe artística estão incomodados com o que Regina tem feito no posto e chamou um vídeo da atriz Maitê Proença gravado nesta quinta. "Ai, eu não quero ouvir isso. Acho isso baixo nível. Vai botar uma fala dela?", reclamou a secretária, que continuou falando durante toda a mensagem e teve o seu áudio cortado. Ela tirou o fone de ouvido com seu retorno e começou a sacudi-lo no ar, em protesto.

"Eu não queria ouvir. Vocês estão me obrigando?", brigou ela assim que seu áudio voltou. "Agora nós estamos ouvindo a senhora", informou Daniela. "Obrigada! Precisei dar um chilique aqui", ironizou Regina.

"Pra quê [ver o vídeo]? Vai ficar desenterrando mensagem da Maitê Proença de dois meses atrás? Pra que isso? Quem é você? Desculpe, eu não quero ouvir! Ela tem meu telefone, ela fala comigo!", protestou a secretária. "A Maitê enviou a mensagem pra gente hoje", reforçou Daniela.

"Eu tinha tanta coisa bacana pra falar. Vocês estão desenterrando mortos, vocês estão carregando um cemitério nas costas. Vocês devem estar cansados. Pensei que a entrevista seria com você [Daniel Adjuto], mas aí começo a ouvir vozes no meu ouvido [Daniela]. Não foi combinado nada disso", rebateu a ex-atriz da Globo.

Sem saída, Adjuto preferiu interromper a entrevista e devolver a palavra para o estúdio, com Gottino e Daniela. Confira a confusão:

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