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MEMÓRIA DA TV

Em 1973, Globo teve que sacrificar vilão popular para salvar novela do fracasso

DIVULGAÇÃO/TV GLOBO

O ator Ziembinski em cena como o vilão de Cavalo de Aço (1973), sério, em foto preta e branca

O ator Ziembinski (1908-1978), que interpretava o vilão de Cavalo de Aço (1973); personagem foi cortado da novela

THELL DE CASTRO

Publicado em 24/1/2021 - 6h50

Há exatamente 48 anos, em 24 de janeiro de 1973, a Globo resolveu dar férias para Janete Clair (1925-1983), que vinha de várias tramas seguidas, e alçou Walther Negrão ao seu principal horário de novelas. Assim, estreava Cavalo de Aço, que fez sucesso apesar de muitos problemas. O autor foi obrigado a tomar uma difícil decisão para salvar a história.

Negrão vinha de O Primeiro Amor (1972), que ficou marcada pela morte do protagonista, Sérgio Cardoso (1925-1972). Por outro lado, Janete emendava uma trama na outra e enfileirava sucessos, como Véu de Noiva (1969), Irmãos Coragem (1970) e Selva de Pedra (1972), mas precisava descansar um pouco.

Estrelada por Tarcísio Meira e Glória Menezes, Cavalo de Aço mostrava a história de Rodrigo, que voltava ao município de Vila da Prata, no interior do Paraná, depois de muitos anos, para vingar o extermínio de sua família, ocorrido quando ele era criança. O responsável pelo massacre era o latifundiário Max (Ziembinski), vilão da produção.

No entanto, a novela não pegou logo de cara, principalmente por causa da ação da Censura do Regime Militar. "Cavalo de Aço foi uma novela problemática e de muitas fases. Começou discando reforma agrária no seu subtexto. A Censura proibiu o assunto", explicou o especialista Ismael Fernandes (1945-1997) no livro Memória da Telenovela Brasileira.

"Depois, foi transformada simplesmente em uma história de amor. Isso até o texto começar a desenvolver uma campanha antitóxicos com o aval do governo, que, por fim, achou melhor proibir a veiculação do assunto – mesmo que ele enviasse a mensagem positiva de combate às drogas", completou.

Autor recebeu ultimato

Então supervisor de direção da novela, Daniel Filho deu um ultimato para Negrão. "A novela ia tão mal que, quando estava no capítulo 90, cheguei para o Negrão e disse que a novela ia acabar no capítulo 100. Então o que ele fez foi liquidar todas as histórias paralelas até chegar à história central", contou, em sua biografia, Antes que me Esqueçam.

O autor acabou tendo de sacrificar o vilão da trama como última cartada para manter o horário, mesmo deixando o ator polonês insatisfeito.

"Ele ficou bravo porque estava fazendo um sucesso danado, meio Dom Corleone, no estilo Marlon Brando (1924-2004) em O Poderoso Chefão (1972). Pedimos desculpas a ele e matamos o Velho Max. E a novela explodiu", explicou Negrão no livro Autores, Histórias da Teledramaturgia.

Para se ter uma ideia da reviravolta que aconteceu no Ibope, ficou decidido que a trama teria mais 50 capítulos a partir do assassinato do fazendeiro, mas isso logo mudou.

"No fim, Cavalo de Aço teve 170 capítulos, ficando oito meses no ar. Mas Negrão teve que continuar a novela com o 'quem matou quem'. Isso fez com que a novela emplacasse a partir do capítulo 100", pontuou Daniel Filho.

Um caso curioso envolvendo a novela aconteceu com Carlos Vereza: ele foi preso pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) durante as gravações e ficou vários dias detido. Num dos interrogatórios, os militares queriam saber simplesmente quem havia matado Max. O ator se recusou a responder e foi solto oito dias depois, retornando normalmente aos estúdios.

A novela é lembrada até hoje pela moto que Rodrigo usava. Muitos clubes de motoqueiros, inclusive, utilizam como nome, justamente, Cavalo de Aço, por influência da trama – o mote central foi utilizado por Negrão para criar Fera Radical, em 1988.

Cavalo de Aço foi exibida até 17 de agosto de 1973 no Rio de Janeiro (RJ) --em São Paulo (SP), ainda sem programação 100% em rede, a Globo estreou a produção em 24 de janeiro e terminou em 21 de agosto daquele ano.

Em seu lugar, voltou Janete Clair com O Semideus (1973), novamente com Tarcísio e Glória juntos, prática comum na época.


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