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MATHEUS NACHTERGAELE

Tragédia familiar transformou vida de ator da Globo: 'Me tornei o artista que sou'

REPRODUÇÃO/GLOBOPLAY

Com o cabelo quase raspado, Matheus Nachtergaele está com expressão séria em cena da série Todas as Mulheres do Mundo

Matheus Nachtergaele na série Todas as Mulheres do Mundo, do Globoplay; tragédia mudou vida do ator

REDAÇÃO

Publicado em 8/7/2020 - 11h05

Aos 16 anos, Matheus Nachtergaele recebeu uma informação que mudou sua vida. O ator soube pelo pai que a mãe se suicidou quando ele tinha apenas três meses. No mesmo dia, ele recebeu poemas escritos pela poetisa Maria Cecília Nachtergaele e transformou a tragédia familiar em arte: "Pela primeira vez ouvi as palavras da minha mãe e acho que naquele momento eu me tornei o artista que eu sou".

O intérprete de 52 anos começou a amadurecer a ideia de criar um espetáculo em homenagem à genitora usando os textos escritos por ela. A obra também serviu como uma maneira de lidar com a perda.

"Eu tinha 16 anos quando o meu pai me levou pra casa de praia em Maranduba, litoral paulista, para me contar em um encontro inusitado, só eu e ele, o que tinha acontecido. Ele tomou um grande porre, tomou coragem e contou com detalhes a noite do suicídio da mamãe", revelou Matheus em entrevista ao Gshow.

"Eu fiquei muito espantado, muito triste, muito chocado e muito aliviado por saber, finalmente, o que tinha acontecido com ela. Nessa mesma noite ele me entregou a pasta azul com os poemas. Eu fui pra beira da praia, passei a noite ali, amanheci ali, lendo os poemas, procurando pela primeira vez ouvir as palavras da minha mãe, e acho que naquele momento eu me tornei o artista que eu sou", confidenciou.

O paulista afirmou que precisou de um bom tempo para conseguir transformar o sofrimento em algo bom. "Eu convivi com isso tudo de uma maneira opaca, obscura, tristonha... Obviamente não se conta para uma criança a verdade sobre o suicídio, e eu fui criado, então, por meu pai e minha madrasta, a Carmem, meus três irmãos, filhos dela com papai, como se nada tivesse acontecido. A partir dos 16 anos, quando eu soube da verdade, tudo mudou", contou.

"Eu entendi que eu era fruto de uma grande tragédia familiar. Compreendi melhor o desespero, a bebedeira do meu pai, e a constante sensação de que a vida me escondia alguma coisa", refletiu ele.

Dor virou peça

Anos depois, Nachtergaele criou o espetáculo Processo de Conscerto do Desejo, onde recita os poemas da poetisa. Porém, a decisão de expor sua intimidade na peça não foi fácil.

"Eu demorei muitos anos para montar no palco os poemas da minha mãe. Há muito tempo eu pensava em como fazer isso e cheguei até a mostrar os 30 poemas que ela deixou pra algumas atrizes pensando em dirigi-las. Há cinco anos, o Festival de Teatro de Ouro Preto e Mariana me convidou pra fazer alguma coisa que eu tivesse na manga. Eu não tinha nada... Respondi que podia ler os poemas da minha mãe. Eles toparam, e a aventura começou", contou ele.

O espetáculo acabou servindo como uma forma de lidar e curar sua dor. "Demorei muito, porque o suicídio é um tabu. Eu passei uma boa parte da minha vida enlutado pela perda precoce da mamãe e, principalmente, perturbado e modificado desde que eu soube que ela se matou", disse. Quando Matheus estreou a peça, há cinco anos, ele já tinha feito anos de análise para entender a perda.

Em cena, o artista se transforma em sua mãe para recitar os poemas. "Sou ao mesmo tempo o filho e o arauto da minha mãe. Utilizo meu material de ator, meu corpo e minha criatividade, minha coragem, para dar voz para aquela que se calou. E finalmente realizo um pequeno milagre que, talvez, só o teatro possa realizar. Deixar minha mãe viva, não só através do meu corpo, pois eu sou sua descendência, mas tendo sua obra celebrada", relatou.

"É uma peça para me acompanhar pela vida toda. Faz parte do meu processo como ser humano, da superação do meu luto, e é por isso que o título é tão psicanalítico, Processo de Conscerto do Desejo. O desejo é aquilo que nos move, tudo a que nos leva a querer viver, minha mãe decidiu morrer, por isso eu faço um 'conscerto', um conserto da minha relação com esse desejo dela, um trabalho em alegrar o que parecia triste, ou pelo menos em tirar do que parecia triste sua melhor beleza."

"Consigo diante da plateia fazer minha queixa de forma poética e purgar junto com ela nossos lutos, portanto, vou consertando nesse processo algumas coisas, num concerto de música. Conscerto [por isso o SC na palavra]", explicou ele.

Recriação na pandemia

Durante este período de isolamento social, Matheus foi convidado pelo Sesc para recriar a peça em formato de live. Após também perder o pai, Jean Pierre Nachtergaele, no ano passado, o ator modificou o espetáculo para homenageá-lo.

De Processo de Conscerto do Desejo, a apresentação passou a se chamar Desconscerto. "Nomeei assim porque era preciso desmontar toda a estrutura que eu montei nesses anos todos, inverter a ordem dos poemas, para uma coisa que se adaptasse a uma live, que aconteceria dentro da minha casa sem a presença de ninguém, por questões de segurança", explicou.

O artista precisou se adaptar à nova realidade para montar o espetáculo. "Sem meus músicos, sem o apoio das canções e, principalmente, sem a presença ao vivo da plateia. Como tinha um desmonte disso tudo chamei de Desconscerto e mantive o sc, até ironicamente brincando com o fato de, a princípio, eu ficar desconcertado com o convite, em expor um material tão íntimo, de maneira menos teatral ou alegórica, e mais confessional como necessariamente aconteceria", afirmou.

"A pandemia faz com que essas lives se tornem teatro, uma vez que nós estamos proibidos de nos encontrar em grupo. Essa permissão fez da live uma coisa muito emocionante, e a princípio estava muito preocupado tecnicamente com o tom, apesar de eu ter ensaiado muito. Não queria fazer de forma tão teatral ou tão exacerbada como a gente faz nos palcos", conta o ator.

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