PODERIA SER MELHOR
REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Tobias (Cleiton Morais) e Lauro (Marcelo Argenta) em Êta Mundo Melhor!; casal está apagado na novela
A TV Globo tem procurado investir em representatividade e diversidade nos últimos anos, e esta iniciativa é visível nos elencos das novelas. Nas tramas mais recentes, os autores têm sempre incluído pelo menos um personagem que se enquadre dentro de uma letra da sigla LGBTQIA+. Ainda que haja um aumento, mesmo lento, em relação a isso, não tem existido a mesma melhora em relação à qualidade das tramas e ao aproveitamento destes personagens, que têm recebido sistematicamente histórias fracas ou mesmo sido deixados de lado.
Muito se falou sobre o apagamento das personagens Laís (Lorena Lima) e Cecília (Maeve Jinkings) em Vale Tudo. O início da trama das duas parecia promissor, com a expectativa de que elas tivessem mais destaque do que na versão original da novela.
O que se sucedeu, no entanto, foi uma trama que deixou muito a desejar. As duas mal apareceram e, quando apareceram, tiveram momentos lamentáveis, com o risco de perderem a filha delas para Marco Aurélio (Alexandre Nero) ou para o pai biológico da menina.
Organizações de mães lésbicas criticaram esta reviravolta, por acharem que a novela estava perpetuando um ideal equivocado sobre uma suposta necessidade de figura paterna em famílias compostas por duas mães.
A questão sobre a presença masculina num casal lésbico também aparece em Dona de Mim. Toda a trama de Ayla (Bel Lima) e Gisele (Luana Tanaka) é envolta em confusão.
Ayla queria ser mãe, e Gisele não. Em vez de diálogo, a novela apresentou uma solução arriscada e desaconselhada por médicos e advogados: uma inseminação "informal", em que Ayla buscou um doador de esperma na internet, conseguiu o material e achou que estava tudo resolvido.
No entanto, semanas depois ela encontrou o doador, que veio a ser Caco (Pedro Alves), namorado de Breno (Gabriel Sanches). O rapaz passou a se entender como pai da criança --ou melhor, das crianças, pois são gêmeos-- e a forçar sua presença na vida do casal Ayla e Gisele.
É compreensível que a novela tenha criado este caos para movimentar a história. No entanto, também houve críticas de organizações civis em relação à questão de o doador de esperma ser considerado pai. A sensação que fica é a de um tema sério que é tratado com leviandade, para que no final todos se tornem uma grande família feliz.
Êta Mundo Melhor! também tem seus personagens LGBTQIA+: Lauro (Marcelo Argenta) e Tobias (Cleiton Morais). A trama dos dois, no entanto, quando não está apagada é retratada em cenas chatíssimas.
O drama deles é serem gays numa época em que havia muito preconceito, em que não se podia viver livremente como casal sem sofrer represálias da sociedade.
Para evitarem passar por isso, eles preferem continuar no armário, e Lauro até arrumou uma namorada de fachada para fingir ser hetero: Sônia (Paula Burlamaqui).
Esta é a trama que se arrasta desde o início da novela. Êta Mundo Melhor já chega ao capítulo 100 nesta semana, e Lauro e Tobias continuam na mesma, com uma ou outra cena de ciúme e confusão provocada por Sônia. O casal gay não evolui, não se desenvolve, não emociona.
Vale Tudo também teve questões de pouco ou quase nenhum desenvolvimento de seus personagens gays e de outras siglas também. Eugênio (Luis Salém) ficou totalmente apagado em relação à versão original da novela. Freitas (Luís Lobianco) só ganhou mais relevância na reta final.
Poliana (Matheus Nachtergaele) entendeu ser assexual e até teve uma cena emocionante no último capítulo, mas a questão da descoberta da assexualidade foi retratada de maneira rápida e passageira. Já a suposta bissexualidade de Sardinha (Lucas Leto) foi levantada pelo ator, mas sem muito espaço na história.
É preciso ressaltar, por outro lado, que há novelas que fizeram ótimos retratos de personagens LGBTQIA+. Só entre as mais recentes, foi satisfatório acompanhar a descoberta da homossexualidade de Guto (Pedro Goifman) em Garota do Momento (2024) e o nascimento do amor entre Clara (Regiane Alves) e Helena (Priscila Sztejnman) em Vai na Fé (2023).
No entanto, nos enredos LGBTQIA+ retratados nas novelas nos últimos meses, fica claro que apenas representatividade não é suficiente. Seria muito importante haver um aperfeiçoamento de qualidade nas histórias também.
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