Depoimento | Lauro César Muniz

Autor de Máscaras suspeita que novela foi sabotada pela Record

Daniel Castro/NTV

O autor Lauro César Muniz em seu apartamento, nos Jardins, em São Paulo, durante entrevista ao Notícias da TV - Daniel Castro/NTV

O autor Lauro César Muniz em seu apartamento, nos Jardins, em São Paulo, durante entrevista ao Notícias da TV

DANIEL CASTRO - Publicado em 14/12/2013, às 19h43 - Atualizado em 15/12/2013, às 08h00

Sabotagem é um termo muito forte, então Lauro César Muniz, 75 anos, prefere usá-lo com reserva. Mas tudo conspirou contra Máscaras, sua última novela. “Não tenho provas para falar em sabotagem, mas parecia que o comitê artístico estava em choque com o RecNov. Quem vivia nos escritórios da Barra Funda percebia isso. Eu comecei a me sentir o bode expiatório dentro de um guerra de poder”, lembra Muniz, um dos principais autores de telenovelas do país.

Depois de nove anos, ele deixará a Record no final do mês, admite, um tanto magoado e outro tanto frustrado.

Exibida em meados de 2012, Máscaras é um divisor de águas na teledramaturgia da Record. Todas as novelas que vieram depois fracassaram. Todos os principais executivos no comando da área artística da Record caíram. “Fui o último a cair”, ironiza Muniz.

Em depoimento exclusivo ao Notícias da TV, Muniz revela que teve uma crise nervosa poucos dias antes da estreia da novela. “Eu pressentia o desastre”, diz. Uma grave crise entre o diretor de teledramaturgia (Hiran Silveira) e o diretor da novela (Ignacio Coqueiro) prejudicava a produção.

“Foi uma novela que nasceu numa crise brava. As gravações no navio ficaram horrorosas, o elenco estava perdido”, diz. “Foi aí que eu decidi que era minha última novela”.

A seguir, os principais trechos do depoimento:

Thiago Lacerda em cena de Aquarela do Brasil (2000), em que Muniz se desentendeu com Jayme Monjardim

SAÍDA DA GLOBO

Fui para a Record em 2005, depois de uma crise com Mário Lúcio Vaz [então diretor artístico da Globo]. Em Aquarela do Brasil [2000], houve um desentendimento entre mim e o Jayme Monjardim [diretor-geral da minissérie]. Ele mexia demais no texto e na edição, achava que o ritmo não estava adequado. Os atores reclamavam. Fui aguentando, até certo ponto. Fiz um comentário e não gostaram. Me chamaram no Projac, houve até acareação entre o Jayme e eu. A partir daquele momento, tudo começou a ir mal. O fato era que eu não me dava bem com o grupo de Mário Lúcio e Ary Nogueira [ex-diretor de Recursos Artísticos]. Fiquei quatro anos sem produzir nada.

CHEGADA NA RECORD

Aí recebi uma proposta nítida do Hiran Silveira [ex-diretor de Teledramaturgia da Record]. Foi uma sugestão do Tiago Santiago, que sabia que eu estava descontente na Globo. Isso foi antes de eu ter problemas com o Tiago. Como supervisor de teledramaturgia, ele queira impor uma linguagem. É difícil impor uma linguagem para um autor experiente como eu. Ele queria coisas mais esquemáticas, mais maniqueístas. Eu não concordava.

NAUFRÁGIO DE MÁSCARAS

Até hoje não entendo direito o que aconteceu com Máscaras. Houve um desentendimento total, um absurdo. Ignacio Coqueiro queria outra novela, ele tinha pavor daquele navio. Mas nove capítulos  da novela se passavam no navio. As dificuldades entre o Hiran e o Ignacio minou o início da novela. Um dia, pouco antes da estreia, tive uma crise no RecNov, me tranquei no banheiro, vomitei muito. Eu pressentia o desastre. Chamaram o médico, plantonista que atendia o elenco, e ele disse que era uma crise nervosa. No lançamento à imprensa, uma semana depois desse problema, eu disse que era minha última novela. Não aguentava mais aquela carga de negatividade.

‘CRISE BRAVA’

Foi um absurdo a falta de diálogo entre Hiran e Ignacio. Isso já foi bastante divulgado. Durante uma visita da produção ao navio, procurei pelo Ignácio longamente. Fui encontrá-lo isolado, muito angustiado. Máscaras, então, começou com uma crise brava. Estava havendo um cochilo enorme da produção, o cenário era muito ruim. Havia também a limitação das jornadas de trabalho das equipes técnicas, que tinham de cumprir as determinações do banco de horas. Alguns câmeras, que substituíam os que saíam, chegavam sem saber quem eram os personagens. Nem o beabá da novela eles conheciam. As gravações no navio tinham sérios problemas técnicos, limitações de horários de trabalho. Uma novela que começa assim não pode ser consertada.

ERRO ESTRATÉGICO

Além disso, a Record cometeu um erro gravíssimo. Colocou, antes de Máscaras, uma reprise de Vidas Opostas, uma novela ótima do Marcílio Moraes, talvez a melhor já feita na emissora. Mas havia 14 atores comuns nas duas novelas. Isso foi desastroso. O público fazia piada com os atores. Falavam: “Como você consegue ser pobre numa novela e ficar rico na outra?” Era insuportável. Mas era muito cedo para uma reprise de Vidas Opostas e não deu audiência. Eu recebia com três pontos [no Ibope]. Um erro elementar. Como Máscaras não atingia dois dígitos, por volta do capítulo 40 começaram a exibir a novela muito tarde: dois terços da novela foram exibidos depois das 23h30. Eu não sabia se era a última novela do dia ou a primeira do dia seguinte.

O texto de Máscaras era muito sofisticado, e nisso eu errei. Mas não era confusa, tanto assim que teve um enorme sucesso quando exibida em canais por assinatura na Europa. Em Portugal alcançou o primeiro lugar de audiência.

SABOTAGEM?

Máscaras, portanto, nasceu em meio a uma enorme crise. O Ignacio saiu, entrou o Edgar Miranda. Antes as novelas davam dois dígitos, hoje elas dão menos do que Máscaras, se considerarmos o share [participação no total de televisores ligados]: depois das 23h30 cai muito o número de televisores ligados. O fracasso provocou a queda do Hiran [Silveira] e mais adiante pesou indiretamente na substituição do [Honorilton] Gonçalves. Como se vê, fui o último a cair. Sabotagem? Não tenho provas para falar em sabotagem, mas parecia que o comitê artístico, em São Paulo, estava em choque com o RecNov, no Rio. Quem vivia nos escritórios de São Paulo, na Barra Funda, percebia isso. Eu comecei a me sentir o bode expiatório dentro de um guerra de poder.

Miriam Freeland no navio de Máscaras: autor pressentiu desastre e teve crise nervosa a poucos dias da estreia

DESPEDIDA

Eu estava negociando uma minissérie sobre Carlos Gomes. Fiz até uma reunião com o Hiran, o Gonçalves e o maestro Julio Medaglia, que acenava com uma coprodução com a Itália. Mas aí mudou a direção, que me comunicou que a minissérie sobre Carlos Gomes não fora aprovada. Não fora aprovada por quem? Talvez pelo comitê artístico, não sei. Depois numa rápida conversa por telefone com o novo chefe da teledramaturgia, recebi uma informação: “A grade de 2014 e 2015, em teledramaturgia, está completa”. Então eu respondi: Volto em 2016. Na verdade trata-se de uma questão financeira. Dois anos de meus ganhos é um valor alto demais para empresa, para uma espera.  

NOVELAS BÍBLICAS

Nunca fui sondado para escrever uma novela novela bíblica. Sugeri Salomé para ser feita por uma colega. Não me sinto à vontade para escrever uma novela religiosa: é preciso ter uma forte convicção quando se abraça um projeto. Não sou religioso. Escreveria sem prazer, sem envolvimento emocional.

MÁGOA DA RECORD?

Nos nove anos em que trabalhei lá, me senti isolado. Nunca me chamaram para um reunião para discutir televisão. Nem para dar palestras nos cursos de atores e roteiristas me chamaram. Acompanho a vida da emissora pelos jornais. Outro dia o senhor Edir Macedo almoçou com o grupo de jornalistas da emissora para festejar o sucesso de seus programas. O jornalismo, como se sabe, tem um  conhecedor do métier na chefia, o Douglas [Tavolaro]. A teledramaturgia nunca teve um diretor experiente como o jornalismo. O diálogo é difícil. Todos os profissionais da área, autores, diretores, elenco, técnicos, conhecem mais o trabalho do que os diretores executivos. As pessoas que cuidam da teledramaturgia se esforçam, mas não são do meio. Por que não se busca um profissional à altura do cargo? Sinto que falta confiança da cúpula da emissora sobre os profissionais de nossa área.    

FUGA PARA A GLOBO

A Record não podia perder atores e atrizes como o Gabriel Braga Nunes, Marcelo Serrado, Tuca Andrada, Miriam Freeland, Bianca Rinaldi e outros. A última estrela da Record é a Paloma [Duarte]. Há bons atores, mas faltam grandes astros protagonistas.

VOLTARIA PARA A GLOBO?

O que eu quero da Globo, na verdade, é que eles reconsiderem a maneira de olhar para mim. Eu deixei novelas muito boas lá. E estão omitindo meus trabalhos por eu ser, até hoje, da concorrente. Isso eu quero que a Globo repense. Eu fui pioneiro junto com a Janete [Clair], o [Walter George] Durst, o Cassiano [Gabus Mendes], o Dias [Gomes]. Quando mostram trechos das minhas novelas, raramente me dão crédito. Eu ajudei a fazer a história da Globo que, em parte, se confunde com a minha própria história pessoal.

ÚLTIMA NOVELA?

Agora vou retomar minha vida. Uma nova era.


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