VALÉRIA ALMEIDA

Cria de Caco Barcellos, apresentadora já foi recusada por ser negra: 'Alisar o cabelo'

REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

mulher negra sorri em estúdio

Valéria Almeida é uma das suplentes do Encontro com Patrícia Poeta e apresenta o Paulistar

EDUARDO REIS

eduardo@noticiasdatv.com

Publicado em 5/9/2026 - 10h00

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Apresentadora do Paulistar, do Carnaval de São Paulo e suplente no Encontro, Valéria Almeida construiu uma carreira sólida no Jornalismo da Globo até chegar diante das câmeras. Mas quem hoje vê seus cachos no ar nem imagina que eles já foram o motivo de ela ter sido recusada em outra emissora. 

Natural da periferia de Santos (SP), Valéria não pensava em trabalhar na TV assim que se formou em Jornalismo. Quando uma emissora a chamou para uma entrevista, ela tomou um banho de água fria que ninguém gostaria.

"Disseram que eu levo jeito para TV, mas falaram que era para deixar meu cabelo crescer e alisar. E, na época, eu usava um cabelo black power, assim, todo redondinho", diz a apresentadora ao Notícias da TV, com exclusividade.

O trauma foi tão forte que ela traçou uma nova área que pretendia seguir na profissão: a fotografia. E o propósito era forte.

"Eu vou contar histórias pelas imagens e ninguém vai saber. Não importa se eu sou branca, se eu sou negra, se eu sou alta, se eu sou baixa, se eu nasci rica ou pobre. Você vai se sensibilizar pelo meu olhar e vai se abrir para escutar e conhecer essas histórias", afirma.

Essa vontade de contar histórias a levou à maior emissora do Brasil. Após ser indicada por uma ex-colega quando já era fotojornalista na Carta Capital, Valéria recebeu uma ligação inesperada.

"Com 26 anos, eu recebi um convite do Caco Barcellos para trabalhar no Profissão Repórter. Ele queria montar um núcleo feminino de videorreportagem. E aí eu recebi um convite que eu achei até que fosse um trote, porque eu não tinha mandado currículo para a Globo. Como é que estavam me ligando?", brinca.

Quando a conversa com o veterano de fato aconteceu, ela deixou claro que não mudaria sua aparência para migrar para a TV:

Eu vim conhecer o Caco e, primeiro, fiquei inventando um monte de desculpa, porque bateu uma síndrome do impostor. No final da minha entrevista, eu perguntei: 'Se você gostar de mim e eu gostar de vocês, eu vou precisar mudar o meu cabelo?'. E ele falou: 'Por que que você tá falando isso? Isso é um problema para você?'. Eu respondi: 'É sim. Se for para me corromper, eu prefiro não começar.

Logo no dia seguinte, quando Valéria foi escolhida para a vaga, Caco Barcellos fez questão de contar para todos a bravura daquela jovem jornalista. "Vim começar uma experiência, quando eu cheguei para trabalhar, todo mundo já sabia dessa história. O Caco já tinha contado para todo mundo."

Mesmo 15 anos depois, quando encontra com seu mentor nos corredores da Globo, eles brincam e relembram a situação. 

"Outro dia encontrei o Caco e falei para ele: 'Você se sente culpado pela minha felicidade?'. Aí ele falou que um pouquinho. Aí eu respondi: 'Você deveria se sentir bastante, porque foi você que me abriu a porta'."

No ar na TV aberta, ela tenta ser o que o jornalista foi para ela. "Eu vibro com cada negra que foi contratada e tem seu espaço. Porque, a partir do momento em que ela é contratada e tem espaço para mostrar o talento, aí pronto. Aí cabe a ela fazer a jornada dela, mas a porta precisa abrir", diz.

Contadora de histórias

Orgulhosa da origem humilde na Baixada Santista, Valéria Almeida quer, na TV, contemplar pessoas como seus avós, que a criaram desde pequena.

"Eu fui criada por avós que não tiveram acesso à educação. Eu fui criada por uma das minhas avós, que morreu sem saber ler nem escrever. Então, eu sempre penso que a minha avó também tinha o direito de saber. Ela também tinha o direito de entender o que estava sendo dito na televisão. E aí eu faço esse papel", afirma.

Além de apresentadora, jornalista ou repórter, a profissional quer, acima de tudo, contar histórias. No Paulistar, programa da Globo de SP, Valéria tomou o projeto para ela.

"Tem a minha forma de conduzir a conversa, tem a minha disposição em simplesmente vivenciar tudo que as pessoas têm. Não me interessa o que a gente vai comer, de que jeito a gente vai brincar. Eu só vou me permitindo viver tudo isso com as pessoas", diz.

A mistura de informação com entretenimento, para ela, é o ideal: "Eu não tenho vontade de abrir mão de nada. Adoro a possibilidade de a gente falar das coisas sérias, trazer reflexões, provocar a sociedade a pensar sobre temas que precisam ser abordados".

"E, por outro lado, eu adoro levar informação para as pessoas de um jeito que é mais leve. É uma comunicação que as pessoas se abrem e, muitas vezes, a gente consegue falar de temas que são profundos, mas entra pelo viés da brincadeira", finaliza.


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