Teledramaturgia

Aceita que dói menos: Walcyr Carrasco é o melhor autor de novelas do mercado

Rogério Fernandes/TV Globo

O autor Walcyr Carrasco no Altas Horas do último sábado: 4 sucessos em menos de 5 anos - Rogério Fernandes/TV Globo

O autor Walcyr Carrasco no Altas Horas do último sábado: 4 sucessos em menos de 5 anos

DANIEL CASTRO - Publicado em 01/02/2018, às 06h14

Nos últimos dias, o autor Walcyr Carrasco foi torpedeado por críticos profissionais e amadores. A sequência de O Outro Lado do Paraíso em que o personagem de Juca de Oliveira teve um ataque cardíaco ao tentar matar pela terceira vez a nora, Beth/Duda (Gloria Pires), foi considerada constrangedora por Cristina Padiglione e exemplar do que a novela tem de pior por Maurício Stycer, para quem comparar a produção da Globo com dramalhões da Televisa pode ser ofensivo aos mexicanos.

Não ouso discordar dos colegas sobre o capítulo que abriu a semana (nem de tantos outros). Mas decidi vir a público dizer que considero Walcyr Carrasco o melhor autor de telenovelas da atualidade por uma série de fatores mercadológicos, que listarei a seguir.

Antes de mais nada, televisão é uma indústria, e a produção de novelas não difere muito da fabricação de linguiça, de carro ou de papel higiênico. É uma linha de produção. Não há tempo para burilar o roteiro, achar a interpretação perfeita, a direção inequívoca. Os profissionais envolvidos têm de cumprir os prazos ou, do contrário, podem comprometer toda uma cadeia de produção e, pior, atrasar a entrega do material.

Nessa lógica, Carrasco é no momento quem sabe fazer a melhor linguiça, com todas as delícias e malefícios do alimento, o melhor carro (com todos os defeitos que ele possa apresentar depois que findar a garantia) e o melhor papel higiênico.

Se Carrasco não fosse o melhor escritor de folhetins, O Outro Lado do Paraíso não seria a novela das nove mais vista desde Avenida Brasil, de 2012, com 35,1 pontos na Grande São Paulo na média do 1º até o 85º capítulo. Não estaria atualmente com média semanal acima dos 40 pontos. Não teria alcançado 44 em um único capítulo, marca que Império (2014) só registrou na última semana.

O texto de Carrasco, é verdade, peca pelo excesso de didatismo, pela falta de sutileza, pelo abuso de clichês, por tramas pouco elaboradas e mal amarradas, por soluções mágicas e inverossímeis.

Mas novela é isso. Novela é um eterno clichê que se renova a cada oito meses. É repetitiva, rasa, escapista, feita para entreter gratuitamente por volta de 50 milhões de pessoas de segunda a sábado. Quer uma obra-prima? Então arrisque uma sessão num cinema de arte, reveja um filme de Stanley Kubrick (1928-1999), que refazia uma mesma cena até 70 vezes.

Do ponto de vista da indústria de TV, Walcyr Carrasco é o autor de novelas perfeito. Escreve quase uma obra por ano, é o mais profícuo dos novelistas. As três últimas (Amor À Vida, Verdades Secretas e Eta Mundo Bom!) fizeram enorme sucesso.

Carrasco tem uma capacidade rara de promover reviravoltas e salvar produções que se mostram condenadas ao fracasso, como parecia ser o caso de O Outro Lado do Paraíso.

No final de novembro, a novela estava patinando, dando menos Ibope do que a das sete, Pega Pega (para a qual a crítica especializada também torcia o nariz, e os telespectadores adoravam).

Carrasco, então, jogou alguns capítulos no lixo, encurtou o sofrimento da mocinha Clara (Bianca Bin) e antecipou a segunda fase. De uma semana para a outra, a média da novela saltou de 27,5 pontos para 36,1. Do inferno ao paraíso.

Carrasco faz sucesso porque conhece o gênero a fundo e tem o gosto igual ao do público. Quando vê que pode naufragar, não tem pudor em rasgar a sinopse e escrever outra novela, mesmo que ela se transforme em uma mera sucessão de truques para dar audiência, uma novela de outras novelas.

Afinal, o que importa mesmo na televisão aberta e gratuita é a aceitação da grande massa de telespectadores. Em uma indústria alimentada pela publicidade, nenhum indicador de qualidade pode ser melhor do que os números dos institutos de medição de audiência.


Clique nos links abaixo para ler os textos de Cristina Padiglione e Maurício Stycer:

Esta imagem expressa bem o que 'O Outro Lado do Paraíso' tem de pior

Constrangedora morte de vilão rende outro recorde a 'O Outro Lado do Paraíso'

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