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Em 1997, noveleiros pediram morte de personagem em campanha pioneira na web

Fotos Nelson di Rago/Memória Globo

Gabriela Duarte e Fábio Assunção em cena dos primeiros capítulos de Por Amor (1997) - Fotos Nelson di Rago/Memória Globo

Gabriela Duarte e Fábio Assunção em cena dos primeiros capítulos de Por Amor (1997)

THELL DE CASTRO - Publicado em 21/02/2016, às 06h18

No final de 1997, nos primórdios da internet comercial no Brasil, muito antes do surgimento das redes sociais e dos sites de petições, aconteceu a primeira campanha contra uma personagem de televisão. Os internautas, revoltados com o comportamento mimado de Eduarda, vivida por Gabriela Duarte em Por Amor, novela da Globo, criaram um site em que as pessoas podiam manifestar seu ódio e enviar mensagens para o autor Manoel Carlos pedindo a morte da personagem.

Por Amor estreou no dia 13 de outubro daquele ano. A novela perguntava ao público: O que você seria capaz de fazer por amor? Na trama, Helena (Regina Duarte) e Eduarda, mãe e filha, engravidavam ao mesmo tempo. No dia do parto, Eduarda perdeu o útero e seu filho morreu, enquanto o bebê de Helena nasceu saudável. Desesperada pelo momento trágico e pensando no fato de a filha não poder engravidar novamente, Helena pediu ao jovem médico César (Marcelo Serrado) para trocar as crianças, o que foi feito.

Desde o início da história, Eduarda não conquistou o público. Ciumenta, mimada e frágil, vivia pegando no pé do noivo, Marcelo (Fábio Assunção), e rejeitava o pai, Orestes (Paulo José), que era alcoólatra.

O público logo se cansou, e alguém teve a ideia de montar um site, na extinta plataforma Geocities. O site Eu Odeio a Eduarda mal entrou no ar e logo chamou a atenção da mídia. Em um mundo ainda sem buscadores precisos, o acesso ao material só se dava com esse tipo de repercussão.

No site, era possível enviar uma mensagem para Manoel Carlos pedindo a morte da personagem. Também existia um arcaico jogo onde se podia jogar tomates no rosto de Eduarda. Tudo muito rudimentar, mas inédito.

A atriz falou sobre o site à Folha de S.Paulo de 12 de abril de 1998, quando a novela se aproximava do fim. "Nunca me senti pessoalmente atingida. Se a página chamasse Eu Odeio a Gabriela Duarte, ficaria chateada, mas não foi o caso. Eu tenho de dizer que isso tudo criou uma polêmica muito saudável em torno do meu trabalho", disse.

Regina e Gabriela Duarte em cena de Por Amor (1997)

Ela também achava que se outra atriz tivesse feito a Eduarda, a personagem seria completamente diferente. "Talvez o público não a odiasse tanto naquele período. Mas sou eu que estou fazendo, e ninguém pode dizer que está errado. Ela é a minha Eduarda", ressaltou.

Em contraponto aos que odiavam a personagem, mas com menor repercussão, foi criado outro site, Eu Adoro a Eduarda, para manifestar apoio à moça.

Mudança de planos

Tamanha repercussão fez o autor Manoel Carlos mudar de ideia: na sinopse original, Eduarda deveria morrer para que pudesse ser solucionado o polêmico caso da troca dos bebês.

Mas, segundo o autor disse à mesma reportagem da Folha, dois fatores o fizeram escolher outro desfecho. "A virada de Eduarda, mostrando que ela não é apenas uma menina mimada e arrogante, e a expectativa do público, que prefere ver a personagem feliz, de preferência nos braços de Marcelo, no final da trama", explicou a reportagem.

"Sou um autor que ouve a voz das ruas, e as pessoas pedem para que Eduarda não morra", concluiu Manoel Carlos. E ela não morreu mesmo. Tendo um final feliz ao lado de Marcelo. 


 

THELL DE CASTRO é jornalista, editor do site TV História e autor do livro Dicionário da Televisão Brasileira (Editora InHouse). Siga no Twitter: @thelldecastro


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