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BASTIDORES

Saída de Vera Magalhães da TV Cultura envolve pressão política e sonho de Globo

REPRODUÇÃO/TV CULTURA

Vera Magalhães tem expressão séria no cenário do Roda Viva

Vera Magalhães no comando do Roda Viva; jornalista tentou fugir de cláusula do contrato

DANIEL CASTRO

dcastro@noticiasdatv.com

Publicado em 7/1/2026 - 9h00
Atualizado em 7/1/2026 - 10h48

A saída de Vera Magalhães da TV Cultura conta com bastidores que vão muito além de uma indefinição sobre a renovação do contrato. Nos bastidores, surgiram questões que afetaram as duas partes envolvidas na negociação. Do lado da Cultura, havia uma pressão do governador Tarcísio de Freitas para se livrar da apresentadora, persona non grata entre bolsonaristas. Do lado da jornalista, existia um desejo de poder trabalhar em outras emissoras --o sonho dela seria conseguir uma vaga na GloboNews.

O Notícias da TV apurou com fontes na emissora e na Fundação Padre Anchieta que a presença de Vera à frente de um dos formatos mais bem-sucedidos da TV Cultura nunca foi bem aceita por Tarcísio. O contrato anterior dela havia sido renovado antes mesmo das eleições para governador, em outubro de 2022, assegurando que ela teria mais três anos no ar independentemente dos mandos e desmandos do político.

A jornalista, afinal, havia comprado uma guerra com os seguidores de Jair Bolsonaro após ser acusada por deputados de direita de receber um salário de R$ 500 mil do governo de São Paulo. Na época, ela chegou a divulgar sua folha de pagamentos para provar que ganhava "apenas" R$ 22 mil --o valor foi reajustado pelo IPC-Fipe para o contrato válido de 2023 até 2025.

Com posicionamentos críticos sobre a atuação do governador de São Paulo em suas colunas no jornal O Globo e em seus boletins na rádio CBN, a apresentadora se tornou um alvo do político. Tarcísio tanto fez e tanto pressionou que acabou levando José Roberto Maluf a desistir de continuar na presidência-executiva da Fundação Padre Anchieta depois de seis anos. O jornalista era um dos grandes defensores de Vera Magalhães no Roda Viva.

Para o lugar de Maluf, em meados de 2025, foi eleita Maria Ângela de Jesus, uma executiva que sempre soube navegar as tempestuosas águas dos bastidores da TV. Como boa jogadora do jogo do poder, ela se tornou chefe de conteúdo original e desenvolvimento da HBO, diretora de produção internacional da Netflix e head de produção de conteúdo da Paramount.

Embora quase ninguém vá admitir isso explicitamente, tirar Vera Magalhães do Roda Viva num momento em que a TV Cultura sofre com cortes nas verbas repassadas pelo governo do Estado é um claro aceno da emissora a Tarcísio. Ex-diretor de Jornalismo da emissora entre 2019 e 2023, Leão Serva chegou a afirmar que a saída da jornalista era um "acordo de cavalheiros com o demo" e que "a burrice marca as gestões bolsonaristas na cultura"

Parece difícil que a TV pública se torne uma arma de propaganda bolsonarista, mas ela também não se mostra disposta a entrar numa briga em que só tem a perder --sem o dinheiro do governo, não há como manter a Cultura na ativa.

Não foi por acaso, afinal, que Vera publicou em sua carta de despedida o quanto valorizava a "plena liberdade" que recebeu "para praticar jornalismo independente, plural e relevante". Para bom entendedor...

A nova gestão da TV Cultura ganha ponto com o governador ao dificultar a permanência de Vera Magalhães. Com habilidade, a nova chefia encenou querer renovar o contrato com Vera por mais um ano, chegou a fechar um acordo verbal, mas depois voltou atrás, estendendo o vínculo somente até abril. Vera não gostou do que chamou de "quebra de acordo" e deu adeus ao Roda Viva (ela aparece em edições gravadas até o final deste mês).

A TV Cultura, assim, não humilhou Vera com uma dispensa ao final de contrato, como gostariam os bolsonaristas. Mas também não fez questão de verdade de mantê-la. Pode posar de independente do governo do Estado (o que de fato não é), mas fez o que o Palácio dos Bandeirantes queria. E bola para frente porque o Roda Viva precisa dar palco para novos apresentadores, como disse o cínico comunicado da Cultura.

Vera queria trabalhar na Globo

A reportagem também apurou com fontes próximas à jornalista que um dos impasses na renovação de seu contrato não era uma questão salarial, mas uma cláusula de exclusividade. Vera queria ficar livre para trabalhar em outras emissoras nos dias em que não estivesse envolvida com o Roda Viva.

Como já escreve para o jornal O Globo e apresenta boletins na rádio CBN, ambos ligados à Globo, parecia natural para ela almejar também uma vaga na GloboNews --um desejo que ficou ainda maior após a demissão de Daniela Lima, sua antecessora no Roda Viva, em agosto do ano passado.

Seu contrato com a Cultura, porém, exigia exclusividade na televisão --não é de interesse da emissora ter a âncora de seu principal formato em uma concorrente. Vera lutou para se livrar da cláusula, o que atrapalhou a renovação do contrato. Ao perceber que a batalha estava perdida, ela aceitou abrir mão do pedido.

Porém, já era tarde demais para ela. Executivos da Cultura avaliaram a insistência da jornalista como um comportamento intransigente e uniram o útil ao agradável ao dispensá-la --e, assim, tentar cair nas graças de Tarcísio.

O que Vera e a Cultura dizem sobre a saída

Oficialmente, Vera afirmou em um post no Instagram publicado na terça-feira (6) que optou por não renovar seu contrato porque a emissora teria "quebrado o acordo" feito verbalmente com ela. O vínculo da jornalista com a TV Cultura havia vencido em 31 de dezembro, mas ela havia deixado tudo encaminhado para a renovação por mais um ano.

A ideia de Vera era aproveitar o ano em que o Roda Viva completa quatro décadas no ar para fazer uma transição no comando do formato para um novo apresentador. Ela, porém, alegou ter sido pega de surpresa com notícias que questionavam sua permanência na emissora e, ao perguntar à presidente da Fundação Padre Anchieta, Maria Ângela de Jesus, foi informada que os planos haviam mudado.

"Ela [Maria Ângela] realizou uma reunião com a diretora de Jornalismo, Marília Assef, que me comunicou da mudança de planos e me pediu para permanecer até abril. Diante da quebra de um acordo já selado presencialmente, optei por me desligar de imediato", explicou Vera na rede social.

Já a TV Cultura afirmou em nota à imprensa que a troca de apresentadores do Roda Viva é um procedimento normal do formato e que, como uma TV pública, "é da natureza da emissora abrir oportunidade para novos apresentadores".


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