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Geneton Moraes foi 'um gênio, mas sem estrelismo', diz diretor da Globo

Divulgação/TV Globo

Geneton Moraes Neto em ilha de edição da Globo; jornalista morreu nesta segunda - Divulgação/TV Globo

Geneton Moraes Neto em ilha de edição da Globo; jornalista morreu nesta segunda

DANIEL CASTRO - Publicado em 23/08/2016, às 08h23

Diretor-geral de jornalismo e esportes da Globo, Ali Kamel escreveu um inédito texto de despedida a Geneton Moraes Neto, que morreu nesta segunda-feira (22), aos 60 anos, no Rio de Janeiro, em consequência de um aneurisma dissecante da aorta sofrido em 5 de maio. Moraes era considerado um dos maiores entrevistadores do jornalismo brasileiro. Sua morte chocou os bastidores da Globo, onde era muito admirado. O texto de Ali Kamel foi distribuído a todos os jornalistas da emissora. Foi a primeira vez que Kamel, famoso pelos comunicados internos em que elogia profissionais promovidos ou destituídos de funções mais nobres, se dedicou a um obituário.

"Todos nós que tivemos o privilégio de conviver com ele sabemos que ele era, de fato, especial. Um gênio do jornalismo, mas sem nenhum estrelismo. A voz doce, cantada com aquele delicioso sotaque pernambucano que, graças a Deus, jamais perdeu. Não só a voz, mas o jeito, a postura. Tudo em Geneton era doce, gentil, amável. Mesmo quando zangado, porque alguma reportagem não saía como ele queria ou porque um projeto não era aprovado. Ele era firme, dizia o que pensava, mas era doce. Poucas vezes vi alguém tão fascinado pelo nosso ofício. Não tinha vaidade, tinha vontade de descobrir e revelar. Não media esforços para isso. Era capaz de pedir longas licenças não remuneradas, juntar com férias vencidas, para... trabalhar num livro. Fazia com prazer. E era impossível recusar", escreveu Kamel. 

Moraes começou no jornalismo ainda adolescente, aos 13 anos, de forma amadora. Despontou, como profissional, no Diário de Pernambuco e, depois, como correspondente de O Estado de S.Paulo. Em 1985, entrou para o Grupo Globo. Primeiro, como editor e repórter na Globo Nordeste. No Rio de Janeiro, foi editor-executivo do Jornal da Globo e do Jornal Nacional, correspondente da GloboNews em Londres e repórter e editor-chefe do Fantástico em duas ocasiões. Também coordenou a criação do programa Pequenas Empresas, Grandes Negócios e atuou em Dóris para Maiores e Muvuca, de Regina Casé. Desde 2006, produzia reportagens especiais para a GloboNews.

Nos últimos anos, se dedicou aos documentários. Em 2010, realizou para o Canal Brasil o documentário Canções do Exílio, com depoimentos de artistas brasileiros vítimas da Ditadura Militar nos anos 1960 e 1970. Dois anos depois, comandou o primeiro documentário de longa-metragem da GloboNews, Garrafas ao Mar: a Víbora Manda Lembranças, sobre o jornalista Joel Silveira (1918-2007).

Foi como entrevistador que Moraes se destacou. Em seu currículo, há nomes como os dos generais Newton Cruz e Leônidas Pires Gonçalves, Paulo Maluf, Saturnino Braga e do ator Guilherme Fontes, além de Carl Bernstein, repórter que investigou o escândalo Watergate, nos Estados Unidos dos anos 1970,  Eva Schloss, ex-prisioneira de um campo de concentração nazista, astronautas e agentes secretos.

Leia a seguir a nota de Ali Kamel: 

"Geneton foi um guerreiro. Todos nós acreditamos que ele venceria essa batalha. Foram muitos dias. Chegou a melhorar. Carinhosamente, ainda com ele no hospital, me mandou alguns poucos e-mails em que falava, claro, de sua paixão, o jornalismo. Estava confiante e isso foi um sopro de alegria para mim. Não deu, e ele nos deixou. Dá em todos nós aquele nó na garganta, a gente chora.

Todos nós que tivemos o privilégio de conviver com ele sabemos que ele era, de fato, especial. Um gênio do jornalismo, mas sem nenhum estrelismo. A voz doce, cantada com aquele delicioso sotaque pernambucano que, graças a Deus, jamais perdeu. Não só a voz, mas o jeito, a postura. Tudo em Geneton era doce, gentil, amável. Mesmo quando zangado, porque alguma reportagem não saía como ele queria ou porque um projeto não era aprovado. Ele era firme, dizia o que pensava, mas era doce. Poucas vezes vi alguém tão fascinado pelo nosso ofício. Não tinha vaidade, tinha vontade de descobrir e revelar. Não media esforços para isso. Era capaz de pedir longas licenças não remuneradas, juntar com férias vencidas, para... trabalhar num livro. Fazia com prazer. E era impossível recusar.

Eu o conheci no Globo, onde trabalhou como correspondente em Londres. Quando me encontrava, reclamava, doce mas firmemente, dos cortes que, para ele, cioso do seu trabalho, amputavam as suas matérias. Reencontrei-o aqui. Ele já estava no Fantástico, sempre inquieto, sempre procurando coisas novas. Vou sentir falta de nossos encontros.

Homem do papel, se fez um homem de televisão. Sem dificuldade. Na TV, foi da 'cozinha' do jornalismo, mas logo enfrentou as câmeras, e, desafiando todos os estereótipos, transformou-se num entrevistador magnífico. Com perguntas certas, firmes, mas feitas sempre daquele jeito sem agressividade. Diante dos que perdiam a paciência, ele insistia, firme, mas doce.

Sabem, não foram poucas as vezes que recebi pedidos de pessoas querendo ser entrevistadas por ele. Porque sabiam que a entrevista poderia ser difícil, mas seria bem feita, e os entrevistados sonhavam com uma repercussão que revelasse as suas verdades. Eu sempre respondi que não, eu não sugeria entrevistados a ele. Geneton os escolhia.

A única exceção foi a última entrevista, aquela que ele não fez. Fernando Pedreira, esse grande jornalista, tinha acabado de lançar suas memórias. Fernando e Geneton se admiravam. Ninguém me pediu nada, mas quando soube do livro pensei logo no Geneton. Sugeri a ele, que aceitou na hora. Alguns dias se passaram até que a entrevista pudesse ser marcada. Tempo suficiente para Geneton ler o livro e adorar. Na véspera da entrevista, caiu doente. A entrevista parecia apenas adiada, mas ele nunca pôde fazê-la.

No fundo, não importa. Geneton fez tantas e tão boas entrevistas, fez tantas e tão boas reportagens, fez tantos e tão bons livros, que temos um material de excelência para rever. Vamos sentir é a falta dele, da doçura dele, da paixão dele. Geneton foi um grande repórter, um grande colega, um grande amigo. Será sempre uma referência, para nós, para nós, jornalistas, que vivemos de descobrir e revelar. Presto aqui essa homenagem a ele e me solidarizo à família dele. E vamos honrar o legado  que nos deixou."


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