ENTREVISTA
REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

Mariana Becker em cobertura da Fórmula 1 para a Band; jornalista enfrentou machismo escancarado
Referência no jornalismo esportivo, Mariana Becker se firmou como a principal voz feminina na cobertura da Fórmula 1 no Brasil. Em um universo historicamente dominado por homens, ela precisou ir além de provar competência: enfrentou resistências, quebrou barreiras e construiu um legado marcado por coragem, consistência e pioneirismo.
Com mais de duas décadas cobrindo a principal categoria do automobilismo mundial, Mariana relembra em entrevista exclusiva ao Notícias da TV os obstáculos que enfrentou para conquistar respeito nos bastidores.
"Eu achava que [enfrentava barreiras] por estar começando ou por ainda estar aprendendo --porque Fórmula 1 exige estudo, especialização. Me exigia muito, achava que não tinha fontes boas, que não me expressei direito... Mas, na verdade, era porque eu era mulher. Qualquer vacilo era visto de forma mais dura. Isso foi muito difícil", conta ela à reportagem.
"Aí você tenta se encaixar, ser perfeita, mas quanto mais tenta, mais dura fica. E começa a desaparecer. Já ouvi coisas do tipo: 'Você consegue isso porque é loira de olhos verdes'. Comentários que nenhum homem ouviria. Na minha geração, ouvíamos absurdos e achávamos normal. Só depois percebemos o quanto nos limitavam", acrescenta.
Depois de passar anos na Globo, ela migrou para a Band em 2021, quando a emissora adquiriu os direitos de transmissão da Fórmula 1. No início, ela se dividiu entre coberturas internacionais e o esporte, mas acabou se especializando nas corridas automobilísticas.
"Na Band, não só continuei como repórter, como também participei da idealização de um novo tipo de cobertura com a equipe e com o Jayme [Brito], diretor de produção. Como teríamos mais espaço, pensamos juntos: 'Podemos mostrar isso, aquilo…'. Muita coisa que eu queria mostrar antes, mas não podia, por falta de espaço, passou a ser possível", celebra.
Mariana Becker reforça a importância de ocupar um espaço em transmissões e matérias especiais tradicionalmente feitas por colegas homens. E, para ela, a mudança não está somente na presença cada vez maior das mulheres na Fórmula 1.
Segundo a jornalista, a própria categoria sofreu alterações importantes ao longo dos anos, criando novos espaços para todo tipo de pessoa. "Com o tempo, tudo foi se transformando. A Fórmula 1 ganhou mais liberdade, os pilotos passaram a usar redes sociais, começaram a se expressar mais. A mídia também pôde mostrar mais coisas", pontua.
E as mulheres começaram a ser enxergadas de outra maneira, como mercado consumidor. Antes, a mulher era acompanhante, estava nos bastidores. Hoje, há presença feminina em todas as áreas. Eu acompanhei de perto a transformação do [Lewis] Hamilton também --como piloto, depois como homem negro e ativista. Foi um prato cheio de histórias, um banquete para quem é jornalista.
O trabalho de Mariana, inclusive, exige um preparo físico e emocional que poucos seriam capazes de encarar. A logística envolve desde o cronograma de voos para não perder treinos e GPs até o contato com fontes para entender aspectos técnicos de uma corrida.
"O ideal é conseguir se comunicar para todo mundo --desde a senhora que cuida das galinhas até o piloto de Fórmula 1. Isso é técnica: conseguir explicar para todos", afirma.
Ainda que seu futuro profissional seja incerto com o retorno da Fórmula 1 à Globo, Mariana não se vê longe das pistas e sonha em apenas continuar contando histórias com brilho nos olhos. "Enquanto houver gente, há histórias para contar", aponta ela.
"Quero entrevistar melhor, entender o mundo cada vez mais, ser mais flexível e menos julgadora. O bom jornalista é o que não julga. Continuo querendo mais. Sempre quero mais", finaliza.
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