ACABOU O PRESTÍGIO
REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Apresentado pelo jornalista Pedro Bial, o Conversa com Bial passará a ser semanal em 2026
Os talk shows diários já estão há décadas de distância de sua era de ouro. Em um passado glorioso, o gênero importado dos Estados Unidos era sinônimo de prestígio na televisão. No Brasil, daquilo que foi consolidado com o Jô Soares Onze e Meia em 1988, sobraram poucos sobreviventes. O fim, no entanto, não está associado à perda de interesse do público em entrevistas, mas sim nos novos canais disponíveis --sobretudo os podcasts.
A última baixa foi o Conversa com Bial, que passará a ser semanal em 2026. Com essa mudança, o The Noite, comandado por Danilo Gentili, passa a ser o único programa de entrevistas diário no ar na televisão brasileira. O Lady Night, no Multishow, segue com exibições por temporada.
A tendência de enfraquecimento dos talk shows é mundial. Jimmy Kimmel, um dos medalhões do gênero na TV norte-americana, renovou seu contrato com a ABC, mas só até maio de 2027. Segundo o Deadline, este provavelmente será seu último ciclo como apresentador do programa --que chegou a sair do ar em decorrência de comentários relacionados ao assassinato de Charlie Kirk (1993-2025), influenciador ligado a Donald Trump.
Quase todos os talk shows brasileiros criados a partir dos anos 2010 falharam e saíram do ar. Nomes como Marcelo Adnet, Rafinha Bastos e Fábio Porchat tentaram se agarrar ao formato. Contudo, além do The Noite, somente o Conversa com Bial se sustentou, sem muito brilho, durante oito anos.
O próprio Jô Soares (1938-2022) saiu do ar em 2016. Anos antes do fim da atração, ele já havia sido alertado sobre o término. A concorrência com o SBT, a necessidade de renovar a programação da Globo e a saúde debilitada do apresentador foram fatores determinantes para o encerramento.
Contudo, a virada de mesa definitiva em um cenário já decadente se deu durante o isolamento social e a pandemia de Covid-19. Muitos produtores de conteúdo lançaram programas no formato de podcast e videocast: uma mídia barata de ser gravada e fácil de ser veiculada.
Pedro Bial, assim como diversos apresentadores da televisão, também tocou seus programas de casa ou em modelos híbridos durante este período, o que fez com que as atrações caíssem ainda mais alguns degraus no prestígio. Afinal, àquela altura, o que ia diferenciar um programa de entrevistas da TV feito pelo Zoom de um videocast online?
De acordo com dados do Spotify, entre janeiro e setembro de 2023, ou seja, logo após a pandemia de Covid-19, a produção de podcasts no Brasil cresceu 36%. Além disso, o consumo desse tipo de mídia também apresentou um aumento expressivo: houve alta de 28% no mesmo período.
Não é exagero dizer que, hoje em dia, há um podcast para cada assunto capaz de gerar um diálogo entre duas pessoas. O formato também permite uma conexão aparentemente mais íntima entre o criador e a audiência, que consegue interagir ao vivo. Poder ouvir seu podcast preferido a qualquer hora e em qualquer lugar, sem precisar estar diante da televisão na madrugada, também é uma vantagem para uma geração hiperconectada.
E, se antes os programas eram focados em entrevistas e debates, o cenário com os podcasts é muito mais amplo. Essa pluralidade de temas é um dos maiores atrativos para os ouvintes, que encontram conteúdos alinhados a seus interesses específicos --tal qual uma propaganda direcionada nas redes.
Em vez de uma entrevista de 10 minutos com o seu ator favorito, os podcasts oferecem até duas horas de material ao vivo, quase sempre sem cortes. Além de áudio e da transmissão em vídeo, os convidados e apresentadores sentam-se frente a frente e conversam diante de um microfone em um estúdio.
Esse modelo pode ser facilmente compartilhado nas redes sociais e viralizar. A ponto de influenciadores chegarem a simular entrevistas para podcasts, apenas para fabricar cortes para as redes sociais, usando a suposta entrevista como chancela de credibilidade para seus conteúdos.
A validação dos podcasts já é uma realidade global. O Globo de Ouro introduziu a categoria de melhor podcast a partir da cerimônia de 2026 --mas deixou de fora os talk shows. Esta é a primeira vez que uma grande premiação de Hollywood reconhece podcasts, marcando a expansão significativa de um produto nativo digital em categorias tradicionais de cinema e televisão.
A boa relação com a internet pode, inclusive, explicar a sobrevivência do The Noite no SBT. No ar desde 2014 --antes disso, Danilo Gentili passou três anos no comando do Agora É Tarde, da Band--, o programa alcançou recordes de audiência nas plataformas digitais no primeiro semestre de 2025 e é considerado o programa brasileiro mais visto do YouTube.
Vale dizer que a ascensão dos podcasts não é uma unanimidade. O modelo de entrevistas, quase sempre pautado com pouca ou nenhuma pesquisa, feita por influenciadores sem formação em Jornalismo, no estilo "resenha livre", já desagradou inclusive a alguns convidados.
Todavia, as próprias fraquezas do formato acabam facilitando e favorecendo aqueles que não estão dispostos a responder perguntas difíceis. Mas se o podcast é o novo talk show, assumindo o prestígio dos programas tradicionais de entrevista --que recebem de celebridades internacionais a candidatos à presidência--, quem fará as perguntas difíceis a partir de agora?
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