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'Globo não sabe fazer novela com favela', afirma especialista

Reprodução/TV Globo

A atriz Susana Vieira em cena na favela cenográfica de A Regra do Jogo, o Morro da Macaca - Reprodução/TV Globo

A atriz Susana Vieira em cena na favela cenográfica de A Regra do Jogo, o Morro da Macaca

JANAÍNA NUNES

Publicado em 16/11/2015 - 5h21

Desde sua estreia, A Regra do Jogo tem patinado na audiência. Atualmente está com uma média de 25 pontos, mesma marca de sua antecessora, Babilônia. Além do ibope baixo para o padrão da Globo, as duas novelas das nove têm em comum a ambientação em favelas. A primeira se passava no morro da Babilônia, que existe de verdade. A atual tem parte de suas ações no Morro da Macaca, tão fictício que visto de longe só tem barracos coloridos. A fórmula exaltada até pouco tempo não tem dado certo. "A Globo não sabe fazer novela com favela. Fica tudo glamourizado demais. Falta realidade", afirma Claudino Mayer, especialista em teledramaturgia pela Universidade de São Paulo (USP).

Para Mayer, um folhetim só dá certo quando dialoga com a sociedade. "Não é só colocar a favela. Os personagens precisam ser construídos de uma forma que passem uma verdade para o telespectador. Precisam extrapolar um pouco a ficção para que haja representatividade. Os únicos personagens de A Regra do Jogo que estão dentro dessa ideia são as duas meninas, Alisson [Letícia Lima] e Ninfa [Roberta Rodrigues]. Nem Adisabeba [Susana Vieira] nem Merlô [Juliano Cazarré] estão convencendo", diz.

Em Babilônia, mesmo problema. "Os autores falaram da favela de uma forma tímida. A novela tinha o nome do morro da trama, e o que se viu dele? Muito pouco. Locação, fotografia, cenário e figurino contam, mas não resolvem se o autor, os atores e a direção não incorporarem, não comprarem a história. Em Vidas Opostas [Record], por exemplo, funcionou. Mesmo sem conhecer aquela realidade o público comprou porque  a trama tinha verdade", afirma Mayer. 

REprodução/tv globo

O Morro da Macada de A Regra do Jogo visto de longe: barracos coloridos só na ficção

A violência de Vidas Opostas

Exibida pela Record em 2006, Vidas Opostas teve 13 pontos de média, um sucesso para os padrões da emissora. A trama de Marcilio Moraes, diferentemente das tramas globais, gravadas em favelas cenográficas, teve boa parte das cenas captadas em uma comunidade real, a Tavares Bastos. Na ficção, a favela era chamada de Morro do Torto.

Na história, muitos bandidos e cenas de tiroteio. A violência não afastou o público. Pelo contrário, bandidos como Jacson (Heitor Martinez), Inhame (Rafael Queiroga) e Torres (Nill Marcondes) caíram na graça do telespectador, assim como a mocinha Joana (Maytê Piragibe), moradora do morro, e seu amado Miguel (Léo Rosa), que era do asfalto.

"O principal fator que determina o sucesso ou o fracasso de uma novela é a dramaturgia, ou seja, a maneira com que a história é armada, a natureza dos conflitos entre os personagens, a ação daí resultante, o potencial de identificação do público com os personagens etc. O local onde a trama se passa é um aspecto secundário, porém ele pode se tornar decisivo para o sucesso ou fracasso da obra", argumenta Marcilio Moraes.

DIVULGAÇÃO/TV RECORD

Gravação de Vidas Opostas, da Record, na comunidade de Tavares Bastos, no Rio

Para o escritor, as favelas sempre foram tratadas de maneira marginal e folclórica na TV. "A primeira novela que elevou a favela e os favelados à função de protagonistas foi Vidas Opostas.  Mais da metade dos personagens se constituía de moradores do morro. E não era uma comunidade maquiada. Estavam lá a violência dos bandidos, a corrupção policial, o preconceito que os moradores sofrem etc. Nada de glamour", lembra o autor.

Moraes acredita que sua novela nunca seria exibida na concorrente. "Na Globo do meu tempo, fiquei lá 18 anos, uma novela com metade dos personagens morando na favela jamais seria aprovada. Creio mesmo que ainda hoje o padrão Globo de qualidade não permitiria isso, mas  o tabu foi quebrado e tanto a direção do canal quanto alguns colegas escritores se deram conta do enorme potencial da favela como ambiente ficcional", afirma.

Vidas Opostas não foi pioneira no assunto. Na Manchete, José Louzeiro escreveu duas novelas, Corpo Santo (1987) e Guerra sem Fim (1993). Ambas abordavam os morros cariocas de uma forma bem real.

A Globo só teve uma favela em novela em 2007, depois do barulho causado por Vidas Opostas. Duas Caras, de Aguinaldo Silva, tinha a comunidade da Portelinha (montada no Projac, é claro), liderada por Juvenal Antena (Antonio Fagundes). A trama não foi um fracasso, porém também ficou longe de ser um sucesso.

Já Salve Jorge (2013) só vingou no final. A trama de Glória Perez se propôs a abordar a comunidade do Morro do Alemão, que havia acabado der ser pacificada. Ficou só na proposta. A única personagem que "virou" do núcleo foi a divertida, desafiadora e invejosa Maria Vanúbia (também vivida pela atriz Roberta Rodrigues).

Paraisópolis idealizada

Mais recentemente, a Globo colocou uma favela na novela das sete, I Love Paraisópolis. A trama teve a melhor audiência dos últimos dois anos (23,5 pontos), mas não foi pelo retrato de Paraisópolis, uma das maiores comunidades paulistanas. A favela só aparecia em stock shots (tomadas gerais, que marcam a passagem de uma cena para outra). A violência do cotidiano do local passou longe. Era uma Paraisópolis idealizada. 

Re´produção/tv globo

Protagonistas da recém-encerrada I Love Paraisópolis com favela cenográfica ao fundo

"Virou certo modismo falar de favela, mas ninguém gosta de ver pobreza o tempo todo", afirma Claudino Mayer. O autor Ricardo Linhares, que escreveu Babilônia ao lado de Gilberto Braga e João Ximenes Braga, discorda. "Não vejo como modismo. Acho isso preconceituoso. É modismo ter classe média em novela? É natural que numa trama urbana que se passa numa grande cidade haja personagens que morem em favelas, e também em coberturas, como na vida real", pondera.

Para Linhares, os personagens de Babilônia foram mostrados sem caricatura nem folclore. "A abordagem não foi complicada. A história foi bolada a partir dos três núcleos, das três mulheres. Regina na favela, Inês na classe média e Beatriz, que era rica. Foi importante mostrar três estilos bem diferentes".

O autor afirma que pode repetir a experiência. "Sempre que a história pedir que personagens morem em favela. O que determina o local de moradia dos personagens é a trama que o autor que contar", finaliza.

Claudino Mayer acredita que a Globo errou ao colocar dois folhetins com a mesma temática na sequência. "Agora poderia estar no ar Velho Chico, por exemplo, para quebrar essa tendência, pois a emissora ainda tinha no ar I Love Paraisópolis, outra trama que glamourizou demais uma comunidade com personagens inverossímeis", completa.


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