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ENTRE DOIS MUNDOS
REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Felipe Santana na série Entre Dois Mundos, do Fantástico, no domingo (26): desafio e tanto
Com a estreia da série de Felipe Santana no Fantástico de domingo (26) e uma série de reportagens no Jornal Nacional iniciada na segunda (27), a Globo tenta corrigir uma distorção histórica da TV aberta e até mesmo do Jornalismo brasileiro como um todo. São poucos os profissionais que atuaram como correspondentes na China, que não só ameaça tirar os Estados Unidos do posto de maior economia do mundo, mas também se consolidou como um dos parceiros mais estratégicos do Brasil no tabuleiro geopolítico internacional.
Marcelo Ninio foi, durante muito tempo, o único correspondente brasileiro credenciado em solo chinês, escrevendo principalmente para o jornal O Globo. Ele também atuou como correspondente em Genebra, na Suíça, e em Jerusalém, pela Folha de S.Paulo.
Uma "solidão" que foi durante muito tempo explicada pela própria política chinesa, que queria ser vista pelo filtro estilizado dos filmes de Zhang Yimou, como O Clã das Adagas Voadoras (2004). Era uma estratégia até para minimizar o espaço dado em festivais para vozes dissidentes, que apontavam as contradições do país --como Jia Zhangke, de O Mundo (2004).
Esse verniz que, durante anos, fez o país ser percebido sob a ótica do "exotismo" --ou seja, de um Oriente inventado pelo próprio Ocidente-- acabou, porém, atrapalhando os planos do próprio governo. Afinal, como superar preconceitos e a visão estereotipada de parceiros como Brasil e África do Sul, integrantes do Brics, que ainda enxergam não só a China mas todo o leste asiático como um bloco homogêneo?
Não por acaso, a série Entre Dois Mundos começou a explorar a China justamente a partir de alguns desses estereótipos, especialmente na dualidade entre um país altamente tecnológico e, ao mesmo tempo, marcado por práticas milenares que desafiam o conceito ocidental de Modernidade.
Felipe Santana, porém, também trouxe uma comparação que acabou sendo mais interessante do que essas questões: por trás de todas essas narrativas do que é a China, há uma guerra acontecendo agora nos nossos bolsos --a da inteligência artificial, que tem colocado uma pressão cada vez maior sobre os Estados Unidos.
Vai ser interessante acompanhar, nos próximos episódios, não apenas a descoberta do repórter sobre Xangai e a própria China, desfazendo seus filtros --que, vale dizer, todos nós carregamos--, mas também a revelação de que o país produz imagens muito mais potentes e urgentes do que os clichês costumam sugerir.
O desafio é grande: como explicar ao público brasileiro que, quando Donald Trump fala sobre as "terras raras" brasileiras, também traça uma disputa direta com a China? Que o algoritmo do TikTok, controlado pela chinesa ByteDance, tem implicações sociais e políticas muito maiores do que manter uma pessoa com a cara enfiada durante horas no celular?
Santana tem nas mãos um novelo complexo de questões para desenrolar, mas também uma oportunidade rara: recolocar o Fantástico no centro das discussões que mobilizam a atenção do público ao longo de toda a semana.
Em um momento em que tecnologia, geopolítica e disputas econômicas se cruzam de maneira cada vez mais direta no cotidiano, explicar a China deixou de ser apenas uma pauta internacional --tornou-se uma maneira de explicar o próprio Brasil e o mundo contemporâneo.
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