Representatividade

Globo 'clona' negros para disfarçar elenco branco em vinheta de fim de ano

Reprodução/TV Globo

Jéssica Ellen abre o coro de artistas cantando Um Novo Tempo na vinheta de fim de ano da Globo - Reprodução/TV Globo

Jéssica Ellen abre o coro de artistas cantando Um Novo Tempo na vinheta de fim de ano da Globo

MÁRCIA PEREIRA - Publicado em 10/12/2018, às 05h50

Após enfrentar a polêmica da falta de negros em Segundo Sol, a Globo usou truques de edição para dar maior destaque aos artistas afrodescendentes em sua vinheta de fim de ano. Em pelo menos uma das versões compactas da vinheta, um mesmo ator negro aparece até três vezes, o que não ocorre com brancos. Fica parecendo que são maioria.

No clipe completo, que tem dois minutos e meio de duração, Dan Ferreira, Jéssica Ellen, Sheron Menezzes, David Junior e Jonathan Azevedo estão em destaque, presentes no começo e no encerramento. Atores brancos e muito mais estrelados não tiveram o mesmo tratamento, como Fernanda Montenegro e Lima Duarte.

A emissora lançou o clipe completo no Fantástico no último dia 25. Versões bem mais curtas, que podem variar de 30 segundos a um minuto, entram nos intervalos da programação.

Em uma dessas versões compactas, quase não há brancos, e negros que mal aparecem no clipe completo são os condutores da trilha sonora. São eles: Glória Maria, Toni Tornado, Maju Coutinho, Milton Gonçalves, Marcello Melo Jr., Aílton Graça e Juliana Alves. 

Taís Araújo e Lázaro Ramos, dois artistas negros que estiveram onipresentes na programação de 2018, não aparecem no clipe completo nem foram encontrados nas versões compactas da vinheta já exibidasEles brilharam no primeiro semestre à frente da última temporada de Mister Brau.

Fernanda Torres, Lima Duarte e Fernanda Montenegro aparecem pouco no clipe (Reprodução/Instagram)

Nos últimos meses do ano, Ramos comandou Os Melhores Anos das Nossas Vidas, enquanto sua mulher estreou como apresentadora no reality Popstar.

Procurada, a Globo diz que os questionamentos sobre a versão compacta valorizando negros não fazem sentido. 

Afirma que a falta de negros no elenco de Segundo Sol foi superada e que a trama de João Emanuel Carneiro contou com a participação, ao todo, de 120 afrodescendentes.

A emissora informa que conta com cerca de 50 negros entre atores e apresentadores, fora os colaboradores que atuam por trás das câmeras. Porém, não informa quantos brancos tem no elenco e no quadro técnico.

Mais de 300 pessoas participaram da vinheta deste fim de ano, entre atores, jornalistas e apresentadores. Eles representam personagens que saem de uma caixa de música, além dos responsáveis pela engrenagem e os convidados do espetáculo lúdico. Sergio Valente, diretor de Comunicação, e Waldemar França, diretor de arte da Globo São Paulo, assinam a criação.

As gravações foram feitas em setembro, quando Segundo Sol ainda estava no ar e a discussão sobre a falta de negros na trama ainda estava em pauta. 

reprodução/tv globo

Regina Casé e Dan Ferreira aparecem como "os primeiros convidados" do espetáculo  

Leia a seguir o posicionamento da Comunicação da Globo na íntegra:

"Antes de mais nada, é preciso esclarecer que a novela Segundo Sol chegou ao seu final com mais de 120 participações de atores negros. Portanto, a questão a que se refere foi superada ao longo de sua exibição e não reflete a realidade da empresa.

É com o olhar cada vez mais aberto para a pluralidade que nossas equipes de seleção em geral, e especialmente as de seleção de talentos, trabalham, tanto no Entretenimento quanto no Jornalismo e no Esporte. Para você ter uma ideia, hoje temos no ar cerca de 50 negros, entre atores e apresentadores, nos programas de dramaturgia e variedades.

Não estão nessa conta as mais de 120 participações que citei acima, em Segundo Sol. Por trás das câmeras são mais 21 criadores, entre autores, diretores, assistentes de direção e pesquisadores. E é dessa maneira que buscamos enriquecer as nossas obras com olhares e contribuições críticas variadas.

Não só de negros, mas de profissionais de diferentes regiões do país, com histórias de vida, gêneros, sotaques, classes sociais e experiências diversas. 

Dito isso, não faz sentido a sua associação. Nossa mensagem de fim de ano é um momento de celebração e de homenagem ao público que nos assiste todos os dias. Como em todos os anos, até o final de dezembro estão sendo veiculadas diferentes versões da campanha. Não há distinção ou valorização de um talento em detrimento do outro.

Por uma questão de limitação da duração do filme, trabalhamos com diferentes edições para que todos tenham a oportunidade de aparecer em pelo menos uma das versões".

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