ANÁLISE

Passado x futuro: SBT completa 45 anos na corda bamba entre inovação e tradição

DIVULGAÇÃO/SBT

Patricia Abravanel sorridente no cenário do Show do Milhão, usando uma roupa azul-marinho com bolinhas brancas

Patricia Abravanel no Show do Milhão; SBT completa 45 anos com heranças de Silvio e desafios

GIULIANNA MUNERATTO

giulianna@noticiasdatv.com

Publicado em 19/8/2026 - 21h00

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O SBT completa 45 anos nesta quarta-feira (19) diante de uma pergunta inevitável: quanto da emissora criada por Silvio Santos (1930-2024) continua presente mesmo depois da morte de seu fundador? A resposta, no entanto, não passa necessariamente por imaginar uma TV que tenta reproduzir o passado. Quatro décadas e meia depois de entrar no ar, o cenário é outro --e o SBT também precisou mudar com ele.

  • Entenda a análise:
  • Identidade pós-Silvio: Aos 45 anos, o SBT busca manter a essência popular deixada por Silvio Santos enquanto se adapta aos novos tempos.
  • Transição em família: Sob a liderança das filhas do fundador, o canal preserva o auditório e o clima interno familiar, mas enfrenta desafios.
  • Desafio de futuro: O objetivo principal da emissora é se modernizar para disputar audiência com a internet sem virar refém apenas do passado.

A emissora começou oficialmente em 19 de agosto de 1981, quando Silvio Santos colocou no ar o Sistema Brasileiro de Televisão. A experiência acumulada pelo empresário na TVS já apontava algumas das características que se tornariam marcas do canal: entretenimento popular, contato direto com o público, atrações de auditório e disposição para experimentar formatos.

Ao longo das décadas, esse modelo produziu alguns dos maiores fenômenos da história da emissora. Show de Calouros, Topa Tudo por Dinheiro (1991-2001), Show do Milhão, Casa dos Artistas (2001-2004), Domingo Legal e as novelas mexicanas ajudaram a construir uma identidade própria para o SBT. Não havia necessariamente uma fórmula única, mas uma maneira bastante particular de fazer televisão, que se diferenciava (e muito) das concorrentes.

Essa maneira de fazer TV tinha muito de Silvio Santos. O comunicador não era apenas o rosto mais conhecido da emissora: sua personalidade basicamente ditava o ritmo dos programas, a relação com o auditório, a disposição para testar ideias e a capacidade de reagir rapidamente às mudanças da TV. Por isso, separar completamente o SBT de seu patrão nunca foi uma tarefa fácil.

Mas isso não significa que tudo o que existe hoje na emissora precisa ser uma reprodução do que funcionava nos anos 1980, 1990 ou 2000. O próprio SBT passou por transformações enquanto Silvio ainda estava à frente da empresa.

Ampliou o Jornalismo, investiu em dramaturgia nacional, mudou sua identidade visual, incorporou realities e novos formatos e encontrou diferentes maneiras de dialogar com o público.

O patrão também deixou uma herança menos visível para o grande público, mas importantíssima para o funcionamento da grande engrenagem do SBT, que é a própria cultura interna.

O SBT mantém uma tradição de funcionar quase como uma família, com relações próximas entre funcionários e direção. Daniela Abravanel Beyruti cresceu nesse ambiente e conhece profissionais que acompanham a emissora há décadas. É uma característica que ajuda a manter uma espécie de memória afetiva dentro da empresa, mesmo com a mudança de geração.

Essa proximidade também ajuda a entender por que a ausência de Silvio não significa, necessariamente, o desaparecimento de tudo o que ele construiu. Parte de sua maneira de fazer televisão continua presente não apenas nos programas, mas na relação da emissora com seus funcionários e o público.

Os programas que carregam a tradição do canal também passaram para uma nova geração. O Programa Silvio Santos, por exemplo, segue muito bem sob o comando de Patricia Abravanel, mantendo games, brincadeiras com o auditório e quadros associados à história da atração. Outros formatos tradicionais continuam dividindo espaço com propostas mais recentes.

É justamente aí que aparece uma das questões mais interessantes dos 45 anos da emissora. O SBT não precisa escolher entre ser "o SBT de Silvio Santos" e abandonar completamente aquilo que construiu sua identidade. O desafio é entender quais elementos daquela televisão continuam funcionando para o público atual e quais pertencem a uma época que já passou.

A relação direta com o público é um desses elementos que permanecem. O auditório continua ocupando espaço importante na programação, enquanto realities, games, notícias, novelas e atrações de variedades dividem a grade.

A emissora, ao mesmo tempo, precisa disputar a atenção em um mercado muito diferente daquele encontrado por Silvio Santos em 1981, com streaming, redes sociais e uma oferta de entretenimento muito maior.

Atualmente, a emissora parece estar em uma busca incessante de atualizar sua identidade e encontrar um caminho próprio para o cenário dos dias de hoje. A ideia de resgatar características do SBT "raiz" convive com a necessidade de experimentar e renovar a programação.

Não dá para negar, que apesar dos avanços, o SBT ainda vive uma fase difícil. A emissora já atravessou diferentes momentos da TV brasileira e mudou muitas vezes ao longo de sua história. A diferença agora é que precisa fazer isso sem a presença de Silvio para definir pessoalmente os próximos passos.

Em um mercado cada vez mais fragmentado, manter a identidade já não basta: é preciso encontrar uma programação capaz de disputar a atenção do público de hoje.

Talvez essa seja a grande questão do momento vivido pela emissora: não repetir o fundador, mas descobrir o que, de fato, era Silvio Santos e o que sempre foi SBT. A emissora ainda tem marcas reconhecíveis, profissionais que carregam sua história e uma relação construída ao longo de décadas com o público. O problema é transformar esse patrimônio em um projeto de futuro, e não apenas em uma coleção de referências ao passado.

A programação pode mudar, apresentadores podem ser substituídos e novos formatos podem surgir --como sempre aconteceu no SBT. O grande desafio, aqui, é fazer essas mudanças sem perder a identidade no caminho.

Ao conseguir preservar a relação próxima com o público, o espírito popular e até a ideia de família que atravessa seus corredores, a emissora terá uma base importante para se reinventar. Aos 45 anos, porém, o SBT precisa provar que essa base é suficiente para construir uma nova fase, e não apenas para manter viva a memória de uma que precisa ficar para trás.


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