Análise | Carlos Amorim

Autor de Amor à Vida atira para todos os lados e erra na trama

RENATO ROCHA MIRANDA/GLOBO
Carolina Kasting, Sidney Sampaio e José Wilker em cena de Amor à Vida: evangélicos de gola apertada
Ex-diretor do Fantástico, criador de programas e séries de TV, Carlos Amorim escreve sobre Amor à Vida. Para ele, a novela de Walcyr Carrasco tenta abordar todos os problemas da humanidade, do gay enrustido ao conflito entre palestinos e israelenses, mas falha naquilo mais se espera dela: falta uma trama bem construída
Por CARLOS AMORIM, especial para o NTV, em 02/12/2013 · Atualizado às 18h36

Walcyr Carrasco, notável autor de telenovelas e com algumas incursões na literatura, deve ter batido com a cabeça em algum lugar. Ocupa nesse momento o espaço mais nobre (e mais caro) da televisão brasileira: a novela das nove na TV Globo, esse fenômeno capaz de parar o país quando a trama é boa. Mas o trabalho atual do escritor, curiosamente chamado de Amor à Vida, se transformou numa confusão que será lembrada pelos tempos afora.

Carrasco, talvez pela força do sobrenome, resolveu bater em tudo e em todos _e ao mesmo tempo. Fez da novela um saco de gatos, onde todos são, no mínimo, rematados canalhas. A única personagem que prestava tinha câncer e morreu. E morreu no altar, vestida de noiva, para voltar como uma assombração.

E o protagonista, rapaz bonzinho do subúrbio, que era um modesto corretor de imóveis, acaba tentado pela mulher do sogro e ainda vira empresário. E essa mulher do sogro, de uma beleza extraordinária, foi alçada à condição de vilã-mor da narrativa de Walcyr. Apesar da aparência impressionante, a personagem fica devendo na interpretação, até porque não tem a menor sutileza. É má mesmo, basta olhar para ela. E isso não é uma opção da atriz: está escrito.

O autor decidiu erguer aos olhos do espectador, de uma só vez, todos os problemas do mundo. Temos filhos que não sabem quem são os pais (coisa frequente no gênero). Temos a suposta falta de vergonha habitual nas elites, repetindo a máxima de Honoré de Balzac (“Por trás de toda fortuna há sempre um crime”, escrita em 1901). E a questão da adoção de crianças por casal homoafetivo. E advogados ardilosos. E a mulher mais velha se relacionando com o jovem (isso é tão velho!). E amor e sexo na terceira idade. E o gay casado que é empurrado para fora do armário pela própria mulher, garota de programa aposentada, cujo filho, aliás, não é dele, mas do próprio pai. E a garota boazinha do subúrbio se apaixona pela primeira vez, justamente por um homem mais velho, que (acreditem!) foi amante da própria mãe. E a garota vira evangélica, concordando com a tendência ecumênica da TV Globo. Mas os evangélicos do Walcyr usam camisas abotoadas até o colarinho e parecem imbecis. E até o conflito entre palestinos e israelenses está presente na novela.

 Nem o genial Nelson Rodrigues, nas suas espetaculares crônicas (“A Vida Como Ela É...", por exemplo), jamais ousou colocar tantos dilemas numa única história. Por quê? Porque o público procura algumas identificações básicas com os personagens. Talvez duas ou três dessas identificações. Mas não dezenas delas.

Essa confusão talvez responda pelo o que está acontecendo com a audiência. A novela tem tido modesto desempenho. E o pico da audiência ocorreu nos capítulos em que o gay-malvado-empurrado-para-fora-do-armário foi espancado pela própria irmã. Essa irmã (pasmem!) nem irmã é. Santo Deus! Não há nenhuma esperança nesse Amor à Vida? E por que não deram um título mais apropriado, como “Foda-se a Vida”?

Certa vez, durante a minha longa passagem pela TV Globo, quando era diretor-geral do Fantástico, ouvi do Boni uma frase que nunca mais saiu da minha cabeça: “O mundo é cão, mas o cachorro é um poodle”. Boni insistia: apesar dos dramas e tragédias, a audiência anseia por algum tipo de esperança, certa beleza, um tom poético. Para retratar desgraças, não precisa gastar tanto dinheiro com a produção. Basta sair às ruas com uma câmera e focar para qualquer lado. Só que isso não basta. Se bastasse, as emissoras colocariam uma câmera fixa em algum lugar e ficariam transmitindo imagens ao vivo de qualquer coisa. Mas isso não resolve, felizmente.

Na verdade, como mero espectador, um cara comum que acompanha a novela, o que eu gostaria de ver? Uma trama bem construída. Quero dizer: um mistério, uma história complicada, cheia de temperos humanos e alguma diversão, não me importando se a lógica da televisão diz que é preciso ter núcleos paralelos na história, inclusive como forma de faturar algo comercial. Isso não me interessa _e, certamente, não compromete a audiência. Mas, cadê a trama de Amor à Vida? Se formos procurar, no emaranhado de personagens, não poderemos jamais fazer a pergunta fatídica: “Quem matou Odete Roitman?”


CARLOS AMORIM é jornalista. Trabalhou na Globo, SBT, Manchete, SBT e Record. Ocupou cargos de chefias em quase todos os telejornais da Globo. Foi diretor-geral do Fantástico. Implantou o Domingo Espetacular (Record) e escreveu, produziu e dirigiu 56 teledocumentários. Ganhou o prêmio Jabuti pelo livro-reportagem Comando Vermelho - A História Secreta do Crime Organizado. É autor de CV_PCC - A Irmandade do Crime e O Assalto ao Poder. Criou a série 9mm: São Paulo, da Fox. Atualmente, se dedica a projetos de cinema.


► Curta o Notícias da TV no Facebook e fique por dentro de tudo na televisão

Compartilhe:

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente Para utilizá-lo, você deve estar logado no Facebook. Não serão aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos etc. serão excluídos pelos moderadores do site. Também não serão aceitos comentários com links.

Sem cachecol

Mais uma baixa na Record: Fábio Arruda, que ficou conhecido ao participar da primeira edição de A Fazenda, em 2009, não é mais funcionário da emissora, onde atuava como consultor de visagismo (figurino e maquiagem) e repórter do Hoje em Dia. O contrato de Arruda venceu na semana passada e, devido à política de contenção de gastos da Record, não foi renovado.