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REPRODUÇÃO/TV GLOBO e YOUTUBE

Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro devem desfalcar principais debates na TV em 2026
A Band realizou neste domingo (23) o primeiro debate eleitoral entre os candidatos à Presidência da República, mas com uma diferença significativa em relação às últimas eleições. Líderes nas pesquisas de intenção de voto, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) faltaram ao encontro, assim como Romeu Zema (Novo). Se no passado a ausência em um evento desse porte era impensável e cobrava um preço alto nas urnas, o modelo de debate televisivo hoje amarga a sua pior crise --num fenômeno que já ganhava força nos últimos ciclos eleitorais.
Para entender esse movimento, a reportagem conversou com o professor doutor Carlos Sávio Gomes Teixeira, do departamento de Ciência Política da UFF (Universidade Federal Fluminense). Ele avalia que a diminuição no interesse em participar dos debates tem um conjunto de razões objetivas e pragmáticas.
Para o cientista político, trata-se também de parte de uma mudança geral que aconteceu na sociedade contemporânea na relação da população com os meios de comunicação. Como o Notícias da TV já havia mostrado, a TV aberta tem perdido gradativamente cada vez mais público ano após ano, enquanto as novas telas --especialmente as redes sociais-- vêm crescendo no Brasil.
"Os meios de comunicação tradicionais vêm progressivamente perdendo importância e espaço, em meio à gradual e crescente importância das redes sociais no processo de informação das pessoas. Seria estranho que isso também não ocorresse no plano da política. Vejo como algo, de certo ponto de vista, inevitável", avalia.
Para o professor, essa transição traz prós e contras. Se por um lado as redes sociais democratizam o debate ao permitir o surgimento de novas vozes, por outro é prejudicial que a política abandone uma vitrine tão relevante na TV. Diante desse cenário, Teixeira aponta que é necessário repensar a estrutura das sabatinas e sugere até adaptações na legislação eleitoral para modernizar o formato.
"O ideal seria que, por exemplo, já nas inscrições das chapas houvesse algum tipo de exigência ou compromisso para a participação em debates, em que as regras valessem para todos. Talvez um ou dois, em pool de emissoras, algum formato que [realmente] obrigasse os candidatos a debaterem", defende.
Teixeira observa ainda que a forte polarização política dos últimos anos contribui para que o formato atual dos debates pareça obsoleto. “A estabilização desses dois candidatos como líderes de intenção de voto, muito distanciados dos demais, acaba sendo um desincentivo à presença, porque eles se imaginam --corretamente-- alvos dos outros”, pondera.
Ao professor chama a atenção ainda que, embora o lulopetismo e o bolsonarismo guardem diferenças profundas, os programas econômicos e políticos de ambos nos últimos anos apresentam convergências significativas.
É um modelo rentista, no qual algo em torno de 8% do PIB [Produto Interno Bruto] é direcionado para as 5 mil famílias que financiam a dívida pública brasileira. Um dos motores disso são as taxas de juros absurdas. E há também o rentismo voltado aos vulneráveis, alimentado por bolsas, auxílios e vales. E Bolsonaro dobrou a aposta. A expectativa era de que ele --por ser um crítico histórico do Bolsa Família e se alinhar ao liberalismo-- fizesse diferente, mas não foi o que aconteceu.
Na avaliação do especialista, o aparente consenso sobre o modelo de governança leva os candidatos a buscarem o caminho mais seguro: falar prioritariamente para as próprias bolhas, moldando a narrativa de acordo com os interesses de suas bases eleitorais.
Obviamente, isso é ruim para o processo democrático, que se beneficia de visões contrastantes. Elas são importantes para ajudar o eleitor a formar a sua avaliação, a discernir as possíveis diferenças que melhor o interessam.
Teixeira aponta que a falta de entusiasmo --tanto dos candidatos quanto do público-- também decorre do desgaste natural pela rotina do processo democrático. "Soma-se a isso a semelhança entre as propostas: hoje todos se colocam a favor do social e contra a corrupção. Essa falta de contraste real afasta o eleitor e esvazia o interesse pelos debates", conclui.
O professor chama a atenção para um dado decisivo na corrida eleitoral, que é a movimentação da fatia de 30% do eleitorado que rejeita tanto o lulopetismo quanto o bolsonarismo. Atualmente, cerca de 10% das intenções de voto se dividem entre as demais candidaturas, enquanto outros 20% se dividem quase igualmente entre eleitores indecisos e os dispostos a votar em branco ou nulo.
“A grande questão é saber se esse número vai ser subsumido pela polarização na reta final, na fricção da campanha, como foi na eleição de 2022, ou se vão desistir mesmo de participar do processo", alerta.
Teixeira ressalta ainda que o desinteresse dos candidatos pelos debates é reflexo de uma crise mais ampla da mídia tradicional. O especialista pontua que a imprensa, que historicamente atuou como mediadora do processo eleitoral --assim como a universidade, a escola, o sindicato e o próprio partido político--, perdeu força. Todas essas instituições entraram em declínio no que diz respeito à capacidade de mobilizar e engajar o eleitorado.
Segundo o especialista, as redes sociais vêm ocupando cada vez mais esse espaço, seja em qualquer espectro político:
Até agora, no mundo inteiro e no Brasil em particular, a direita tem levado vantagem com essa realidade. Por incrível que pareça, já que a esquerda tradicional sempre se apresentou como antissistema e hoje é associada, em grande medida, com o próprio sistema.
Mesmo assim, o cientista político acredita que o debate da Globo --ainda que já não tenha a mesma força nem a mesma audiência de alguns anos atrás-- possa ser um ponto fora da curva:
Antes ele ocorria tarde da noite, mas agora a proposta é que aconteça às 20h30, em pleno horário nobre. Quer dizer, no momento em que a maior parte dos televisores do país estão ligados. Eu acho que, desse encontro, os líderes nas pesquisas devem participar. Então, é um sinal de que é um comportamento que tem a ver com essa estratégia de lidar com incentivos.
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