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ESPECIALISTAS EXPLICAM

Globo encontrou na nostalgia sua arma mais poderosa contra streaming e TikTok

ESTEVAM AVELLAR/TV GLOBO

Rodrigo Lombardi e Carolina Dieckmmann no filme de A Viagem

Rodrigo Lombardi e Carolina Dieckmmann no filme de A Viagem; Globo aposta fichas em nostalgia

Nos últimos anos, a Globo tem apostado em revisitar sucessos do passado --e não é por acaso. Em meio ao crescimento de remakes, continuações e adaptações das novelas clássicas, especialistas apontam que o público atual busca cada vez mais entretenimentos que tragam familiaridade e conforto emocional. O fenômeno, conhecido como comfort nostalgia, ajuda a explicar movimentos recentes da emissora, como o remake de Vale Tudo (2025), os planos para Avenida Brasil 2 e o desenvolvimento de um filme inspirado em A Viagem (1994).

Para Rafaela Varella, diretora de operações da Hapu, agência especializada em conectar marcas com a geração Z, o fortalecimento da nostalgia tem relação direta com o momento emocional vivido pela sociedade nos últimos anos.

"A comfort nostalgia ganhou força porque existe um cansaço muito grande com o excesso de novidades. A gente viveu pandemia, excesso de informação e uma aceleração muito intensa da vida digital", analisa Rafaela em entrevista ao Notícias da TV.

Segundo a especialista, revisitar referências conhecidas funciona como uma espécie de refúgio emocional em meio ao cenário atual. "Olhar para referências conhecidas acaba trazendo uma sensação de segurança emocional, quase como um respiro no meio de tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo", afirma.

A percepção também é compartilhada por Queren Hapuque, diretora de novos negócios da Hapu. Para ela, o público passou a buscar conteúdos emocionalmente seguros depois de anos marcados por crises e instabilidade.

"Quando alguém revisita uma novela, uma música ou uma estética que marcou outra fase da vida, não está consumindo só aquela obra, está acessando também a sensação que tinha naquele período", explica.

Nesse cenário, a Globo aparece em posição privilegiada por ser dona de um catálogo considerado parte da memória afetiva coletiva do país. De acordo com Rafaela, poucas empresas de mídia brasileiras possuem um "arquivo emocional" tão poderoso quanto a emissora.

"Quando uma emissora revisita marcas como Vale Tudo, Avenida Brasil ou A Viagem, ela aciona um repertório emocional que já existe no público. São histórias que carregam memória, personagens reconhecíveis, frases, conflitos e universos narrativos que fizeram parte da rotina das pessoas", destaca.

As especialistas avaliam que esse movimento não atinge apenas quem acompanhou essas novelas originalmente. O fenômeno também conversa com jovens que sequer eram nascidos quando muitas dessas produções foram exibidas pela primeira vez.

"Os jovens entram por outros caminhos: pela estética, pelos personagens, pelos memes, pelos cortes nas redes sociais, pela curiosidade sobre algo que já tem um lugar importante na cultura", destaca Queren.

O consumo dessas obras por novas gerações também está ligado ao desejo de pertencimento cultural. "Essas referências oferecem uma mistura de familiaridade, descoberta e pertencimento", resume Rafaela.

Apostar em histórias conhecidas se tornou uma estratégia eficiente em um mercado cada vez mais competitivo. Com TikTok, streaming e excesso de opções disputando atenção, o familiar virou um diferencial.

"Uma história conhecida chega com memória, reputação e conversa social acumulada. Ela parece mais confiável porque já foi validada culturalmente", explica a diretora de operações.

Ao mesmo tempo, revisitar sucessos antigos não elimina desafios criativos. "O público quer reconhecer a essência da obra, mas também espera que ela dialogue com novas sensibilidades, novos comportamentos e novas formas de consumo", afirma Queren.

Apesar do sucesso recente da nostalgia, as especialistas avaliam que existe risco de saturação caso o mercado passe a depender apenas desse modelo. Ainda assim, elas acreditam que a Globo está conseguindo interpretar corretamente o comportamento atual do público.

"Hoje, a nostalgia responde muito bem a um sentimento coletivo de instabilidade. O sucesso atual da nostalgia não acontece por acaso: ele revela como o público está buscando entretenimento que pareça mais familiar, afetivo e emocionalmente seguro", conclui a diretora de novos negócios.


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