Entrevista | Daniel Ortiz

Estreante de sucesso, autor de Alto Astral temia decepcionar o chefe

Fotos: Cristiane Camelo/Notícias da TV

O autor Daniel Ortiz com o laptop em que escreveu todos os capítulos de Alto Astral - Fotos: Cristiane Camelo/Notícias da TV

O autor Daniel Ortiz com o laptop em que escreveu todos os capítulos de Alto Astral

DANIEL CASTRO - Publicado em 04/05/2015, às 05h37

Autor da bem-sucedida Alto Astral, Daniel Ortiz, 43 anos, já tinha duas novelas no cúrriculo, uma mexicana e uma árabe, quando entrou na Globo, em 2010. Mesmo assim, teve que trilhar o caminho de todos os novos dramaturgos da emissora: foi colaborador de Silvio de Abreu em duas novelas (Passione e Guerra dos Sexos) antes de ter uma oportunidade como autor solo.

Alto Astral, que termina na próxima sexta (8), foi uma encomenda de Abreu, a partir de uma sinopse deixada por Andréa Maltarolli, autora de Beleza Pura (2008), morta precocemente em 2009. A novela recuperou o ibope da faixa das 19h30. Na reta final, chegou a ter mais audiência do que a trama das 21h.

Mais do que o risco de fracassar e de ter tramas rejeitadas, como ocorreu com Babilônia, o que mais apavorava Ortiz era a ideia de decepcionar Abreu, hoje diretor de Dramaturgia diária da Globo, a quem todos os autores e diretores de novelas se submetem. Abreu atuou como mentor e supervisor de Ortiz. Revisou os primeiros 30 capítulos e acompanhou o desenvolvimento da trama até o centésimo episódio. "Meu único medo nessa novela não foi Ibope nem audiência, foi decepcionar o Silvio de Abreu. Eu tive pais maravilhosos, mas o Silvio foi um pai para mim", diz Ortiz.

Na entrevista que segue, Ortiz fala de como se preparou para enfrentar eventuais rejeições a Alto Astral, da decepção com a baixa audiência no final do ano e das diferenças entre as novelas brasileira, mexicana e árabe.

Daniel Ortiz posa em frente a painel com os núcleos de personagens de Alto Astral, no flat em que escreveu a novela, no 20º andar de um prédio na Consolação, em São Paulo

Notícias da TV - Como é, enfim, fazer parte do clube dos autores da Globo?

Daniel Ortiz - É engraçado, até agora não caiu muito a ficha. Porque fico trancado no meu flat trabalhando.  Eu só estou começando a sentir a empolgação do público agora, no final, porque eu saio um pouquinho mais... Estou muito satisfeito, porque a gente entregou o que a emissora queria, na meta que queriam, numa época difícil. A novela começou em novembro, pegamos Natal, Ano Novo. Ou seja duas semanas ruins. Tínhamos Carnaval. Mas a gente conseguiu se manter nos trilhos. A minha sensação é de dever cumprido.

Você não foi pra rua, não teve esse contato com o público durante a novela?

Eu tinha [contato] com os meus amigos, mas é tão corrido, tem sempre alguma coisa para fazer. Escrever é um trabalho muito recluso, solitário.

Alto Astral superou uma época difícil, recuperou a audiência do horário das sete. Chegou a dar mais audiência do que Babilônia. Mas, lá atrás, você não teve medo de fracassar?

Meu único medo nessa novela não foi Ibope nem audiência, foi decepcionar o Silvio de Abreu. Eu tive pais maravilhosos, mas o Silvio foi um pai para mim. Desde que que cheguei no Brasil, para fazer Passione. Trabalhávamos [em Passione] quatro dias por semana no escritório, fazíamos juntos as escaletas [resumo de cada cena]. Ele me ensinava, me explicava, me corrigia e falava: “Daniel, aqui tá ótimo”. Cada dia ele me dava uma avaliação da escaleta anterior que tinha feito.

Ele tem muita paciência. Por isso ele lançou João Emanuel Carneiro, Elizabeth Jhin, Maria Adelaide [Amaral], Tide [Alcides Nogueira]. Eu lembro que quando a gente acabou Passione, na festa de encerramento, ele falou: “Vou te dar uma novela pra você fazer”. Aí ele falou assim: “Não vai me decepcionar, hein?”. Ele falou de brincadeira, mas eu fiquei assim... Não posso decepcionar o Silvio. A minha meta nessa novela era não decepcionar o Silvio (risos).

E se tivesse acontecido com Alto Astral o que aconteceu com Babilônia, se o público tivesse rejeitado uma trama fundamental? Se o público não aceitasse os espíritos, por exemplo?

Eu tinha consciência de que isso ia acontecer, de o público não gostar da maneira de como foi retratado o espiritismo, em forma de comédia. Mas já tinha duas histórias principais fortes ali: a história do Caíque [Sérgio Guizé] com o espiritismo e a história da Laura [Nathalia Dill] com as mães.

Então, eu resolvi começar com a história do Caíque e, se tivéssemos uma rejeição, eu levantaria a história da Laura logo em seguida. Mas foi ao contrário: as pessoas adoraram e queriam mais e mais fantasmas. E eu fui soltando os fantasmas pouco a pouco até para sentir o público. Tive de adiantar um pouquinho as histórias dos fantasmas. O público queria que o Caíque aceitasse a mediunidade. O que eu achei que seria um problema, acabou sendo o contrário.

Essa novela é engraçada. No work discussion [pesquisa com grupos de telespectadores], ela não teve rejeição de personagens, e isso facilitou muito a nossa vida. Mas eu tinha ferramentas guardadas. Tinha a entrada da Monica Iozzi, que ia ser um pouquinho mais para a frente, da Totia [Meirelles], da Maitê [Proença]. As cartas estavam nas mangas.

Teve alguém do elenco que te surpreendeu?

Eu não conhecia o trabalho do [Sérgio] Guizé. Tinha visto só algumas coisas dele em Saramandaia, umas cenas em Sessão de Terapia. Gostei. Achei que ele tinha uma certa pureza do personagem. Seis meses antes de a novela estrear, fui almoçar com o Guizé umas duas vezes e de cara eu falei: Ele é o Caíque. Ele tem uma riqueza de cores, uma alma boa. Eu não conhecia muito o trabalho dele, mas me surpreendi. Ele é muito bom. Pro drama, pra comédia, aquela voz rouca. É dedicado. Ele é o protagonista que levou a história desde o começo. Já a Claudia Raia deu um show...

Sérgio Guizé em gravação de Alto Astral em Poços de Caldas (MG), antes da estreia; ator foi a grande surpresa para Daniel Ortiz (Foto: João Miguel Jr./TV Globo)

Mas isso era previsível...

Era. Claudia Raia sempre se espera que vai dar um show. Eu acho que ela deu show extra. A Christiane [Torloni] pega uma cena pequeninha, uma passagem, e ela se faz presente. A [Elizabeth] Savalla fez brilhantemente as duas personagens.

Você mudou muito a história original de Andréa Maltarolli?

A história do Caíque, da Laura e do Castilho [Marcelo Médici] ficou quase intacta até metade da novela. Na sinopse da Andreia, chegava um momento em que o Caíque brigava com o Castilho e ia para a casa assombrada, onde tem os fantasminhas, ele ia virar cozinheiro. E o Salvador [Rodrigo Lopéz] ia ser o novo espírito dele.

Só que no work discussion as donas de casa não queriam que ele brigasse com o Castilho, queriam que ele aceitasse a mediunidade. Então, a partir dessa metade, o Caíque passou a ser parceiro do Castilho. E a gente mandou o Afeganistão [Gabriel Godoy] para aquela casa.

A história do casal [Laura e Caíque] eu mudei um pouquinho, como era o encontro, não tinha amnésia da Laura no começo, não tinha o encontro dos dois naquela estrada. O que não tinha era a Samantha, o segredo da Tina, não tinha a história das mães. Tudo isso é novo.

Sua primeira novela foi mexicana. Você tem influência de novela mexicana? Essa história das mães, por exemplo, não é mexicana?

Toda novela tem isso. É o folhetim clássico. Mais que mexicana, é clássico. Novela é passar emoção. Tinha uma frase que eu escutava muito na Televisa, do Boni da época deles, que falava: A novela tem de vender esperança. Porque o público quer ver aquele casal junto, torcer para alguém. É bem Janet Clair, ela tinha um lado, não digo mexicano, mas de folhetim mesmo. Lembro que quando comecei a novela me perguntavam que bandeira eu iria levantar. Nenhuma. Vou contar uma novela, uma história para as pessoas se divertirem.

Hoje a gente vê Babilônia tendo problemas por ser realista demais. Os autores tentaram reproduzir a vida como ela é, com prostituição, com corrupção e com casais gays. Mas o povo quer romance, é isso?

Mas é muito da época. Se a novela [Babilônia] estivesse estreado dois anos atrás seria diferente. Porque a gente está num momento político hoje em que se fala muito de corrupção. Acabamos de ter uma manifestação de um milhão de pessoas nas ruas. Então, talvez tenha sido o momento. Vale Tudo [1988] é uma novela maravilhosa, mas também naquele momento todo mundo estava querendo uma voz.

A novela [Babilônia] eu gosto. O primeiro capítulo foi uma aula de escaleta, uma perfeição de roteiro. É muito difícil julgar uma novela no começo, porque tem toda a ressaca da novela anterior, com estilos completamente diferente. É inevitável. Toda novela cambaleia no começo, são raras as que não cambaleiam.

Voltando a Alto Astral. Houve algum momento de instabilidade na novela?

Quando você chega na semana de Natal e Ano Novo, toda a grade cai. Aí depende muito do ano. Pegamos o Natal na quarta e o Ano Novo na quarta. Ou seja: todo mundo emendou o feriado. Você tem de ter nervos de aço. Se ontem [terça, 28] estava dando quase 70 [%] de [televisores] ligados na grade noturna, em dezembro a gente estava falando de 39 [%]. Horário de verão, era sol, todo mundo no shopping.

Qual é o maior desafio ao escrever para o horário das sete? É fazer humor, enfrentar a classificação indicativa?

A gente não teve problema com indicação indicativa. A novela das sete exige um dinamismo que é adorável. As cenas das novelas das oito podem ser um pouco mais lentas, longas. A das seis também. Alto Astral foi meio que uma mistura, tinha muito drama. É um horário difícil, você tem que pegar o público que está chegando em casa. O ibope das novelas das sete só começa a subir às 19h50.

Cena de Between Love and Past, novela que Daniel Ortiz escreveu para a MBC, emissora árabe, em 2008; antes, em 2003, ele roteirizou Laços de Ódio para a Televisa (Reprodução)

Você chegou a acompanhar as novelas anteriores, Geração Brasil, Além do Horizonte?

Além do Horizonte eu acompanhei e gostava muito. Adoro novela de aventura. Adoro essas coisas: Walking Dead, séries assim. Geração Brasil eu estava muito envolvido com a novela. O que eu assisti, gostei. Eu tenho muito amigo de start up, dessas coisas de tecnologia. Então eu conseguia entrar naquele mundo.

A sua novela já é mais tradicional...

Sim, porque é o meu estilo. Eu gosto mais dessa coisa, novelão, Janet Clair com alguma coisa de Silvio de Abreu. Mas eu achei interessante essas duas propostas, porque é um desafio. Se você faz cinco novelas seguidas do Silvio de Abreu, uma hora o púbico vai querer uma mudança. Tem de ter uma alternância de estilos. Acho isso positivo.

Você virou roteirista por acaso?

Desde criança eu gostava de escrever. Escrevia contos, histórias com os membros da minha família. Depois com a turma do prédio, tinha uma filmadora. E com 12, 13 anos, fazíamos historinhas nossas, mas eu achei que isso nunca ia vingar. Estudei relações internacionais, trabalhei um tempo fora, na ONU. Daí conheci um diretor peruano [Luis Llosa], fui para o Peru...

Você conheceu ele em um curso de roteiro em Los Angeles?

Isso. Ele fez dois filmes lá, Anaconda [1997] e O Especialista [1994]. E aí foi, comecei a gostar. Ah, sim, eu acompanhei a novela dos anos 1980, a grife do Silvio, Jorginho. Não perdia uma: Jogo da Vida, Guerra dos Sexos, Vereda Tropical, Cambalacho, Sassaricando, Rainha da Sucata. Também não perdia uma do Gilberto Braga. Fui muito noveleiro, prestava muita atenção desde pequeno: como eles faziam a ligação de uma cena para a outra. Então, fui aprendendo com essas novelas. Não tem curso que te ensine a escrever uma novela.

Você escreveu no Oriente Médio, no Peru, no México, no Brasil. O que diferencia a novela mexicana, da brasileira e da árabe?

A mexicana já tem um público cativo universal. É aquela trama que nunca vai ter problema. Pode passar na Arábia Saudita e pode passar no Brasil. E eles são muito bons no que eles fazem. Eles não estão interessados em mudar muito aquilo. Vendem como água. E se você ligar e assistir A Usurpadora, por mais engraçado, fake, que você possa achar, garanto que em uma semana você está viciado naquilo. Porque eles têm o dom, sabem como cativar o público, com outro tipo de sentimento.

A novela árabe não tem uma tradição. A primeira novela árabe foi a minha. Eles tinham séries de um mês só. A que eu fiz foi bem realista. O Kuwait tem uma tradição por drama. Então, eu tinha que ter um compromisso com a realidade muito forte. Não podia botar a Samantha Paranormal, essas coisas doidas. Eles são mais exigentes com a realidade. Eu fiquei surpreso.

E a brasileira? Você pode tudo! O céu é o limite. Você tanto pode ir no extremo da realidade e você pode fazer a Samantha explodir uma ponte.

E agora, o que você pretende fazer?

Agora vou tirar férias.

Você quer fazer novela das seis, das sete, das oito?

Vou continuar entre seis e sete, porque tem muita gente na fila. Nos próximos dois anos, está tudo ocupado com gente nova nas seis, gente nova nas sete, tirando um ou outro. Eu gosto desses dois horários. Das nove é um grupo seleto, a grande marca da Globo.

Você ainda não se sente seguro para as 21h?

Eu fiz Passione com o Silvio.

Mas era uma novela do Silvio.

Sim. Nós temos dragões sagrados da dramaturgia. Então eu acho que a emissora tem de aproveitar.


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