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REPRODUÇÃO/MULTISHOW

Eduardo Sterblitch e Tata Werneck em cena do humorístico E.T. - Edu e Tatá, do Multishow
E.T. - Edu e Tatá, programa de Eduardo Sterblitch e Tata Werneck que estreou no último dia 19 no Multishow, já é seguramente a melhor atração de humor da TV brasileira em 2026. Parte por mérito próprio, por ser de fato muito engraçado, mas parte também pela falta de outras produções do gênero, e de concorrência em alto nível. A Globo, que tem tradição histórica em bons humorísticos, muito provavelmente não exibiria algo como E.T.
A atração não chega a reinventar a roda. Trata-se de um programa de esquetes, que fazem graça de situações da vida, remetem a outras produções de TV e até a propagandas, sempre com humor sem-noção e improviso. Tata e Sterblitch são grandes craques nisso.
Quem acompanhou programas de humor nas últimas décadas notará que E.T lembra outras atrações bem-sucedidas, como Casseta & Planeta Urgente (1998-2010), TV Pirata (1988-1992) e Tá No Ar: A TV na TV (2014-2019), da Globo; Hermes e Renato (2000-2015) e Comédia MTV (2010-2011), da MTV; e Sterblitch Não Tem um Talk Show: O Talk Show (2020), que o próprio Eduardo fez para o Globoplay durante a pandemia.
O E.T. - Edu e Tatá, porém, tem um DNA bem específico, que mistura os estilos de ambos os humoristas. Sterblitch traz suas já famosas dancinhas e conteúdos sem-noção, empregado em esquetes que simulam comerciais de TV, enquanto Tata embarca em imitações perfeitas, esquetes com muito improviso e situações levadas ao extremo.
É um programa um tanto disruptivo, com piadas inclusive de cunho sexual. A primeiríssima cena de E.T. mostra Tata vestida de médica, simulando um exame de toque retal em Sterblitch, que está nu, cobrindo apenas a genitália. Há também um esquete hilário em que a comediante imita a jornalista Sandra Annenberg e fala sobre masturbação feminina, por exemplo.
Por sua veia humorística mais absurda, audaciosa, maluca, muito ágil, perspicaz e com boas sacadas, o E.T. se torna um programa muito divertido e até genial. Ao mesmo tempo, há restrições.
Não é um programa homogêneo --há esquetes excelentes, outros que passam batido, outros com tom experimental. Além disso, há piadas um tanto nichadas, com humor muito pautado pela experiência de estar cronicamente online nas redes sociais.
Um dos esquetes, por exemplo, é baseado nos vídeos da trend "trollei meu pai/minha namorada/meu namorado", em que internautas mostram pegadinhas (muitas vezes de mau gosto) com familiares.
Outro faz graça da militância social que algumas pessoas levam a extremos na internet. Ou seja, quem não tem essas referências provavelmente não entenderá a graça.
Seria difícil imaginar um programa como esse na Globo, não só pelas piadas mais sexuais --isso poderia ser cortado, editado ou modificado no roteiro, ainda que fizesse a atração perder parte de sua essência.
O programa tem esquetes muito ousados e muito específicos; definitivamente não é um conteúdo de ampla compreensão para agradar a toda família brasileira --muito menos à dita "família tradicional brasileira".
O núcleo de Humor da Globo tem estado irrelevante e deixado de lado nos últimos anos, não só pela derrocada de Marcius Melhem e pelas denúncias de abuso relacionadas a ele na emissora (ainda que isso tenha contado muito), mas também pela falta de investimento em boas produções. A sitcom Tô Nessa (2024), por exemplo, foi a pior comédia que a Globo já produziu.
A mudança na produção de humor na TV não parece um problema exclusivo da Globo, mas um sinal dos tempos. É difícil imaginar hoje uma atração que se torne um fenômeno nacional na emissora, como foram programas de Jô Soares (1938-2022), Chico Anysio (1931-2012) e Os Trapalhões (1977-1995) no passado, por exemplo.
Hoje, o humor encontra um território muito mais fértil na internet, onde há espaços e públicos para cada nicho. Há audiências que gostam de esquetes, de stand-up comedy, de pegadinhas, de imitações... Cada nicho, aliás, tem seus próprios nichos também, e o conteúdo vai ficando cada vez mais específico, distribuído para cada algoritmo pessoal nas redes.
Se a Globo parece mais inclinada a investir em atrações como o conservador Em Família com Eliana, na internet o humor tem mais liberdade para encontrar seu público.
O próprio E.T. tem se dado bem nisso: na plataforma de streaming Globoplay, está entre os produtos mais buscados, atrás apenas das novelas inéditas no ar na Globo e do Fantástico.
Por um lado, é uma pena que a Globo não banque mais atrações de humor corajosas e de fato engraçadas, como já fez no passado. Por outro, é bom que a emissora ainda invista em produções do gênero, ainda que com verba bem menor e espaço mais nichado.
O fato de esquetes do E.T. já estarem viralizando nas redes sociais prova a força que programas e profissionais como esses continuam tendo, ainda que os tempos tenham mudado drástica, profunda e irreversivelmente.
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